Metal, emoção e espetáculo: Avenged Sevenfold faz noite memorável no Allianz Parque

Fotos: @pridiabr 30e

Em 2024, a banda Avenged Sevenfold, um dos maiores nomes do heavy metal contemporâneo, retornou ao Brasil após quase dez anos de ausência, quando se apresentou no festival Rock in Rio. A última passagem havia ocorrido durante a turnê Hail to the King, e o anúncio da volta foi recebido com entusiasmo pelos fãs. Ainda assim, parte do público demonstrou frustração, já que o grupo se apresentou exclusivamente no festival carioca, deixando outras capitais de fora.

Felizmente, a espera por uma compensação não foi longa. Menos de um ano após a participação no Rock in Rio, o grupo anunciou um retorno ao país em tempo recorde, desta vez com uma mini turnê marcada para outubro. Contudo, um problema nas cordas vocais do vocalista M. Shadows forçou o adiamento da excursão para janeiro. A decisão foi bem compreendida pelos fãs — afinal, após quase uma década de espera, alguns meses a mais não seriam um obstáculo.

Finalmente, o público paulistano teve a chance de conferir o quinteto ao vivo. No último sábado (31), a banda se apresentou no Allianz Parque, em conjunto com participações especiais de Mr. Bungle e A Day To Remember. Batizada de Life Is But a Dream…, a turnê leva o nome do oitavo álbum de estúdio do grupo, lançado em 2023 e primeiro trabalho de inéditas desde 2016. A excursão passou por diversas capitais da América Latina e, no Brasil, além de São Paulo, também incluiu Curitiba no roteiro.

Histórico

Formado em 1999, na Califórnia, o Avenged Sevenfold se consolidou como um dos principais nomes do heavy metal moderno. Com uma sonoridade que transita entre o metalcore, o heavy metal tradicional e influências progressivas, o grupo se destacou pela combinação de riffs poderosos, vocais intensos e uma forte identidade visual. Ao longo da carreira, lançou álbuns fundamentais como City of Evil, Waking the Fallen e Nightmare, que ajudaram a ampliar seu alcance para além do público estritamente metal.

Conhecida por evitar a repetição, a banda sempre buscou evoluir artisticamente, incorporando novas referências e experimentações a cada lançamento. Essa postura ficou ainda mais evidente em Life Is But a Dream… (2023), trabalho conceitual que dividiu opiniões, mas reafirmou a disposição do Avenged Sevenfold em correr riscos e desafiar expectativas.

Shows

A sessão de música ao vivo começou com o Mr. Bungle, supergrupo formado por Mike Patton (vocais), Trey Spruance (guitarra), Trevor Dunn (baixo) e Dave Lombardo (bateria), que entregou um show solo original e provocativo no palco do Cine Joia, na segunda-feira anterior ao evento no Allianz. Scott Ian, integrante fixo desta fase da banda, não pôde participar por compromissos com o Anthrax e foi substituído à altura por Andreas Kisser, lendário guitarrista do Sepultura e um dos maiores nomes do instrumento no Brasil.

Assim como na apresentação anterior, o show teve início com uma releitura de “Tuyo”, de Rodrigo Amarante, tema da série Narcos. A partir daí, o repertório seguiu por um caminho bem mais pesado, priorizando a faceta metal do grupo, com faixas como “Anarchy Up Your Anus”, “Bungle Grind”, “Eracist” e “Raping Your Mind”, deixando pouco espaço para as releituras românticas e experimentais que também fazem parte da identidade do conjunto. Em “Retrovertigo”, Patton dedicou a música ao Palmeiras, time do estádio onde ocorria o evento. Segundo rumores do folclore roqueiro, o vocalista teria desenvolvido simpatia pelo clube devido à convivência com Max Cavalera, o que também o aproximou da Umbanda. O set ainda trouxe covers de “Territory”, do Sepultura — com o refrão adaptado para gritos de “porra, caralho” — e “Speak English or Die”, transformada em “Fale português ou morra”. Trey Spruance, menos focado apenas em exibir seu shredding implacável desta vez, mostrou-se mais solto, interagindo com o público e até arriscando brincadeiras em português, incluindo comentários como “descabelar o palhaço”.

