Helloween celebra 40 anos de carreira com show grandioso e repertório especial em São Paulo

Em 2023, a banda alemã Helloween, um dos pilares da ramificação da música pesada conhecida como power metal, participou do festival Monsters Of Rock, no antigo Allianz Parque (atual Nubank Parque), conhecido popularmente como Estádio do Palmeiras. A apresentação, no entanto, contou com opiniões mistas. Se, por um lado, os fãs celebraram a oportunidade de rever o grupo na capital paulista, por outro, o show teve duração bastante limitada, com apenas dez faixas concentradas nos maiores sucessos da carreira, deixando de lado canções menos óbvias do repertório. Para completar, problemas técnicos comprometeram parte da experiência, desde um som relativamente embolado até um incidente com a queda da cortina durante a introdução.

Mais de três anos depois, o septeto finalmente retornou à maior metrópole da América do Sul com a missão de se reconciliar com seus fiéis seguidores paulistanos. No último sábado (19), a Suhai Music Hall recebeu mais de 9 mil headbangers, que esgotaram os ingressos para a apresentação. Desta vez, o grupo trouxe um repertório especial, concebido para celebrar seus 40 anos de trajetória e, simultaneamente, apresentar ao público Giants & Monsters, seu mais recente álbum, lançado em agosto de 2025. Vale destacar que a data em São Paulo marcou o encerramento de uma extensa turnê iniciada no ano anterior, que percorreu 28 países e contabilizou mais de 60 apresentações.

Pontualmente às 21h, os alto-falantes da Suhai Music Hall foram tomados uma sonora de “Let Me Entertain You”, de Robbie Williams, anunciando que o set estava prestes a começar. Pouco depois, Andi Deris e Michael Kiske (vocais), Kai Hansen, Michael Weikath e Sascha Gerstner (guitarras), Markus Grosskopf (baixo) e Dani Löble (bateria) ocuparam seus respectivos postos. Enquanto uma animação reunindo o logotipo do Helloween e as artes dos álbuns lançados ao longo de sua trajetória tomava conta do telão de LED, a expectativa do público atingia seu ápice.

Com todos os integrantes em cena, o septeto deu início ao espetáculo com “March of Time”, clássico de Keeper of the Seven Keys: Part II, cuja composição se encaixava perfeitamente com a temática de longevidade e celebração das quatro décadas de história da banda. A escolha também serviu para incendiar a plateia logo nos primeiros minutos. Na sequência, uma animação protagonizada pelo mago que estampa a capa de Keeper of the Seven Keys surgiu no telão, declarando que o público iria “experimentar uma viagem pelo tempo”. Foi então que os músicos emendaram “The King for a 1000 Years”, épica composição de mais de dez minutos que parte de uma introdução cadenciada até desembocar em passagens cada vez mais intensas, pontuadas por extensos solos de guitarra. Para acompanhar a execução, o palco ganhou uma belíssima ambientação visual com castelos góticos, reforçando a atmosfera épica da faixa.

Em um breve momento de interação com a plateia, Kiske e Deris agradeceram a presença dos fãs e o apoio dedicado ao Helloween ao longo de seus 40 anos de carreira. Os vocalistas também brincaram que, por se tratar da última apresentação da turnê, esperavam uma resposta ainda mais energética do público, provocando uma imediata onda de gritos e aplausos. Na sequência, o grupo atacou com “Future World”, um dos maiores clássicos de seu catálogo, que levou os presentes a cantar a plenos pulmões.

Logo depois, veio “This Is Tokyo”, faixa de Giants & Monsters, último álbum do conjunto, cujo refrão cativante rapidamente conquistou a plateia. A ambientação visual também merece destaque: o telão exibiu imagens da metrópole japonesa em uma estética cyberpunk.. Já “We Burn”, de The Time of the Oath, trouxe uma dose extra de agressividade ao repertório, com uma sonoridade que praticamente flertava com o thrash metal.

