Apocalyptica prova que o heavy metal vai além das guitarras em show dedicado ao Metallica
Indubitavelmente, uma das características mais fascinantes do heavy metal é a diversidade que existe dentro do gênero, permitindo que a música seja explorada e expressa das mais variadas formas. Nesse universo, a pluralidade de ideias e as possibilidades criativas parecem inesgotáveis, abrangendo desde composições sobre política, críticas a movimentos religiosos e regimes totalitários até fantasias medievais, acontecimentos históricos e temas mórbidos relacionados à violência e à morte. Essa diversidade, entretanto, não se limita às letras, estendendo-se também aos instrumentos utilizados para construir a sonoridade das bandas. Afinal, o heavy metal não depende exclusivamente da combinação tradicional de baixo, guitarra e bateria, incorporando, em diferentes propostas, desde elementos eletrônicos até instrumentos folclóricos.
Quando o assunto é explorar sonoridades pouco convencionais dentro da música pesada, um dos primeiros nomes que vêm à mente é o da banda finlandesa Apocalyptica. Formado em 1993 por estudantes da Academia Sibelius, uma das principais instituições de ensino musical da Finlândia, o grupo surgiu de maneira despretensiosa, com seus integrantes reinterpretando clássicos do heavy metal por meio de violoncelos. A proposta, porém, caiu no gosto do público headbanger e deixou de ser apenas uma experiência musical para se transformar em um projeto consolidado. Desde então, o conjunto lançou mais de dez álbuns de estúdio, percorreu diferentes partes do mundo em turnês e participou de inúmeros festivais de música pesada, dividindo espaço com nomes como Megadeth, Metallica, Iron Maiden, Avantasia e Kreator, entre tantos outros.
Um dos trabalhos fundamentais para a trajetória do conjunto foi Plays Metallica by Four Cellos, lançado em 1996. O álbum projetou o Apocalyptica internacionalmente e demonstrou como a energia e o peso do heavy metal poderiam ser traduzidos por meio de instrumentos tradicionalmente associados à música erudita. Quase três décadas depois, em 2024, a banda retomou essa proposta com Plays Metallica, Vol. 2, revisitando outras composições do catálogo do Metallica e reafirmando a força de uma fórmula que se tornou sua marca registrada.
Após quase três anos desde sua última passagem por São Paulo, na última sexta-feira (16), o grupo retornou à capital paulista para apresentar um repertório especial dedicado às releituras de uma das bandas mais importantes da história do heavy metal. O show aconteceu no Carioca Club, mesmo espaço que havia recebido o grupo em 2024, e foi organizado pela produtora Overload.
- Experiência geral e shows
Apesar da forte chuva que atingiu a capital paulista, da concorrência com diversos outros shows de heavy metal ao longo de toda a semana — que contou com apresentações de nomes como The Gathering, Gruesome, Hellbutcher, Mortis e Zakk Wylde — e do fato de se tratar de um set dedicado a releituras e sem faixas autorais, o evento conseguiu atrair um público expressivo. Embora não estivesse completamente esgotado, tanto a pista quanto os camarotes do Carioca Club ficaram bastante movimentados ao longo da noite. A boa presença de público demonstrou não apenas a admiração dos paulistanos pelo trabalho do grupo finlandês, mas também a força e a longevidade do legado do Metallica.
Pontualmente, às 21h, Eicca Toppinen, Paavo Lötjönen e Perttu Kivilaakso, nos violoncelos, acompanhados pelo baterista Mikko Kaakkuriniemi, subiram ao palco para dar início à celebração da obra do Metallica sob uma perspectiva singular e relativamente ousada. Assim como no disco Plays Metallica, Vol. 2, o repertório começou com “Ride the Lightning”, levando a plateia à euforia. Enquanto os músicos reproduziam as melodias e os riffs com seus instrumentos de cordas, o público assumia os vocais, transformando a abertura em um momento de intensa comunhão entre palco e pista. A empolgação seguiu com releituras presentes no primeiro disco Plays Metallica by Four Cellos, como “Enter Sandman”, “Creeping Death” e “For Whom the Bell Tolls”. Os fãs acompanharam as músicas em coro, agitaram a pista e até formaram um mosh pit, enquanto os músicos reproduziam, com seus instrumentos eruditos, a energia e a agressividade características das guitarras thrash metal.

Em um breve intervalo entre as músicas, Eicca comentou sobre o álbum lançado em 2024, explicando que, desta vez, a banda se sentiu mais segura e teve maior liberdade para explorar as possibilidades de interpretação das composições do Metallica. Na sequência, o quarteto apresentou “The Call of Ktulu”, um dos destaques do novo trabalho, que conta com a gravação original de baixo de Cliff Burton, registrada em 1984. Outro momento curioso veio com “St. Anger”. Diante da recepção calorosa da plateia, Perttu brincou com os fãs acerca da recepção positiva diante de uma música presente no álbum lançado em 2003, frequentemente apontado como um dos trabalhos mais controversos e mal avaliados da discografia do grupo estadunidense. O repertório também passou por “The Four Horsemen” e “Blackened”, canções que, nas gravações originais do trabalho de releituras, contaram com a participação dos músicos Dave Lombardo (ex-Slayer) e Robert Trujillo (Metallica), respectivamente.

Na reta final, Perttu apresentou os demais integrantes do Apocalyptica e aproveitou para elogiar a participação dos fãs ao longo da apresentação. O músico afirmou que aquele havia sido o melhor e mais bonito show da turnê latino-americana, e comentou também que ficou impressionado com a paixão de São Paulo pelo Metallica. Em seguida, o quarteto presenteou o público com uma sequência de grandes sucessos, começando por “Nothing Else Matters”. A balada criou uma atmosfera de show em estádio na pista do pequeno clube, com a galera acendendo as lanternas dos celulares e cantando a plenos pulmões. Na sequência, a banda surpreendeu com uma fusão que reuniu “Master of Puppets”, “Territory”, do Sepultura, e “Seek & Destroy”, promovendo um encontro inusitado entre dois gigantes do metal. Para encerrar a noite, o conjunto retornou para o bis com “One”, encerrando a apresentação em grande estilo.

Mais do que uma simples apresentação de releituras, o Apocalyptica entregou uma homenagem consistente e envolvente à obra do Metallica, demonstrando que a essência do heavy metal vai muito além de distorções e instrumentos convencionais. Ao traduzir riffs, melodias e atmosferas por meio dos violoncelos, o quarteto finlandês reafirmou a riqueza criativa existente dentro deste encantador estilo musical.
Fotos: Marcelo Catacci






































Setlist
Ride the Lightning
Enter Sandman
Creeping Death
For Whom the Bell Tolls
The Call of Ktulu
St. Anger
The Four Horsemen
Blackened
Nothing Else Matters
Master of Puppets
Seek & Destroy
Refuse/Resist
One
