Descerebration e a brutalidade de “Scorned God”

O Death Metal produzido em Minas Gerais carrega características singulares, fundamentado em uma tradição de rispidez e agressividade sonora ininterrupta que remonta aos pilares do gênero no Brasil. Inserido nessa linhagem de persistência underground, o Descerebration apresenta seu sexto trabalho de estúdio, “Scorned God” (2025). O álbum mantém a estabilidade e a relevância do power trio dentro de um circuito nacional que exige, acima de tudo, integridade artística.

Compreender a identidade sonora contida em “Scorned God” exige um recuo cronológico necessário à década de 1990. Aquele foi um período de intensa movimentação para o metal extremo brasileiro, caracterizado por uma rede vital de intercâmbio cultural. Antes da onipresença digital, o cenário operava sob a famigerada tradição do tape trading e dos fanzines impressos, elementos que ajudaram a forjar a música extrema brasileira. Mandar lista de catálogo datilografada, para troca pelo correio? Enviar entrevista por carta social pagando 1 centavo e aguardar um mês pelo retorno das respostas? Era isso e muito mais.

Nesse panorama, o Descerebration registrou em 1999 sua segunda demo, a clássica “Diabolical Grinder”. O lançamento dividiu o fôlego da época com nomes como o Imperial Doom — que um ano antes havia lançado a demo “Forest of Blood” — além de bandas como Rebaelliun, Zoltar, Kreditor, Ancestral Malediction, Sanatório, Funeratus e tantas outras que tomaram a cena de assalto. Para quem é pesquisador e entusiasta da memória do Metal, além de saudosista, a demo do Descerebration permanece como um clássico de uma geração.

Mas vamos ao que interessa. Lançado via Deranged for Leftovers Productions, com distribuição física coordenada pelas gravadoras Mutilation Productions e Misanthropic Records, o novo disco é um exercício de fidelidade aos preceitos do gênero. A tradicional configuração em trio, atualizada com a chegada de Jackson Veloso (vocal e baixo, ex-Sanatório), conferiu um novo vigor à base veterana formada por Rodolfo Scalioni (bateria) e Rondinelli Batistão (guitarra), resultando em uma obra coesa e desprovida de artifícios desnecessários.

Musicalmente, “Scorned God” apresenta oito faixas que nos lembram exatamente os tempos de “Diabolical Grinder”. A execução instrumental é pautada por andamentos velozes, sustentados por blast beats implacáveis e riffs construídos com palhetadas diretas e timbres ríspidos. A produção optou por preservar o clima old school, priorizando a crueza e o som na cara.

Tematicamente, o álbum mergulha no niilismo, explorando a aversão a dogmas e a percepção da degradação social. Faixas como “Contempt for God” e “Fool God” estabelecem a pegada esmagadora do play logo na abertura, enquanto “Chaos-Doomed-Human Race” e “We Worship the Pleasure of Death” destacam o uso preciso de guturais profundos, que servem como o veículo ideal para a narrativa obscura do disco.

Em última análise, “Scorned God” é a prova da longevidade de uma banda que mantém suas origens intactas. O Descerebration nos brinda com um trabalho que nos remete aos anos 90 e que mostra as convicções do grupo de forma inequívoca. 

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