O Nazareth é um dos nomes mais tradicionais da história do hard rock. Formada em 1968, na Escócia, a banda conquistou projeção internacional durante a década de 1970 e construiu uma carreira marcada por turnês incessantes e mais de duas dezenas de álbuns de estúdio. Ao longo de mais de cinco décadas, o grupo se consolidou como uma referência do gênero, influenciando inúmeras bandas.
Nos últimos anos, porém, a trajetória do conjunto foi marcada por desafios que colocaram sua continuidade em dúvida. Em 2013, o vocalista Dan McCafferty precisou deixar as turnês em razão do agravamento de uma doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC), encerrando uma passagem de mais de 40 anos à frente da banda. A perda tornou-se ainda mais dolorosa em 2022, com o falecimento do cantor, aos 76 anos. Pouco depois, o guitarrista Jimmy Murrison também precisou se afastar temporariamente dos palcos por problemas de saúde, enquanto o baixista Pete Agnew — único integrante da formação original ainda em atividade — passou a reduzir sua participação em algumas apresentações, sendo substituído ocasionalmente por seu filho, Lee Agnew. Nesse período, a banda ainda passou por mudanças nos vocais, com as breves passagens de Linton Osborne e Carl Sentance, até encontrar uma nova direção.
A renovação veio em 2025 com a chegada do vocalista suiço Gianni Pontillo. Desde então, o Nazareth retomou o ritmo intenso de apresentações e incluiu o Brasil em sua agenda. Após passar por Vitória, São Mateus e Cascavel, a banda retornou à capital paulista na última terça-feira (21), para um show no Manifesto Club. A turnê ainda seguirá por cidades como Belo Horizonte, Curitiba e Porto Alegre.
Lotação impressionante
O show contou com um público absurdo para um evento que estava acontecendo em pleno dia útil. A fila para entrar no Manifesto Club dobrava a esquina, enquanto bares e restaurantes da região recebiam dezenas de fãs que aguardavam o início do espetáculo hard rock. A organização da entrada, entretanto, deixou a desejar: profissionais da imprensa precisaram enfrentar a mesma fila do público, o que acabou prejudicando a cobertura do show de abertura da banda Phornax, uma das revelações do heavy metal nacional (caso deste repórter que vos escreve).
Outro aspecto que chamou atenção foi o perfil da plateia. Diferentemente do que costuma acontecer em grandes shows de rock, onde há uma mistura significativa de gerações, o público do Nazareth era formado, em sua maioria, por pessoas na faixa dos 40, 50 anos ou mais. Se a banda conseguiu se reinventar artisticamente para continuar relevante, ainda não parece ter conquistado uma renovação semelhante entre seus fãs.
Com alguns minutos de atraso e a casa completamente lotada — a ponto de o sistema de ar-condicionado se mostrar insuficiente para aliviar o calor — , Pete Agnew (baixo), Jimmy Murrison (guitarra), Lee Agnew (bateria) e Gianni Pontillo (vocais) subiram ao palco ao som de “Telegram”, abrindo a noite com uma performance pesada e energética. A faixa, originalmente presente em Close Enough for Rock ’n’ Roll, evidenciou a excelente forma do novo vocalista, que rapidamente mostrou personalidade e potência para assumir um repertório tão emblemático.

Então, o show emendou uma série de clássicos, passando por “Miss Misery”, “Razamanaz”, “Shanghai’d in Shanghai”, “This Flight Tonight”, “Whiskey Drinkin’ Woman” e, claro, o supremo “Love Hurts”. Ao ver o Nazareth em ação, fica evidente que a banda não se prende a uma única sonoridade, transitando por diferentes estilos com naturalidade. Algumas composições flertavam com o blues e o southern rock; outras assumiam a forma de baladas melódicas; outras traziam refrões mais leves e convidativos ao canto do público, quase com apelo pop; enquanto algumas apostavam em uma instrumentação mais pesada, ancorada no hard rock e no heavy metal. Impressionantemente, Gianni adaptava sua voz a cada uma dessas nuances, enquanto Pete, Jimmy e Lee também executavam com precisão os diferentes ritmos em seus instrumentos. Além da técnica, o frontman se destacava pelo carisma, mantendo constante interação com os fãs entre as canções.
Se ainda havia dúvidas sobre o futuro do Nazareth após tantas mudanças de formação, a apresentação em São Paulo mostrou que a banda segue viva e cheia de energia. Gianni Pontillo não tenta substituir Dan McCafferty; ao contrário, imprime sua própria identidade sem desrespeitar o legado construído pelo grupo. A julgar pela resposta do público e pela qualidade da performance, a nova fase parece ter encontrado o equilíbrio ideal para manter uma das maiores instituições do hard rock mundial em plena atividade.
Fotos: Anderson Hildebrando






























Setlist
- Telegram
- Miss Misery
- Razamanaz
- Shanghai’d in Shanghai
- Love Leads to Madness
- Dream on
- Holiday
- This Flight Tonight
- Light Comes Down
- Whiskey Drinkin’ Woman
- Beggar’s Day
- Changin’ Times
- Hair of the Dog
- Love Hurts
- Turn On Your Receiver
- Where Are You Now
- Go Down Fighting
