Após superar contratempos, The Rasmus entrega aula de profissionalismo e dedicação à música em apresentação em São Paulo
Quando se fala sobre o rock no cenário mainstream dos anos 2000, é comum lembrar do emocore e do hardcore melódico. Naquela época, representantes desses segmentos apareciam frequentemente em programas de auditório, enquanto seus sucessos dominavam as rádios e os canais de televisão voltados ao público jovem.
Entretanto, nesse mesmo período, o rock alternativo finlandês também conquistou enorme visibilidade, exibindo uma sonoridade que mesclava elementos do rock gótico e do metal, com instrumentais mais pesados, composições sombrias e uma estética visual forte. Entre os representantes dessa vertente, é possível citar Nightwish e HIM, que alcançaram níveis expressivos de popularidade internacional. Contudo, foi o The Rasmus que, sem dúvida, conseguiu levar o rock finlandês a um público ainda mais amplo, tornando-se um dos nomes mais conhecidos do gênero — ao menos na América Latina e no Leste Europeu.
Formado no início da década de 1990, em Helsinque, o grupo teve uma trajetória inicialmente modesta, com seus primeiros discos conquistando repercussão moderada no cenário musical interno e em outras nações europeias. Já a “virada de chave” veio com os trabalhos Dead Letters (2003), Hide from the Sun (2005) e Black Roses (2008). Mostrando atmosferas densas, passagens instrumentais maduras e composições sombrias, mas também melodias acessíveis e refrões cativantes, esses materiais apresentaram uma proposta absurdamente única e interessante. No Brasil, assim como em diversos outros países da América Latina, músicas como “Guilty”, “Sail Away”, “In the Shadows” e “No Fear” se transformaram em grandes sucessos, figurando constantemente nas paradas musicais em rádios e na programação dos canais de videoclipes, ao lado de grupos e artistas como Linkin Park, Green Day, My Chemical Romance, Avril Lavigne e muitos outros.
Após oito anos desde sua última apresentação em São Paulo, o conjunto retornou a maior metrópole da América do Sul no último domingo (1), para um show no palco do tradicional Carioca Club, casa de espetáculos localizada no bairro de Pinheiros. O show integrou a turnê Weirdo, que leva o nome do décimo primeiro álbum de estúdio do grupo, lançado em 2025. O trabalho apresenta mudanças significativas na sonoridade da banda, incorporando elementos mais modernos e aproximações com a estética de nomes como Bring Me The Horizon e Tokio Hotel.
Experiencia geral e show
Originalmente, a apresentação estava marcada para o sábado (31), em plena noite de Halloween. Entretanto, poucas horas antes do início do evento, a banda e a produtora divulgaram, por meio das redes sociais, que o vocalista Lauri Ylönen estava doente e fisicamente impossibilitado de subir ao palco. O comunicado também mencionava o desgaste acumulado pelo músico após uma extensa turnê, que contabilizou mais de 60 apresentações em diferentes países ao redor do mundo.
Naturalmente, muitos fãs ficaram desapontados com a notícia, especialmente aqueles que haviam viajado de outras cidades e investido tempo e dinheiro para acompanhar o espetáculo. Ainda assim, de maneira geral, a reação do público foi compreensiva. Na nova data, os seguidores do grupo finlandês chegaram cedo, formaram longas filas e demonstraram sua devoção por meio de camisetas e bandeiras personalizadas. Próximo ao horário da apresentação, o clube já apresentava boa lotação, embora a pista não estivesse completamente preenchida. É fácil assumir que a presença de admiradores teria sido enorme caso o adiamento não tivesse ocorrido.

Com pontualidade impressionante, Lauri Ylönen (vocal), Aki Hakala (bateria), Eero Heinonen (baixo) e Emppu Suhonen (guitarra) surgiram no palco e deram início ao repertório com “Break These Chains”, faixa do novo álbum. A música apresentou fortes elementos eletrônicos e uma sonoridade moderna, com influências evidentes de Bring Me The Horizon, especialmente da fase de Post Human: Nex Gen. Os fãs acompanharam a faixa com entusiasmo, cantando alto e demonstrando familiaridade com o lançamento. Ao término da novidade, a banda não perdeu tempo e engatou “Guilty”, um de seus maiores sucessos, levando a pista à loucura. Nesse momento, vale destacar os efeitos visuais exibidos nos telões, com animações que davam vida ao universo artístico da capa de Dead Letters.

