Frank Turner em São Paulo: quando o punk se manifesta no violão e na atitude

Punk não é apenas um gênero musical; trata-se de um movimento cultural e político que surgiu como reação ao conservadorismo, ao elitismo e à noção de que a arte só tem valor quando é tecnicamente “bem feita” ou virtuosa. Mais do que um estilo sonoro, o punk sempre foi uma forma de expressar indignação diante das falhas do sistema e das injustiças sociais.

E, por mais contraditório que possa parecer, a música acústica — reduzida à voz e ao violão — também pode ser profundamente punk. Afinal, o punk não depende de distorção, mas de postura. Independentemente da forma, uma canção se torna punk quando carrega esses mesmos princípios: letras que abordam questões sociais, políticas ou existenciais, linguagem direta e sem adornos, confissões desconfortáveis, além de ironia e sarcasmo como ferramentas de confronto.

Quem esteve no Fabrique Club na última sexta-feira (30) pôde presenciar uma verdadeira aula de como essa atitude acontece na prática. Na ocasião, o músico britânico Frank Turner fez sua estreia nos palcos paulistanos com um show honesto e profundamente pessoal. A noite ainda contou com a participação dos estadunidenses Dave Hause e Katerina Kiranos, que se apresenta sob o nome Katacombs.

  • Compositor do folk e do punk

Frank Turner é um cantor e compositor britânico conhecido por fundir a energia crua do punk rock à sensibilidade intimista do folk acústico. Antes de seguir carreira solo, foi vocalista da banda hardcore Million Dead. Com voz rouca, violão em punho, Turner transforma apresentações acústicas em experiências intensas e coletivas.

Recentemente, o músico entrou para o Guinness Book ao bater o recorde mundial de 15 shows em 15 cidades diferentes em apenas 24 horas. Vale lembrar que Turner tinha apresentações marcadas no Brasil em 2020, canceladas em razão da pandemia, o que tornou seu retorno aos palcos sul-americanos ainda mais aguardado pelos fãs.

  • Shows

Já na chegada, reforçando o espírito punk do evento, era possível notar diversos fãs vestindo camisetas de bandas como NOFX, Bad Religion, Bad Brains, Pennywise, entre outras, evidenciando como o público desse segmento se identifica profundamente com o trabalho de Frank Turner.

A sessão de música ao vivo teve início com Katacombs. Filha de pais espanhóis e gregos, o que lhe forneceu grande background cultural, Katerina trabalhou durante anos com marcenaria antes se dedicar integralmente à música. Em um show leve e intimista, apresentou faixas de seu primeiro álbum, Fragments of the Underwater, além de alguns singles. Para criar conexão com o público, arriscou algumas palavras em português, gesto que foi recebido com simpatia pela plateia.

Na sequência, subiu ao palco Dave Hause, velho conhecido da comunidade punk por sua passagem por bandas como Step Ahead, The Curse e The Loved Ones. Com postura intensa e direta, animou o público com músicas como “Look Alive”, “Hazard Lights”, “Dirty Fucker” e um cover de “Jane”, de sua antiga banda. Apesar da energia raivosa, as canções traziam refrões cativantes, feitos para serem cantados em coro.

Durante o set, Hause conversou bastante com a plateia, revelou que foi fã de Sepultura na adolescência — banda que despertou sua curiosidade pelo Brasil — e comentou sobre o cenário político, afirmando que “o povo brasileiro fez um bom trabalho ao responsabilizar Jair Bolsonaro e envia-lo para cadeia”. Além disso, ele criticou duramente a postura do ICE (departamento de imigração dos EUA), apontando o uso excessivo de violência nas últimas semanas.

Após uma breve troca de instrumentos no palco e com os fãs ocupando algo em torno de um terço da pista do clube, Frank Turner surgiu e anunciou: “Bem-vindos ao meu show número 3.107 — e, mais importante, ao meu primeiro show no Brasil”. Em seguida, emendou “If Ever I Stray”, “Girl From the Record Shop” e o hit “Recovery”, conquistando o público logo no início. Entre as músicas, comentou sobre as diversas tentativas frustradas de vir ao país ao longo de seus 20 anos de carreira e lamentou a oportunidade perdida em 2020, quando a turnê precisou ser cancelada devido à pandemia. Na sequência, resgatou duas faixas marcantes do início da carreira: “No Thank You for the Music” e “The Road”.

O show seguiu como uma verdadeira aula de intimidade entre artista e público. Alternando músicas inéditas e clássicos como “1933”, “Letters”, “I Knew Prufrock Before He Got Famous”, “The Ballad of Me and My Friends” e “Polaroid Picture”, Turner compartilhou diversas experiências pessoais. Contou, por exemplo, sobre uma viagem que fez com a família usando um casaco do Korn, episódio que o levou a conhecer uma garota vestindo uma blusa do Pennywise. A partir de uma conversa casual, os dois passaram a trocar cartas durante quatro anos, até que, repentinamente, ela parou de responder. Vinte e oito anos depois, ela entrou em contato por e-mail, dizendo ter ouvido uma música dele no rádio. O músico também mencionou sobre o poeta Clive James que o marcou profundamente: próximo da morte, o autor escreveu que seu maior arrependimento foi não ter sido mais gentil com as pessoas — reflexão que passou a influenciar fortemente a vida de Frank.

Ao longo da apresentação, Turner fez críticas ao ICE, ao atual governo americano e ao crescimento do fascismo ao redor do mundo. Em um momento mais descontraído, cantou em português uma tradução do refrão inicial de “Do One” e ainda apresentou um cover de “Bob”, faixa de sonoridade ska da banda NOFX.

Na reta final, entregou uma sequência de músicas queridas pelos fãs, como “Four Simple Words”, “Photosynthesis” e “I Still Believe”. Ao se despedir, garantiu ao público paulistano que aquele não seria seu último show na cidade e prometeu retornar futuramente com a banda completa, The Sleeping Souls.

Frank Turner entregou um show pessoal, político e inteligente, com discursos que transitaram entre o humor, o íntimo e reflexões sociais necessárias. Foi, sem dúvida, uma demonstração forte de que o punk também pode se manifestar por meio da música acústica.

Setlists

Katacombs

Blue Beard
 Fruta y Mar
 Weeping Willow
 Old Fashioned
 Pin Pin
 You Will Not

Dave Hause

Look Alive
 Hazard Lights
 Cellmates
 C’mon Kid
 Saboteurs
 Jane
 Dirty Fucker
 Damn Personal

Frank Turner

If Ever I Stray
 Girl From the Record Shop
 Recovery
 No Thank You for the Music
 The Road
 Long Live the Queen
 Letters
 1933
 The Way I Tend to Be
 The Ballad of Me and My Friends
 Be More Kind
 I Knew Prufrock Before He Got Famous
 Don’t Worry
 Bob
 Polaroid Picture
 Do One
 Four Simple Words
 Photosynthesis
 Get Better
 I Still Believe