Caveira Velha Metal Fest: uma celebração à face underground do heavy metal nacional
“Como é difícil acabar com o heavy metal, não? A Igreja tenta, um pessoal da política tenta, mas nós seguimos fortes”, declarou o vocalista Marc Brito durante uma conversa com o público no intervalo do show de sua banda, Creatures.
A fala sintetizou bem o espírito que tomou conta da cena heavy metal em São Paulo ao longo de outubro. Em meio à efervescência das eleições, marcadas pelo avanço de setores conservadores e pela mobilização de grupos e partidos de direita, a cidade recebeu centenas de shows do gênero. A maioria contou com boa presença de público, e muitos chegaram a ter ingressos esgotados. Para coroar o mês dos headbangers, a lendária banda Iron Maiden, uma das maiores instituições do história do rock pesado, realizou duas apresentações no Nubank Parque (antigo Allianz Parque e popularmente conhecido como “Estádio do Palmeiras), reunindo mais de 40 mil pessoas em cada data.
Porém, engana-se quem pensa que a devoção ao heavy metal se restringe aos grandes nomes internacionais. Fiel ao movimento e atento ao que anda rolando fora dos grandes portais mainstream, o público também mantém viva a cena nacional, prestigiando bandas independentes, revelações e grupos já consagrados no circuito underground. Quem esteve na Vip Station no último sábado (24) pôde testemunhar essa força em primeira mão. Na ocasião, a casa de espetáculos, localizada na região de Santo Amaro, recebeu a primeira edição do Caveira Velha Metal Fest, evento organizado pelo tradicional selo dedicado ao segmento. Com um lineup inteiramente nacional, a festa percorreu diferentes vertentes do rock pesado, do hard rock ao thrash e black metal, reunindo Creatures, Flageladör, Selvageria, Schizogoat e Nite Stinger, além da banda Trovão, que aproveitou a ocasião para gravar seu primeiro álbum ao vivo.
Abrindo a programação musical, enquanto o público ainda chegava à casa, o Schizogoat assumiu a responsabilidade de dar o pontapé inicial no festival. Representando a cena de metal extremo de Sergipe, o grupo apresentou a sonoridade mais brutal da noite, entregando um black metal veloz, agressivo e implacável. O impacto sonoro ganhou um reforço visual com o corpse paint utilizado pelos integrantes, contribuindo para a atmosfera sombria e para a intensidade da apresentação. Uma abertura sem concessões, que colocou em evidência a força do metal extremo nordestino.
Na sequência, contrastando com a brutalidade da atração de abertura, foi a vez do Nite Stinger. Já conhecido na cena paulista, o grupo acumula experiência em eventos ao lado de importantes nomes do gênero, como Hardcore Superstar e Johnny Gioeli. Com uma proposta mais acessível e melódica, a banda dedicou boa parte do repertório ao seu novo álbum, What The Nite Is All About, lançado neste ano. As músicas se destacaram pelos refrões cativantes e melodias caprichadas, além do instrumental bem trabalhado.Certamente, foi um set bem interessante para quem aprecia nomes como Mötley Crüe, Ratt e Def Leppard e gosta de acompanhar tal sonoridade sendo explorada na cena nacional contemporânea.
Com a casa mais cheia, o festival entrou em uma sequência dedicada ao thrash metal com uma dobradinha de dois dos fortes mais importantes desta ramificação do metal presentes na cena sudeste. Primeiro, o Selvageria, nome veterano do rolê paulistano, tratou de colocar o público em movimento, impulsionando as primeiras rodas da noite com uma sonoridade agressiva, marcada pela influência dos primeiros trabalhos do Slayer e por letras cantadas em português. Na sequência, um dos grandes destaques do cenário fluminense manteve a intensidade em alta com um set especial em celebração aos 20 anos de seu aclamado álbum A Noite do Ceifador. O disco é praticamente uma aula de thrash metal em sua forma mais visceral, reunindo riffs e bateria em velocidade alucinante, vocais rasgados e letras que exploram diferentes temáticas sombrias. A apresentação também reservou espaço para uma homenagem a Cronos, vocalista do Venom, figura fundamental na consolidação do black metal. A lembrança veio com “Queimando em Chamas”, faixa dedicada ao músico britânico, reconhecido internacionalmente por sua influência na formação do gênero.