Mike Patton, por sua vez, parecia especialmente inspirado. Vestido com trajes associados a rituais de matriz africana e usando diversos colares de guias de Exu, o vocalista também exibiu novas tatuagens: dois “X” no dorso das mãos, símbolo ligado ao straight edge, feitos por um profissional paulistano. Na reta final, antes de encerrar o show com um cover de “All By Myself”, de Eric Carmen, Patton fez um discurso em homenagem a Pomba Gira e recitou o canto “Laroyê”. Foi uma apresentação ímpar, que serviu como excelente porta de entrada para o público mais jovem conhecer um dos nomes mais autênticos e singulares da história do metal experimental.

Na sequência, foi a vez do A Day To Remember, grupo que já havia se apresentado no Allianz Parque quando foi headliner de um dos palcos do festival I Wanna Be 2024. Quatro minutos antes do horário oficial, a clássica “Also Sprach Zarathustra, Op. 30”, de Richard Strauss, ecoou pelo estádio, acompanhada por efeitos visuais no telão de LED, anunciando a chegada da banda. Logo depois, Jeremy McKinnon (vocais), Neil Westfall (guitarra), Alex Shelnutt (bateria), Kevin Skaff (guitarra) e Bobby Lynge (baixo) surgiram no palco e abriram o set com “The Downfall of Us All”, cujo grito de guerra inicial levou o estádio à loucura. Na sequência, vieram “I’m Made of Wax, Larry, What Are You Made Of?”, outro clássico do álbum Homesick, e “Right Back at It Again”, um dos principais singles de Common Courtesy.

O show seguiu como um passeio pelas diferentes fases da carreira do grupo, mesclando sucessos consagrados como “Paranoia”, “Mr. Highway’s Thinking About the End” e “Have Faith in Me” com faixas mais recentes, como “All My Friends”, “Silence” e “Miracle”, presentes no novo Big Ole Album Vol. 1 (2025). O trabalho foi amplamente elogiado por equilibrar, de forma competente, elementos do pop com a agressividade do metalcore. Durante todo o set, Jeremy incentivou a participação do público, estimulando crowdsurfings e mosh pits. Em “If It Means a Lot to You”, pediu que todos acendessem as luzes dos celulares, criando um momento de forte conexão coletiva. O vocalista também mostrou melhora na execução dos guturais em relação a apresentações anteriores e agradeceu o carinho do público paulistano, reconhecendo que São Paulo concentra o maior número de ouvintes da banda. A produção impressionou, replicando o alto padrão dos shows recentes nos Estados Unidos, com iluminação intensa e animações grandiosas. Para encerrar, o quinteto disparou “All I Want” e “All Signs Point to Lauderdale”.

Há exatamente 15 anos, o A Day To Remember estreava no Brasil tocando para cerca de 1.500 pessoas no Carioca Club. Agora, retornaram ao país para se apresentar em um estádio lotado, recebendo a mesma empolgação reservada a uma atração headliner, diante de mais de 50 mil pessoas. A trajetória deixa claro o crescimento expressivo da banda e reforça sua relevância, consolidando o grupo como um dos maiores nomes de sua geração na música pesada contemporânea.

Após uma breve pausa para ajustes no cenário, chegou o momento dos donos da noite. Pontualmente às 20h45, as luzes do estádio se apagaram e “Nightcall”, do DJ Kavinsky, começou a ecoar pelos alto-falantes. M. Shadows surgiu no palco em uma cadeira de rodas, com o rosto coberto por uma balaclava, acompanhado por Synyster Gates (guitarra solo), Zacky Vengeance (guitarra base), Johnny Christ (baixo) e Brooks Wackerman (bateria). O show teve início com “Game Over”, uma das faixas mais pesadas do novo álbum — e talvez de toda a carreira do A7X — marcada por riffs alucinados e uma bateria em skank beat frenética. Em seguida, “Mattel”, também de Life Is But a Dream…, manteve a energia em alta, com destaque para os efeitos visuais: os integrantes da banda surgiam representados como bonecos no telão, enquanto labaredas de fogo percorriam o anel do estádio.

