Na década de 2000, a cena rock no mainstream brasileiro foi amplamente marcada pelo emo e pelo hardcore melódico. Representantes desses estilos estavam frequentemente presentes em programas de auditório, enquanto seus hits dominavam as rádios e canais voltados ao público jovem, como MTV e Mix TV.
Ainda assim, alguns grupos que caminhavam na contramão do que estava em alta conseguiram conquistar espaço na mídia com sonoridades bastante distintas. Na cena alternativa nacional, um dos nomes que se destacou nesse contexto foi o grupo brasiliense Móveis Coloniais de Acaju. A banda construiu uma sonoridade bastante particular, combinando rock, indie rock, ska, MPB e ritmos do Leste Europeu, mistura que os próprios integrantes costumavam definir, de maneira bem-humorada, como uma espécie de “feijoada búlgara”.
Ao longo de sua primeira fase, o grupo lançou três álbuns de estúdio: Idem (2005), C mpl te (2009) e De Lá Até Aqui (2013). Entre suas músicas mais conhecidas estão “O Tempo”, “Copacabana” e “Dois Sorrisos”, que ajudaram a ampliar a visibilidade da banda em portais e veículos especializados em música. Apesar da repercussão positiva e de uma base fiel de fãs, o conjunto anunciou uma pausa nas atividades em 2016, após 18 anos de trajetória.
Felizmente, para a alegria dos fãs antigos e daqueles que não tiveram a oportunidade de acompanhar a banda durante seu auge, o hiato de cerca de oito anos finalmente chegou ao fim. Em novembro de 2024, o grupo anunciou seu retorno com a turnê “O Reencontro”, realizada em 2025 ao lado d’O Teatro Mágico, com apresentações no Rio de Janeiro, Brasília, Belo Horizonte e São Paulo.
Apesar da expectativa gerada pelo retorno, a continuidade das atividades do grupo permaneceu incerta após a conclusão da turnê, sem novas apresentações anunciadas naquele momento. A espera, porém, chegou ao fim recentemente. Na última sexta-feira (11), o Móveis Coloniais de Acaju voltou aos palcos paulistanos para uma apresentação na Casa Natura Musical.
O show contou com lotação máxima e apresentou a banda praticamente com sua formação original completa: André Gonzales (vocal), Beto Mejía (flauta transversal), Esdras Nogueira (sax barítono), Fabio Pedroza (baixo), Fernando Jatobá (guitarra), Paulo Rogério (sax tenor), Gabriel Coaracy (bateria), Xande Bursztyn (trombone) e Gustavo Dreher (teclados). Ao longo de um repertório de 17 músicas, o conjunto revisitou os três álbuns de sua discografia, passando por faixas como “Seria o Rolex?”, “Descomplica”, “Campo de Batalha” e “Bem Natural”, além dos sucessos “Dois Sorrisos” e “O Tempo”, que levaram seus seguidores a cantar em coro generalizado.

Um dos grandes destaques da apresentação foi a forte presença instrumental, marcada pelo protagonismo dos metais, baixo marcante e bateria potente. O set foi conduzido em uma dinâmica bastante interessante, na qual todos os integrantes pareciam ter a mesma importância sobre o palco. Os músicos dançavam, pulavam e interagiam constantemente com a plateia, criando uma atmosfera em que não havia um único ponto de atenção durante as músicas.
A interação com o público, aliás, foi um dos elementos centrais da festa. O grupo buscou extrair o máximo da participação da galera, promovendo coros, pedindo luzes dos celulares em movimento durante coros, danças e até a famosa brincadeira do “abaixa e sobe”, na qual todos se agacham e levantam apenas ao comando dos vocais. O frontman André Gonzales, mesmo com uma perna quebrada e utilizando uma bota ortopédica, fez o possível para entrar no clima. Apesar das limitações de movimento, o cantor não mediu esforços para dançar no ritmo do ska.

Durante todo o set, a sensação era de que praticamente não existiam limites entre público e artista. Essa ausência de formalidades, porém, foi levada ao extremo durante “Copacabana”, quando os músicos deixaram o palco e foram até a pista com seus instrumentos para dançar e curtir junto à plateia. O momento sintetizou bem a proposta da banda: transformar o show em uma celebração coletiva, na qual músicos e fãs compartilham o mesmo espaço.
Apesar de os integrantes terem comentado que estão trabalhando em novas canções, nenhuma faixa inédita foi apresentada durante a noite. Entretanto, durante “Indiferença”, foram realizadas captações das vozes dos fãs, que provavelmente serão utilizadas em algum material ao vivo ou até mesmo em um novo single em um futuro próximo.
Após oito anos de ausência dos palcos, o Móveis Coloniais de Acaju retornou não apenas para “cumprir tabela”. Os músicos demonstraram que continuam capazes de entregar uma apresentação altamente energética e profissional, com o show deles sendo uma espécie de “bloco de carnaval fora de época” voltado ao público alternativo.
Setlist
- Seria o Rolex?
- Descomplica
- Swing hum e meio
- Falso retrato (U-hu)
- Aluga-se-vende
- Campo de batalha
- Vejo em teu olhar
- Sem palavras
- Bem natural
- Beijo seu / Dois sorrisos
- Não chora
- O tempo
- Lista de casamento
- Perca peso
- Indiferença
- Adeus
- Copacabana
