Com clássicos e inéditas, She Past Away anima público paulistano e mostra que darkwave segue vivo

Fotos: Larissa Lara (@larissalarafotos)

Com a ascensão da internet, diversos estilos musicais que dificilmente teriam espaço nos meios de comunicação tradicionais passaram a ganhar visibilidade e a formar legiões de fãs ao redor do mundo. Um dos exemplos mais emblemáticos desse fenômeno é o revival do pós-punk/darkwave, vertente fortemente associada à música gótica e influenciada por grupos dos anos 1980 como Front 242, The Cure, Bauhaus e Depeche Mode. Esse movimento ganhou grande projeção ao longo da década de 2020, impulsionado sobretudo pelas redes sociais — em especial o TikTok, que hoje funciona como uma espécie de vitrine musical para as novas gerações, papel semelhante ao exercido pela MTV nos anos 1990 e 2000 e pelo Last.fm na década de 2010.

Um aspecto particularmente interessante desse segmento é o fato de seus principais expoentes não surgirem, necessariamente, de países tradicionalmente centrais na indústria musical, como Estados Unidos, Inglaterra ou Alemanha, mas de nações que historicamente recebiam menos atenção no circuito internacional. Um exemplo claro é o Molchat Doma, fenômeno da internet que surgiu na Bielorússia e que soma mais de 1,6 milhão de ouvintes mensais no Spotify e realizou, em novembro do ano passado, uma turnê pela América Latina com apresentações praticamente esgotadas. Outro nome de destaque é o duo turco She Past Away, que, mesmo cantando em seu idioma nativo — considerado um dos mais difíceis do mundo — , conseguiu construir uma base de fãs sólida e fiel ao redor do globo.

O She Past Away já havia se apresentado em São Paulo em 2022, no Cine Joia, em um show praticamente esgotado que evidenciou a força do gênero no Brasil. Já na última quarta-feira (28), quase quatro anos após aquela apresentação elogiada, a dupla retornou à capital paulista para um encontro com os seguidores, desta vez na VIP Station, casa localizada na zona sul da cidade. Com um público expressivo e receptivo, o show reforçou que essa sonoridade está longe de ser apenas uma moda passageira.

Para a abertura da noite, foram escalados os grupos Nefast Project e When I Die. O primeiro, formado por Maureen McGee (vocais), Ian Bueno (bateria eletrônica) e Joe Klenner (sintetizadores), fazia sua estreia oficial nos palcos e apresentou um repertório baseado nas faixas de seu EP Stalker.

Já o When I Die é um nome consolidado da cena gótica paulistana, conhecido por suas apresentações frequentes no clube Madame Satã e por abrir shows de bandas internacionais — como o The 69 Eyes, no ano passado. No set, o grupo apresentou alguns de seus singles mais conhecidos, como “Black Death Party”, “Pills” e “Doomsday”, além de um cover marcante de “Alice”, do Sisters of Mercy, recebido com entusiasmo pelos presentes.

Infelizmente, devido à forte chuva que atingia a capital, ao trânsito intenso e também à localização da casa — em Santo Amaro, distante do centro da cidade — , uma parcela considerável dos espectadores acabou perdendo as apresentações de abertura (inclusive este repórter que vos escreve, praticamente residente em outra cidade da região metropolitana). Ainda assim, trata-se de dois nomes interessantes, que merecem atenção de quem acompanha e aprecia esse tipo de sonoridade.

Com a casa cheia — ainda que não completamente sold out, algo compreensível para um evento realizado em pleno dia útil — , Volkan Caner (guitarra) e Doruk Öztürkcan (bateria e sintetizadores) subiram ao palco e deram início ao show presenteando o público paulistano com “İçimdeki Düşman”, single lançado neste ano e que provavelmente integrará o próximo álbum do duo. A faixa traz uma sonoridade dançante em conjunto de uma atmosfera sombria, indicando que o grupo deve seguir fiel à sua proposta estética e musical nos futuros lançamentos.

Na sequência, veio uma dobradinha com “Durdu Dünya” e “Katarsis”. Apesar da boa recepção do público, a escolha dessas músicas logo no início pode ser considerada um pequeno “erro estratégico” no setlist, já que ambas figuram entre os maiores sucessos da banda e talvez funcionassem melhor em um momento mais avançado da apresentação, quando a plateia já estivesse completamente aquecida.

O show prosseguiu com “Mizantrop”, faixa-título do próximo disco do She Past Away. A partir daí, a dupla passou a alternar de forma eficiente entre clássicos e músicas mais recentes, incluindo “Asimilasyon”, “Ritüel”, “Inziva” e “Kasvetli Kutlama”, além da inédita “Kaygan Kayaliklar”, que também estará presente no novo trabalho.

Se em 2022 os turcos surpreenderam pela simpatia — quebrando a pose naturalmente sisuda com interações constantes com o público — , desta vez a postura foi bem mais reservada. Na visita anterior, Volkan arriscava palavras e frases em português como “boa noite”, “saúde”, “muito obrigado” e “estou feliz por estar aqui”, enquanto Doruk incentivava os fãs a gritarem e se manifestarem a cada aproximação do palco. Agora, a opção foi por um show mais direto, com poucas falas e uma sequência quase ininterrupta de músicas. A visibilidade, como é comum em shows góticos, estava baixa, com muita fumaça e apenas as silhuetas dos músicos sendo exibidas no palco. Em contrapartida, a iluminação foi um dos grandes destaques da noite, com cores intensas e efeitos bem sincronizados às faixas. O público também fez bonito: dançou, cantou e se entregou à atmosfera sombria, com roupas e maquiagens góticas elaboradas — mal parecia que a celebração estava acontecendo em uma quarta-feira.

Após uma breve saída ao final do repertório regular, a dupla retornou ao palco para agradecer aos presentes e executar o bis, composto por “Bozbulanık”, “İzole” e “Hayaller?”, colocando os góticos para dançar uma última vez antes do encerramento.

Com mais uma passagem bem-sucedida por São Paulo, o She Past Away reforçou que o darkwave segue em plena ascensão, consolidando-se como um dos estilos alternativos mais relevantes da década. Cantando em turco, o duo também reafirma que a música é uma das poucas forças existentes no mundo capazes de atravessar, com naturalidade, barreiras culturais e linguísticas.

Fotos: Larissa Lara (@larissalarafotos)

Setlist

İçimdeki Düşman

Durdu Dünya

Katarsis

Mizantrop

Asimilasyon

Ritüel

Sessiz Orman

Kasvetli Kutlama

Inziva

Ruh

Kaygan Kayaliklar

İnsanlar

Bozbulanık

İzole

Hayaller?