Em uma breve pausa, Lauri pediu desculpas pelo adiamento, explicou que ainda não estava se sentindo completamente recuperado e pediu o apoio dos fãs, incentivando-os a cantar o mais alto possível. Logo depois, o grupo apresentou “No Fear”, outro de seus grandes sucessos, que marcou presença constante na programação do Disk MTV em 2005 e fez o Carioca Club vir abaixo. Mais uma vez, os recursos visuais mereceram atenção especial, com animações de borboletas que remetiam diretamente à identidade estética desenvolvida para o videoclipe do single.
Com o público já completamente dominado devido a dobradinha de hits, o repertório voltou a dar espaço ao novo álbum. “Rest in Pieces” apresentou novamente as passagens eletrônicas que caracterizam a atual fase do grupo. Curiosamente, até mesmo a animação exibida no telão remetia à personagem E.V.E. e ao conceito de inteligência artificial explorado pelo Bring Me The Horizon em seus trabalhos mais recentes. Na sequência, veio uma releitura de “Forever Young”, clássico do Alphaville, apresentada em uma versão mais acelerada e com direito a vocais em estilo screamo, conferindo uma abordagem mais agressiva à composição original.

Ao término do cover, o guitarrista Emppu Suhonen tomou a palavra para explicar o conceito por trás de Weirdo, expressão utilizada para definir pessoas que sentem não pertencer a determinado ambiente ou grupo social. Em seguida, apresentou a faixa-título do álbum, cuja sonoridade segue um caminho um pouco diferente das experimentações eletrônicas anteriores, aproximando-se mais das raízes musicais do The Rasmus. Em um novo diálogo com os fãs, o frontman comentou que, em 30 anos de carreira, o show em São Paulo marcado para o sábado foi o primeiro que precisou adiar. De volta ao emblemático disco Hide From the Sun (2005) veio “Immortal”, trazendo certas influências pop-punk. Aqui, destaque para a presença de palco da guitarrista Emppu, correndo pelo palco e subindo nos amplificadores. Em uma nova conversa, Lauri fez questão de comentar que estava apenas com um pulmão, e precisava de mais ajuda, mantendo a galera cantando alto em “First Day Of My Life”, um dos principais sucessos de Dead Letters.

Na sequência, o grupo revisitou diferentes momentos de sua carreira, alternando entre as inéditas “Creatures of Chaos” e “Bansky” — esta última, com Emppu assumindo os holofotes ao assumir partes dos vocais. Entre as surpresas, vieram “Livin’ in a World Without You”, single de Black Roses (2008), e a animada “F-F-F-Falling”, faixa de Into (2001) — primeiro grande sucesso do The Rasmus, que ajudou a impulsionar a popularidade da banda para além da Finlândia, mostrando que os rapazes de Helsinque tinham potencial para se tornar rockstars globais.

Para encerrar o set regular, veio mais uma dobradinha de sucessos: “In My Life” e “In the Shadows”, que levaram o público à euforia completa. Após uma breve pausa para o bis, Lauri e Emppu retornaram ao palco sozinhos e apresentaram uma versão reduzida e praticamente desplugada de “Sail Away”, outro grande hit quase inerente a programção da MTV Brasil no longínquo ano de 2005. Com a banda completa novamente em cena, “Justify” ficou responsável por encerrar definitivamente a apresentação.
Apesar dos contratempos que antecederam a apresentação, The Rasmus conseguiu entregar um espetáculo potente, equilibrando a nostalgia dos grandes sucessos com a divulgação de seu trabalho mais recente. Mesmo sem estar totalmente recuperado, Lauri Ylönen demonstrou dedicação ao público, que respondeu com entusiasmo e cantou junto durante todo o set. Certamente, um episódio memorável para a carreira do quarteto, e que também serviu para fortalecer a relação do conjunto com seus seguidores.
Fotos: Ayumi Ranzini























Setlist
Break These Chains
Guilty
No Fear
Rest in Pieces
Forever Young
Weirdo
Immortal
First Day of My Life
Creatures of Chaos
Livin in a World Without You
F-F-F-Falling
Banksy
In My Life
In the Shadows
Bis
Sail Away
Justify