Após a abertura intensa com músicas recentes, chegou o momento dos clássicos. A sequência começou com “Afterlife”, do álbum homônimo de 2008, trazendo um dos solos mais emblemáticos da carreira de Synyster Gates. Na sequência, “Chapter Four”, de Waking the Fallen, mostrou Brooks Wackerman executando com precisão as viradas explosivas originalmente compostas por The Rev. “Hail to the King”, com sua pegada mais tradicional de heavy metal, encerrou o bloco.

Depois da sessão extrema, o grupo optou por um momento mais intimista, presenteando o público com um bloco de faixas leves e forte presença de passagens acústicas. Vieram “Gunslinger” — sempre uma das mais pedidas pelos fãs — , “So Far Away”, dedicada ao baterista The Rev, falecido em 2009, acompanhada por um efeito no telão que simulava sua silhueta, e “Seize the Day”, executada apenas parcialmente após pedido da plateia. Com erros na execução e os fãs assumindo grande parte dos vocais, Shadows brincou: “Prometo tocá-la perfeitamente da próxima vez”.

Na retomada do peso, o Avenged Sevenfold despejou uma avalanche de clássicos: “Bat Country”, “Nightmare” e “Unholy Confessions”, esta última com direito a uma extensão que culminou em um solo de bateria de Brooks. “Not Ready to Die”, faixa criada exclusivamente para o jogo Call of Duty: Black Ops, também marcou presença. A intensidade foi tamanha que o show precisou ser interrompido três vezes em um curto intervalo para que seguranças auxiliassem fãs feridos na pista.

Na reta final, o grupo apresentou “Save Me”, “Cosmic” e “A Little Piece of Heaven”, esta última acompanhada por uma animação impecável que traduziu visualmente a narrativa macabra da canção. Ao término do repertório, uma explosão de fogos de artifício selou a noite de forma apoteótica.

Com a turnê Life Is But a Dream…, o Avenged Sevenfold mostrou o que há de mais potente no rock contemporâneo: uma fusão de composições ambiciosas, efeitos grandiosos e uma conexão verdadeira com o público. A apresentação deixou claro que bandas atuais não apenas podem rivalizar com nomes clássicos, como também inovar e elevar a experiência ao vivo a patamares impressionantes.

Setlists

Avenged Sevenfold

  • Game Over
  • Mattel
  • Afterlife
  • Chapter Four
  • Hail to the King
  • Gunslinger
  • Buried Alive
  • Seize the Day
  • So Far Away
  • Bat Country
  • Nobody
  • Nightmare
  • Not Ready to Die
  • Unholy Confessions
  • Save Me
  • Cosmic
  • A Little Piece of Heaven

A Day To Remember

  • The Downfall of Us All
  • I’m Made of Wax, Larry, What Are You Made Of?
  • Right Back at It Again
  • Bad Blood
  • Make It Make Sense
  • Paranoia
  • Miracle
  • Mr. Highway’s Thinking About the End
  • All My Friends
  • Have Faith in Me
  • 2nd Sucks
  • Silence
  • If It Means a Lot to You
  • All I Want
  • All Signs Point to Lauderdale

Mr. Bungle

  • Tuyo
  • Anarchy Up Your Anus
  • Bungle Grind
  • I’m Not in Love
  • Eracist
  • Raping Your Mind
  • Retrovertigo
  • Refuse/Resist
  • Hypocrites / Habla español o muere
  • Sudden Death
  • Hopelessly Devoted to You
  • My Ass Is on Fire
  • All by Myself