H2O retorna a São Paulo e protagoniza primeira edição do Trick Or Hardcore? Fest
Em outubro de 2024, a lendária banda H2O, reconhecida mundialmente por combinar a agressividade do hardcore com a harmonia do punk rock melódico, realizou uma apresentação visceral em São Paulo, marcando seu retorno à capital paulista após quatro anos. Apesar do clima de celebração, o evento também foi acompanhado por um sentimento de melancolia. Na ocasião, o organizador Bruno Genaro, responsável pela NDP Produções, comentou que aquela poderia ser a última apresentação do grupo na cidade, uma vez que o vocalista Toby Morse havia manifestado seu cansaço em relação às extensas turnês.
Felizmente, porém, o carismático frontman e seus companheiros de banda reavaliaram seus planos de se afastar das longas excursões e perceberam que, mesmo após mais de 30 anos de estrada, ainda têm muita lenha para queimar. Afinal, o grupo continua reunindo admiradores ao redor do mundo, enquanto o público paulistano mantém uma admiração inabalável por seu legado, sempre ansioso e disposto a recebê-lo novamente nos palcos.
Nas últimas semanas, o conjunto percorreu a América do Sul, passando por países como Colômbia, Peru, Chile e Argentina. Em São Paulo, a banda se apresentou no último sábado (31), em plena noite de Halloween, no Espaço Usine, como atração principal do Trick Or Hardcore?, festival que marca uma nova iniciativa da NDP Produções, produtora já bastante conhecida no cenário hardcore nacional. Originalmente, a programação também contaria com a participação de um grupo californiano, mas a apresentação acabou cancelada devido a problemas logísticos e contratuais. Para completar o lineup, nomes da cena nacional, como Bayside Kings, Do Protesto à Resistência, Norte Cartel e De Peito Aberto, também marcaram presença. No Brasil, a banda ainda contou com uma apresentação em Curitiba.
- Experiência geral e show
Na data, a cidade de São Paulo recebeu uma verdadeira avalanche de shows internacionais de rock, hardcore e metal, com apresentações de nomes como Fishbone, Benediction, A Wilhelm Scream e MakeWar, entre outros. Além disso, havia a concorrência indireta do grupo sul-coreano BTS, que se apresentava no estádio do MorumBIS, sem contar as centenas de festas temáticas de Halloween espalhadas por diversos pontos da capital. Ainda assim, o evento registrou boa lotação, embora sem atingir o sold out, demonstrando a enorme admiração do público paulistano pelos nova-iorquinos. Trata-se de um feito considerável, sobretudo diante da concorrência daquela noite e do fato de que o H2O já havia se apresentado outras sete vezes na cidade.
Pontualmente, poucos minutos depois das 22h, Toby Morse (vocal), Rusty Pistachio e Matt Henderson (guitarras), Adam Blake (baixo) e Max Morse (bateria) surgiram no palco e, sem perder tempo, deram início à apresentação com “Nothing To Prove”, faixa-título do álbum lançado em 2008. A música foi suficiente para incendiar a pista, dando início aos primeiros mosh pits, acompanhados por coros entusiasmados e stage dives.

Com o público devidamente aquecido, vieram logo em seguida dois clássicos do repertório: “Everready” e “Family Tree”. Nesse momento, ocorreram algumas falhas no microfone de Toby, além de um incidente envolvendo uma fã que se machucou, obrigando a banda a interromper temporariamente a apresentação para que ela recebesse assistência. Felizmente, ambas as situações foram rapidamente resolvidas, permitindo a retomada do show.

Desta vez, o grupo trouxe uma proposta especial: celebrar os 30 anos de seu álbum de estreia, H2O, lançado em 1996, e os 25 anos de Go, de 2001. Assim, a apresentação reservou um bloco dedicado ao trabalho que apresentou a banda ao mundo, com músicas como “Scene Report”, “I Know Why” e “Spirit of ‘84”. Curiosamente, a única representante de Go no repertório foi a acessível “Role Model”, cuja sonoridade bastante melódica se aproxima mais do pop-punk. Entretanto, foram os clássicos “1995”, “Faster Than the World”, “Still Here”, “Sunday” e “One Life, One Chance” que realmente levaram a plateia à loucura. Com seus característicos skank beats, riffs acelerados e refrões contagiantes, as faixas transformaram a pista em um verdadeiro caos organizado, com stage dives, invasões de palco para cantar junto aos músicos e rodas de mosh que tomavam praticamente toda a extensão do espaço.