Na reta final do festival, chegou a vez de duas atrações que despontam como grandes revelações da cena nacional contemporânea, com um talento que já ultrapassou as fronteiras do underground paulistano e garantiu espaço até mesmo no prestigiado festival alemão Keep It True. A primeira delas foi o Creatures, que subiu ao palco para entregar uma apresentação poderosa, sustentada por um repertório que passeou por faixas como “Night of the Ritual”, “Children of the Moon”, “Dressed to Die” e “Devil in Disguise”. Com passagens de teclado, solos de guitarra elaborados e refrões contagiantes, o grupo conseguiu algo que ainda não havia acontecido naquela noite: fazer o público cantar em coro de forma generalizada, transformando a pista em uma grande celebração do hard rock e do glam metal.
Se o instrumental impressionava pelo nível técnico de Mateus Cantaleäno (guitarra), Ricke Nunes (baixo) e Sidnei Dubiella (bateria), o grande destaque ficou por conta do desempenho explosivo do frontman Marc Brito. Durante quase uma hora, o vocalista dominou o palco com uma presença magnética, movimentando-se de uma ponta à outra, interagindo constantemente com a plateia e mantendo a energia em alta entre uma música e outra. Seus discursos inflamados também deram à apresentação uma dimensão que foi além do entretenimento, associando o heavy metal à resistência contra a opressão, governos autoritários e o conservadorismo religioso. Uma postura que reforçou a dimensão contestadora historicamente ligada ao gênero e evidenciou a personalidade do grupo. Não seria exagero apontar Marc como um dos frontmen mais expressivos do rock underground nacional na atualidade.

Já na reta final do set, o Creatures ainda reservou espaço para um medley com “Highway Star”, clássico do Deep Purple, arrancando mais uma reação entusiasmada do público. A escolha funcionou como uma síntese da proposta da banda: resgatar o virtuosismo, a teatralidade e a energia do hard rock clássico, combinando esses elementos à estética do glam metal oitentista. Em um cenário nacional repleto de grupos talentosos que ainda lutam para romper as barreiras do circuito independente, o Creatures demonstra ter personalidade, repertório e presença de palco suficientes para conquistar públicos cada vez maiores.
Encerrando a programação com chave de ouro, o Trovão assumiu o palco em uma ocasião particularmente especial: a gravação de seu primeiro registro ao vivo. Formado por Gustavo Trovão (vocais), Igor Senna (guitarra), Alexandre Gatti (guitarra e backing vocals), Lucas Chuluc (baixo e backing vocals), Luke D. Couto (teclados e backing vocals) e Alan Caçador (bateria e backing vocals), o sexteto chegou ao festival embalado pelo crescimento expressivo de sua popularidade na cena paulistana, impulsionado pelo álbum Diamante, lançado em 2025. O trabalho também colocou a banda entre os destaques nacionais da edição de 2026 do Bangers Open Air, ampliando sua projeção diante do público brasileiro.
O repertório contemplou músicas como “Preso ao Passado”, “Seres da Noite”, “Olhos da Cidade” e “Sociedade Corrompida”, além de faixas de Prisioneiro do Rock ’n’ Roll, álbum lançado em 2023. Musicalmente, o Trovão aposta em uma sonoridade que remete a gigantes do heavy metal e do hard rock clássico, como Judas Priest, Accept e Dokken, mas acrescenta uma identidade própria por meio dos teclados, responsáveis por criar atmosferas épicas que se entrelaçam aos riffs de guitarra. À frente do grupo, Gustavo demonstrou excelente presença de palco e conduziu a apresentação com segurança, enquanto o público acompanhava as músicas a plenos pulmões. A resposta da plateia conferiu às composições a dimensão de verdadeiros hinos, parecendo que o disco, que foi lançado recentemente, já tivesse sido lançado a décadas. Para uma banda que vem consolidando seu espaço na cena, registrar essa conexão com o público em seu primeiro álbum ao vivo tornou a ocasião ainda mais significativa.
Ao final, o Caveira Velha Metal Fest se consolidou como uma celebração da força e da diversidade do underground nacional, evidenciando que o heavy metal permanece vivo e pulsante em São Paulo. Dos grandes estádios aos espaços de médio porte, passando pelos pequenos bares que mantêm a cena em movimento, o gênero continua como uma forma de arte relevante.
Setlist — Trovão
Preso ao Passado
Trovão
Princesa do Fogo
Até o Fim
Não Lembre Mais de Mim
Olhos da Cidade
Diamante
Sociedade Corrompida
Furacão
Prisioneiro do Rock ’n’ Roll
Seres da Noite
Meu Caminho
Linha de Frente