“Twilight of the Gods”, raridade de Keeper of the Seven Keys: Part I e presença pouco frequente nos repertórios recentes da banda, fez a alegria dos fãs mais antigos. A execução foi acompanhada por uma das produções visuais mais impactantes da noite, com imagens inspiradas no universo dos arcades e dos videogames clássicos. Para fechar o bloco, Kai Hansen assumiu os vocais em “Ride the Sky”, resgatando a sonoridade mais crua e agressiva dos primeiros anos do Helloween. A performance ganhou um reforço visual com referências à arte de Walls of Jericho, álbum de estreia do grupo.

Depois de revisitar clássicos, o conjunto sacou a recente “Into the Sun”, faixa presente em seu último trabalho completo, que trouxe uma atmosfera mais melancólica, marcada por delicadas passagens de piano e um belíssimo dueto entre Kiske e Deris. O momento evidenciou a sintonia entre os vocalistas, cuja parceria, iniciada em 2017, demonstra funcionar com a mesma eficácia tanto nos palcos quanto em estúdio.

A calmaria, porém, durou pouco. Na sequência, a banda resgatou “I’m Alive”, faixa de abertura de Keeper of the Seven Keys: Part I, que não havia sido executada em nenhuma outra apresentação da turnê. Outra escolha pouco frequente nos repertórios recentes do grupo, “Hey Lord!”, single de Better Than Raw, manteve a energia da plateia em alta. Neste momento, um dos destaques foi a postura de Andi Deris, que se aproximou da extremidade do palco e explorou seu carisma para arrancar ainda mais participação dos fãs na pista. Coube a “Universe (Gravity for Hearts)”, uma das composições mais pesadas do novo álbum, encerrar o bloco em grande estilo. A faixa também se destacou pela incrível produção visual, com imagens de galáxias, referências espaciais e elementos que remetiam a viagens pelo tempo.

Na sequência, Dani Löble assumiu os holofotes com um extenso solo de bateria, preparando o terreno para “I Want Out”, provavelmente o single de maior sucesso comercial do Helloween e um dos momentos mais aguardados da noite. Em seguida, Kiske e Deris surgiram sozinhos no palco, e mandaram um breve medley com trechos de “Suspicious Minds”, de Elvis Presley, e “Yesterday”, dos Beatles. A interação entre os vocalistas abriu caminho para “A Tale That Wasn’t Right”, inicialmente conduzida em formato acústico antes de ganhar a força da banda completa.

Para encerrar o repertório regular, Kai Hansen assumiu os vocais em “Heavy Metal (Is the Law)”, resgatando mais uma joia dos primeiros anos do grupo. Logo depois, seus companheiros se juntaram a ele para a execução de “Halloween”, épico de mais de 13 minutos que combina longas passagens instrumentais elaboradas com mudanças de andamento complexas.

Após alguns minutos de pausa, a introdução de “Invitation” anunciou o início do bis. A partir daí, o septeto emendou uma sequência de quatro de seus maiores clássicos: “Eagle Fly Free”, “Power”, “Dr. Stein” e “Keeper of the Seven Keys”. A reta final foi acompanhada por uma verdadeira celebração visual, com explosões de confetes, balões gigantes lançados em direção à plateia e personagens fantasiados invadindo o palco. Os elementos cenográficos deram um toque ainda mais festivo ao encerramento, transformando os minutos finais em uma experiência tão grandiosa quanto divertida.

Com um repertório de 20 canções, incluindo raridades e novidades, efeitos visuais de encher os olhos, execução tecnicamente impecável e carisma de sobra, o Helloween entregou uma apresentação à altura de seus 40 anos de história. A passagem pela Suhai Music Hall não apenas compensou as ressalvas deixadas pelo show de 2023, como também proporcionou aos fiéis seguidores paulistanos uma noite memorável, repleta de surpresas, celebração e momentos inesquecíveis. Uma despedida de turnê que fez jus à trajetória de uma das bandas mais importantes do power metal mundial.

Fotos: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

Setlist

March of Time

The King for a 1000 Years

Future World

This Is Tokyo

We Burn

Twilight of the Gods

Ride the Sky

Into the Sun

I’m Alive

Hey Lord!

Universe (Gravity for Hearts)

I Want Out

A Tale That Wasn’t Right

A Little Is a Little Too Much

Heavy Metal (Is the Law)

Halloween

Bis

Eagle Fly Free

Power

Dr. Stein

Keeper of the Seven Keys