Aos 56 anos, Toby Morse demonstra estar em excelente forma. Durante quase uma hora, o frontman não parou um instante: correu de um lado para o outro do palco, pulou, interagiu constantemente com a plateia e não hesitou em dividir trechos das músicas com seus fiéis seguidores. Em alguns momentos, porém, o entusiasmo de determinados fãs parecia ultrapassar os limites, com alguns puxando o microfone de suas mãos e até mesmo chegando a empurrá-lo, mas ele não se mostrava irritado com o cenário. Rusty Pistachio, Matt Henderson e Adam Blake também seguem afiados, sustentando a sonoridade da banda com competência técnica, agressividade e velocidade. Já o jovem Max Morse demonstrou estar cada vez mais confortável na execução das músicas, evidenciando seu amadurecimento e a experiência adquirida nos palcos.

Entre os momentos mais marcantes da noite, vale destacar a participação do vocalista brasiliense Maneko em “Guilty by Association”, a invasão coletiva do palco durante “What Happened” e a homenagem de Toby Morse a Lou Koller, vocalista do Sick of It All, antes do encerramento com “5 Yr. Plan”. Em seu discurso, Toby ressaltou a influência que a lenda do hardcore nova-iorquino exerceu sobre sua formação musical. Também relembrou que sua primeira passagem por São Paulo aconteceu em 1994, quando trabalhou como roadie do Sick of It All, e contou que escreveu a primeira música do H2O em um ônibus, durante uma turnê europeia da banda.

Sem dúvida, o H2O continua entregando apresentações animadas, carismáticas e dotadas de uma energia impressionante. Resta torcer para que aquela antiga intenção de diminuir o ritmo das turnês tenha sido apenas um susto passageiro, e não um plano definitivo. Afinal, os fãs paulistanos continuam demonstrando que têm disposição de sobra para recebê-los novamente, quantas vezes forem necessárias.

Fotos: Flávio Santiago (credenciado pelo site “ONSTAGE”)
Setlist
Nothing to Prove
Everready
Family Tree
1995
Faster Than the World
Scene Report
I Know Why
Still Here
Heart on My Sleeve
Thicker Than Water
Spirit of ‘84
I See It in Us
Sunday
Memory Lane
One Life, One Chance
Guilty by Association
What Happened
5 Yr. Plan
Demais destaques do Trick Or Hardcore? Festival
- A noite começou com a apresentação do De Peito Aberto, banda de Brasília liderada pelo vocalista Maneko, também conhecido por seu trabalho no Mais que Palavras e figura tradicional da cena hardcore da capital federal. Com uma proposta sonora bastante diferente daquela apresentada em demais projetos que possuem o músico como vocalista, o grupo apostou em passagens mais melódicas e harmoniosas, aproximando-se do hardcore melódico. Faixas como “Terapia”, “Hoje Não” e “Aqui por Você” evidenciaram essa identidade musical e proporcionaram uma interessante oportunidade de conhecer outra faceta da versatilidade do frontman.
- Na sequência, foi a vez do Norte Cartel, um dos principais representantes do hardcore carioca. Após um período sem se apresentar em São Paulo, o grupo aproveitou a oportunidade para presentear os fãs com um repertório repleto de clássicos, incluindo “Sangrar até Morrer”, “Família” e “A Vingança é Minha”. O quarteto também destacou com uma releitura de “Beber até Morrer”, do Ratos de Porão, além de um cover acelerado de “All You Need Is Love”, dos Beatles. A apresentação foi responsável por desencadear as primeiras rodas de mosh da noite, com a plateia acompanhando as músicas com bastante entusiasmo e até mesmo dividindo o microfone com os integrantes no palco.
- O Do Protesto à Resistência foi outra atração de destaque do festival. O grupo paulistano ganhou notoriedade na cena hardcore local no início dos anos 2010, principalmente por sua proposta de combinar a agressividade do hardcore com as rimas e a cadência do rap, acompanhadas por letras de protesto que dialogam diretamente com a realidade das periferias. Após alguns anos de hiato, a banda retomou suas atividades recentemente e lançou, neste ano, um novo trabalho intitulado A.E.A.. No repertório, marcaram presença algumas composições inéditas, além de clássicos como “Crime e Castigo”, “Bom Dia, Vietnã” e “Vida Loka Hardcore”, esta última contando com a participação especial de Felipe Chehuan, vocalista do Norte Cartel. A resposta do público foi bastante expressiva, com os primeiros stage dives da noite e o surgimento de sessões de crowdkilling, modalidade mais agressiva de interação física que se diferencia das tradicionais rodas de mosh.
- Encerrando o bloco de atrações nacionais, coube ao conjunto santista Bayside Kings assumir a responsabilidade de manter a energia em alta. Desta vez, a banda apostou em um repertório renovado, com destaque para diversas faixas de seu novo álbum, Atlas, lançado neste ano. A apresentação também foi a primeira da noite a incorporar recursos visuais, com animações exibidas no telão de LED da casa, complementando a experiência musical. Como de costume, o vocalista Milton Aguiar deixou os fãs à vontade para participar ativamente do espetáculo, incentivando a interação e promovendo uma apresentação em que as fronteiras entre público e artistas praticamente desapareceram.
