Tendo iniciado sua carreira em meados da década de 1980, o Sanctuary foi um nome importante da cena heavy metal estadunidense, especialmente em sua face mais underground. Com os álbuns Refuge Denied (1987) e Into the Mirror Black (1989), trabalhos que combinavam o peso do heavy e do thrash metal a elementos mais técnicos e progressivos, a banda construiu uma sólida reputação no circuito independente. Quase quatro décadas depois, esses discos ainda são considerados referências dentro do gênero.
O grupo também se destacou pela voz singular de Warrel Dane, um dos grandes vocalistas da história do metal. Sua importância para a cena se tornou ainda maior com a criação do Nevermore, grupo que posteriormente se consolidaria como uma das grandes referências do progressivo e técnico. Assim, embora o conjunto nunca tenha alcançado o mesmo nível de sucesso comercial de outras bandas de sua geração, possui uma histórica inegável dentro da música pesada.
Apesar de seu legado relevante, o quinteto, em mais de 40 anos de trajetória, jamais havia se apresentado em São Paulo, uma das principais cidades do mundo quando o assunto é rock e heavy metal e tradicional ponto estratégico para turnês internacionais. Felizmente, a longa espera finalmente chegou ao fim. No último domingo (30), o emblemático nome da cena norte-americana desembarcou na metrópole para apresentar ao público paulistano sua sonoridade singular. A apresentação aconteceu no palco da Burning House, em evento organizado pela produtora Dark Dimensions.
Mesmo com o frio que tomava conta da capital paulista e com o show acontecendo em pleno domingo, os fãs não mediram esforços para conferir as lendas no palco. O pequeno clube underground foi completamente tomado pelos fãs, que esgotaram os ingressos. Próximo ao horário do show, a lotação era tamanha que se tornava difícil até mesmo circular pelo local. Embora existam diversas bandas na cena paulistana com sonoridade alinhada à proposta do Sanctuary, curiosamente, nenhuma atração foi escalada para realizar a abertura.
Com apenas alguns minutos de atraso em relação ao horário previsto, Lenny Rutledge e Will Wallner (guitarras), Dave Budbill (bateria), George Hernandez (baixo) e Joseph Michael (vocal, que assumiu a função após o falecimento de Warrel Dane, em 2017) subiram ao palco. Logo de cara, foram recebidos por uma intensa salva de palmas e por um coro entoando o nome da banda. O set teve início com “Arise and Purify” e “Frozen”, ambas do trabalho mais “recente” do grupo, The Year the Sun Died, lançado em 2014. As duas faixas apresentaram de imediato uma faceta mais agressiva e direcionada ao thrash metal. Entretanto, neste momento, o microfone de Joseph Michael apresentou problemas, alternando momentos em que sua voz soava muito baixa com outros marcados por microfonias. Mesmo diante do contratempo, os fãs não reclamaram e seguiram cantando alto.

Com a falha solucionada, veio o clássico “Die for My Sins” e seu riff extremamente cativante, responsável por levar a Burning House à loucura. A empolgação foi tamanha que o próprio Michael chegou a dividir o microfone com os fãs posicionados na beira do palco — uma interação pouco comum em apresentações de heavy metal tradicional. A intensidade continuou em “Seasons of Destruction”, faixa originalmente presente no segundo álbum, que também provocou um enorme coro na pista. Para diminuir momentaneamente o clima de agitação, veio “Veil of Disguise” apresentando um riff mais lento e melancólico, acompanhado pelos vocais agudos de Michael, em um dos momentos de maior alcance vocal apresentados pelo cantor durante a noite. A calmaria, porém, durou pouco. Logo a agressividade voltou a tomar conta do palco com “Future Tense”, “Taste Revenge” e “Long Since Dark”. As faixas mais pesadas fizeram o público cantar a plenos pulmões e levaram, mais uma vez, Joseph Michael a dividir o microfone com os seguidores.

Com a plateia completamente dominada, o grupo interrompeu momentaneamente a sequência de clássicos para apresentar duas releituras inusitadas de nomes fundamentais do rock psicodélico: “Breathe”, do Pink Floyd, seguida por “White Rabbit”, do Jefferson Airplane. Foi interessante observar como canções originalmente associadas a uma sonoridade tão distinta ganharam uma roupagem consideravelmente mais pesada nas mãos do Sanctuary. Ao término dos covers, o repertório voltou ao catálogo do grupo. O quinteto passou pelo clássico “Battle Angels”, seguido por “Not of the Living”, novo single que provavelmente estará presente em um futuro álbum completo, antes de encerrar o set regular com “The Year the Sun Died”, faixa que também dá nome ao disco lançado em 2014. Após uma breve pausa e com os fãs berrando o nome da banda a plenos pulmões, os músicos retornaram ao palco para o bis. A noite chegou ao fim com o clássico “Soldiers of Steel”, fechando a noite com ânimo total.

Certamente, o Sanctuary compensou as décadas de espera para finalmente visitar São Paulo com uma apresentação energética e tecnicamente impecável. A chamada “cozinha” da banda foi um espetáculo à parte, com os músicos executando cada faixa com precisão e extremo cuidado. Já o frontman Joseph Michael, além de honrar o legado de Warrel Dane com uma voz potente e segura, entregou uma performance marcada pelo carisma e pela proximidade com os fãs, praticamente eliminando qualquer barreira entre público e artista. Que não demorem muito para retornar, e que seja com um trabalho cheio de faixas inédita no setlist!
Fotos: Jacqueline Souza












Setlist
Arise and Purify
Frozen
Die for My Sins
Seasons of Destruction
Veil of Disguise
Future Tense
Taste Revenge
Long Since Dark
Epitaph
The Mirror Black
Breathe
White Rabbit
Battle Angels
Not of the Living
The Year the Sun Died
Soldiers of Steel
