A anatomia do caos: The Mist retorna inspirado, visceral e moderno em “The Dark Side of the Soul”

Falar do The Mist é falar de uma das bandas que melhor soube traduzir a estranheza e a técnica dentro do Metal brasileiro. Se nos anos 90 eles já desafiavam padrões, o retorno com um álbum completo agora, depois de três décadas, traz a banda renovada e pronta para desafiar seus próprios limites. Além disso, “The Dark Side of the Soul (Anatomy of the Soul)” disseca a psique humana com uma precisão cirúrgica.

O que chama a atenção logo de cara é o peso visual e “executivo” do lançamento. Ter o selo da Alma Mater Records (de Fernando Ribeiro, do Moonspell) e uma capa assinada pelo lendário Michael Whelan já coloca o trabalho em um patamar de destaque.

Musicalmente, a banda conseguiu um feito difícil: atualizar-se sem perder o DNA. A produção de André Damien somada à mixagem de Tue Madsen trouxe uma parede sonora que favorece muito a nova formação. A “cozinha” está renovada e agressiva, com Lina Linassi martelando a bateria e Wesley Ribeiro (baixo) criando uma base sólida para que as guitarras de Edu Megale possam fulminar o ouvinte com riffs e solos inspirados. Os riffs continuam cortantes e técnicos, mantendo aquela aura progressiva e meio “torta” que sempre diferenciou o grupo da massa do Thrash Metal convencional.

A temática criada por Vladimir Korg (um autêntico contador de histórias) é o grande diferencial aqui. Ao dividir as faixas como órgãos vitais — passando pelo coração (Cuore), cérebro (Brain) e fígado (Liver) —, o vocalista cria um conto teatral sobre a luta interna entre nossas funções biológicas e nossos demônios mentais.

No geral, o disco é bem homogêneo e não dá descanso. “The Curse of Life” já abre com os dois pés no peito, com Linassi destruindo na bateria e Megale despejando riffs agressivos, enquanto “(Brain) – Geppetto’s Song” traz uma crítica ácida à era digital e pode ser considerada o hit do álbum. Já “(Cuore) – The Dark Side of the Soul” flerta descaradamente com o Death Metal, pesada e veloz, com trechos mais cadenciados. Gostei também da pulmonar (desculpem o trocadilho!) “(Lungs) – Death Is Alive Inside Me” e da faixa de encerramento “(Death) – Return to Sender”.

É um disco rico em detalhes. Pode ser necessário ouvir mais de uma vez para pegar todas as nuances, mas a cada audição o álbum cresce. O The Mist conseguiu honrar o legado de “The Hangman Tree” e do experimental “Gottverlassen” (amo esse disco e o EP “…Ashes to Ashes, Dust to Dust…”) olhando para a frente, entregando um material relevante e cheio de personalidade, como só os mineiros conseguem fazer.

Uma curiosidade final: encontrei Vladimir Korg e Lina Linassi na edição de 2015 do Rock in Rio, enquanto prestigiavam o show dos conterrâneos do Eminence. Na época, dificilmente havia planos concretos de retorno (o The Mist voltaria apenas três anos depois e Linassi só assumiria as baquetas em 2021), mas fica o registro desse encontro premonitório. Quem diria que aquela tarde no Rio já continha as sementes da química que ouvimos hoje neste ótimo “The Dark Side of the Soul”.

Confira “(Brain) – Geppetto’s Song”:

Confira o álbum do Spotify: