Quando se fala na cena rock de Seattle dos anos 1990, é inevitável lembrar da força do grunge. Bandas como Pearl Jam, Mudhoney e Alice in Chains não apenas ajudaram a transformar o cenário musical daquele período, como também deixaram uma influência que permanece até os dias atuais. No entanto, enquanto o gênero dominava os holofotes, outras vertentes do rock e do punk também encontravam espaço para se desenvolver no underground. Entre os nomes que mais se destacaram dentro do hardcore punk, certamente não é possível deixar de lado o Zeke.
Formado em 1992, o grupo surgiu em um momento em que o hardcore já estava amplamente difundido no circuito underground e era reconhecido por sua agressividade e velocidade. Ainda assim, o Zeke levou essas características a níveis extremos. A sonoridade da banda impressiona pela velocidade dos riffs, pelas linhas de bateria marcadas por skank beats frenéticos e pelos vocais executados em uma intensidade que, por vezes, parece difícil de acompanhar. Embora nunca tenha alcançado um grande sucesso comercial — não por falta de competência, mas talvez justamente pela decisão de preservar sua identidade e suas raízes em vez de tornar a música mais acessível — , essa combinação de velocidade e insanidade sonora garantiu ao grupo passagens por gravadoras importantes, como Epitaph e Relapse, dois dos selos de maior relevância dentro do punk e da música extrema.
O impacto do Zeke também ultrapassou o circuito estritamente musical. “Death Alley” fez parte da trilha sonora de Tony Hawk’s Pro Skater 4, enquanto “Long Train Runnin’” apareceu em Tony Hawk’s Underground 2. Os dois jogos tiveram papel importante na apresentação de diferentes vertentes do punk e do rock, ajudando a ampliar o alcance de bandas que dificilmente encontrariam espaço na mídia tradicional.
Na última sexta-feira (4), após mais de três décadas de carreira e uma extensa discografia, o Zeke finalmente fez sua estreia em São Paulo. A apresentação integrou uma pequena turnê pelo Brasil, que também passou por um festival em Sorocaba, além de contar com um pocket show realizado no Red Star Studios, na capital paulista. A produção ficou a cargo da Xaninho Discos, selo já conhecido por seu trabalho de divulgação da música extrema.
Para iniciar a noite, foram escaladas duas atrações de diferentes vertentes da música pesada. O Subcut, banda formada em 1995, em Presidente Prudente, e um dos nomes pioneiros do grindcore nacional, foi o primeiro a subir ao palco. O trio realizou uma apresentação curta, mas extremamente intensa, chegando a executar cerca de 20 músicas. Blast beats velozes, riffs ágeis e vocais rasgados foram as principais características de faixas como “Últimos Minutos de Consciência”, “Determinando as Vontades à Inércia” e “Misantropo”. Afonso Moura (bateria), Andre Luiz (guitarra) e Jerson (vocais) alternavam nos vocais ao longo do repertório, gerando uma dinâmica diferente no set. Embora esteja em atividade há mais de três décadas, o Subcut ainda permanece relativamente desconhecido do grande público e certamente merece maior atenção entre os apreciadores da música “bagaceira”.

Na sequência, foi a vez do Ratos de Portão, uma das maiores instituições do hardcore nacional, dar continuidade à celebração da música extrema. Com bandeiras de Carlos Marighella e do MST decorando o cenário, a banda apresentou set repleto de clássicos de sua ampla discografia, como “Farsa Nacionalista”, “Expresso da Escravidão”, “Crucificados pelo Sistema” e “Aids, Pop, Repressão” e muitas outras. Curiosamente, porém, a resposta da plateia foi bastante morna, sem os tradicionais mosh pits e stage dives que costumam marcar as apresentações do grupo. A falta de entusiasmo chegou a ser comentada pelo guitarrista Jão, que brincou dizendo que “até em igreja evangélica o povo estava mais animado”.

Diante da pouca movimentação da plateia, o frontman João Gorod tentou manter a interação em alta, conversando bastante entre as músicas, contando piadas e, em diversos momentos, entoando um trecho de “Rock Pra Cachorro”, de Eduardo Dusek — “Troque seu cachorro / Por uma criança pobre” — , em uma brincadeira com o nome da atração principal da noite, o Zeke.

Então, com a casa já lotada, chegou o momento do aguardado Zeke. Sem grandes extravagâncias, os integrantes do quarteto surgiram no palco de maneira bastante simples, vestindo calças jeans e camisetas pretas, e com uma bandeira com a capa de Hellbender (2018) servindo de efeite. A simplicidade visual contrastava com a verdadeira avalanche sonora que estava prestes a tomar conta do local. Em poucos segundos, o grupo começou a despejar sobre o público mais de três décadas de experiência no hardcore.

O set transcorreu praticamente sem pausas. Música após música, executadas em uma velocidade tão absurda quanto humanamente possível, mas com uma precisão impressionante e sem jamais perder o ritmo. Mesmo para quem está acostumado ao punk e à música extrema, era difícil não se impressionar com a dinâmica da apresentação e, em determinados momentos, até mesmo se perder entre as faixas, tamanha a velocidade com que uma composição emendava na outra. Era até mesmo difícil distinguir onde uma música terminava e a seguinte começava.
À frente do grupo, o vocalista Blind Marky Felchtone disparava as letras em um ritmo alucinante, muitas vezes dando a impressão de praticamente balbuciar as palavras. Nesse aspecto, foi possível perceber algumas semelhanças com a postura adotada por João Gordo, do Ratos de Porão, que certamente foi influenciado pelo músico. Ao lado do guitarrista Jeff Hiatt, o vocalista também ajudava a construir uma parede de riffs executados em velocidade avassaladora. Enquanto isso, o baterista Donny Paycheck parecia simplesmente destruir seu instrumento com skank beats absurdamente rápidos, difíceis até mesmo de acompanhar visualmente.

Depois de adotar uma postura relativamente comportada durante as apresentações anteriores, o público finalmente se entregou à proposta da noite. A pista se transformou em um verdadeiro caos, com rodas de mosh surgindo por todos os lados e a galera pogando diante da avalanche sonora proporcionada pelo quarteto.
O Zeke é frequentemente descrito como uma das bandas mais rápidas do hardcore. Ao ler essa afirmação em uma resenha de disco, entrevista ou publicação de site ou fanzine, é fácil interpretá-la como um exagero ou apenas mais um clichê utilizado para definir uma banda de punk. Porém, basta assistir ao grupo ao vivo para perceber que não há hipérbole alguma nessa descrição: eles realmente conseguem levar a velocidade e a agressividade do hardcore ao extremo — e, mais impressionante, fazer isso com precisão suficiente para surpreender até mesmo quem já está acostumado com os limites do gênero.
Fotos: Daniel Agapito













































