Fotos: Rafael Bino (credenciado pelo site Fúria Underground)
Em junho de 2026, a produtora NDP (New Direction Productions), marca conhecida por sua atuação em eventos do cenário underground, anunciou o retorno da banda californiana Samiam, um dos grupos pioneiros do emo e do hardcore melódico. A apresentação marcaria a volta do conjunto ao Brasil após três anos de ausência, desde sua última passagem pelo país, durante o Oxigênio Festival 2023, quando foi uma das atrações principais do encontro de música alternativa. Desta vez, a turnê também passaria por cidades como Goiânia, Curitiba e Belo Horizonte, aumentando a expectativa e a ansiedade entre os fãs.
Porém, à medida que a data do evento se aproximava, surgiram motivos para preocupação. No dia 24 de setembro, o show na capital goiana foi cancelado em razão de uma febre repentina do vocalista Jason Beebout. A notícia naturalmente levantou dúvidas sobre a possibilidade de a apresentação em São Paulo também ser suspensa. Felizmente, apesar de visivelmente debilitado e indisposto, o frontman conseguiu subir ao palco no dia seguinte, 25 de setembro, sexta-feira, para comandar a apresentação no Hangar 110, templo do hardcore e do punk rock paulistano.
Para completar a programação, duas atrações da cena nacional foram convocadas. A primeira foi a Burning Rage, um dos destaques da nova safra do hardcore melódico goiano. Com letras em português e uma sonoridade que transita entre referências da cena internacional dos anos 1990, como NOFX, Face to Face e Millencolin, e nomes fundamentais do hardcore nacional, como Dead Fish e CPM 22, o quinteto mostrou por que vem conquistando espaço no cenário.

Em faixas como “Acordar”, “Falsas Verdades” e “Aprisionadas”, os músicos apresentaram um repertório acessível, sustentado por composições de caráter pessoal, instrumental rápido e animado e uma postura de palco bastante cativante. O resultado foi uma apresentação que evidenciou o potencial do conjunto para conquistar ainda mais espaço e visibilidade dentro do hardcore nacional, e que acabou conquistando a simpatia dos presentes na pista.

Na sequência, nada menos do que a lendária banda Garage Fuzz, diretamente de Santos (SP), reconhecida como um dos nomes pioneiros do hardcore melódico no Brasil. A escolha não poderia ser mais certeira: em diversas entrevistas ao longo dos anos, os integrantes destacaram o Samiam como uma influência direta na construção de sua sonoridade.

Com o Hangar 110 já lotado, o quinteto aproveitou a ocasião para apresentar algumas faixas de seu novo EP, PowerPlant, lançado em agosto, incluindo “Flashpoint” e “220V”. O repertório, porém, também revisitou grandes clássicos dos 35 anos de carreira do grupo, como “It’s Funny”, “Elephant”, “Cortex” e “Shore of Hope”.

A resposta do público foi imediata. Mosh pits, stage dives e fãs avançando para a frente do palco para dividir o microfone com o vocalista Victor Franciscon deram o tom da apresentação. O Garage Fuzz entregou, assim, um show poderoso e enérgico, capaz de rivalizar em impacto com a própria atração principal.

Então, chegou o momento dos “donos da noite” se reencontrarem com seus fãs. Curiosamente, a primeira apresentação do Samiam no Brasil aconteceu justamente no Hangar 110, no já distante ano de 2010. O set começou com a energética “Lake Speed”, presente no mais recente álbum, Stowaway, lançado em 2023. Na sequência, o grupo fez uma breve passagem por Trips (2011), resgatando as faixas “Clean Up the Mess” e “Dead”. Porém, foi com “Factory”, do importante disco Astray (2000), que o clube definitivamente veio abaixo. A partir dali, o espaço se transformou em um verdadeiro pandemônio, com fãs se lançando do palco e cantando as letras em um volume praticamente ensurdecedor. Percebendo a energia da plateia, o conjunto manteve o ritmo e emendou outras duas faixas do mesmo álbum: “Super Brava” e “Bird Bath”.

Depois do primeiro bloco de intensa euforia, os músicos voltaram ao material mais recente, apresentando “Monterey Canyon” e “Lights Out Little Hustler”, faixas que evidenciam uma sonoridade mais próxima do hardcore melódico do que do emo que ajudou a consagrar os californianos. A pausa nos clássicos, porém, durou pouco. Logo depois, a banda engatou uma sequência de músicas que já fazem parte do imaginário dos fãs. “Dull”, “Mud Hill”, “Sunshine” e “She Found You” foram recebidas como verdadeiros hinos, cantadas em uníssono por praticamente todo o público.

Com o Hangar 110 completamente lotado — a ponto de até mesmo se locomover pelo espaço se tornar uma tarefa difícil — , a intensidade da plateia só aumentava. Ao mesmo tempo, era evidente que Jason Beebout ainda sentia os efeitos da febre que havia provocado o cancelamento da apresentação em Goiânia. O vocalista cantou em um tom mais baixo durante boa parte do repertório, movimentou-se pouco pelo palco e permaneceu praticamente o tempo todo junto ao pedestal do microfone, além de estabelecer menos interação com os fãs do que seria habitual. Diante disso, coube à própria plateia assumir parte do protagonismo, com uma sucessão de stage dives, gritos e coros que ajudaram a sustentar o clima da apresentação.

Na reta final, o Samiam executou “Capsized”, um de seus maiores sucessos dos anos 1990. Parte do público ainda aguardava “Full On”, outra faixa fundamental da trajetória do grupo, mas já era possível perceber que Jason estava extremamente cansado, e o grupo saiu do palco. No entanto, a reação geral foi de compreensão diante das circunstâncias. Afinal, considerando o estado de saúde do vocalista e o cancelamento ocorrido apenas um dia antes, o simples fato de o Samiam ter conseguido realizar aquela apresentação já representava, por si só, um esforço considerável.
Mesmo sem entregar uma apresentação em suas condições ideais, o Samiam protagonizou uma noite que dificilmente será esquecida por seus seguidores paulistanos. Se a evidente fragilidade física de Jason Beebout impediu que o show alcançasse toda a intensidade que se poderia esperar, a resposta da galera compensou qualquer limitação: cada refrão, stage dive e coro coletivo deixou claro o quanto as músicas do grupo permanecem relevantes décadas depois de seu surgimento. Que voltem logo em uma situação melhor e com Jason completamente recuperado!
































Setlist
Lake Speed
Clean Up the Mess
Dead
Crystallized
Factory
Super Brava
Bird Bath
Monterey Canyon
Lights Out Little Hustler
Mexico
September Holiday
Dull
Mud Hill
El Dorado
80 West
Sunshine
Bad Day
Capsized
She Found You
Full On
