Midnight protagoniza evento marcado pela união entre punks e headbangers em São Paulo

No último domingo (03), a produtora Kool Metal promoveu uma verdadeira celebração da música extrema na capital paulista, reunindo diferentes tribos do cenário alternativo. A casa de shows Burning House recebeu o Midnight, um dos nomes mais cultuados do rock underground mundial, conhecido por misturar punk, crust e heavy metal em uma sonoridade suja e agressiva rotulada como “Black N’ Roll”. Além da música intensa, o grupo também chama atenção pelo visual característico, marcado por capuzes, jaquetas com rebites e correntes. Desta vez, os roqueiros de Cleveland vieram com um repertório especial celebrando os 15 anos do álbum Satanic Royalty. O evento ainda contou com dois representantes da cena fluminense, Velho (Black Metal) e Whipstriker (Heavy/Thrash Metal), além do grupo canadense Phane, trazendo a energia crua do punk/hardcore.

Abrindo os trabalhos, enquanto o público ainda chegava à casa, o Phane despejou um hardcore direto, veloz e extremamente agressivo. O grupo apresentou músicas presentes em seus materiais lançados até o momento, incluindo faixas do disco Maniac, além de algumas do split lançado em parceria com o Visions Of War. A sonoridade remeteu imediatamente ao movimento conhecido como “UK82”, trazendo fortes influências de nomes como English Dogs e Discharge, mas com uma abordagem mais moderna. Outro destaque foi a postura de palco animada dos integrantes, acompanhada por um visual tipicamente punk, com jaquetas repletas de patches e cabelos coloridos, entregando uma experiência autêntica e energética.

Na sequência, foi a vez do Velho subir ao palco. Considerado um dos principais nomes do Black Metal brasileiro contemporâneo, o grupo vem conquistando cada vez mais espaço dentro da cena extrema — prova disso foi a apresentação solo realizada na Comedoria do SESC Belenzinho, em março de 2025, um feito raro e significativo para bandas do gênero.

Com corpse paint carregado, iluminação vermelha intensa e uma atmosfera quase ritualística tomando conta do ambiente, o conjunto apresentou um repertório fortemente baseado no disco Vingando as Bruxas, lançado no ano passado e amplamente elogiado pela crítica especializada. Ainda assim, músicas já consagradas entre os fãs, como “A Marca Invisível de Lúcifer” e “Satã, Apareça!”, também marcaram presença, levando o público a cantar em uníssono, subir ao palco e dividir o microfone com o vocalista Caronte. A devoção dos presentes transformou o show em algo próximo de um verdadeiro culto underground.

Encerrando o bloco de atrações de abertura, o Whipstriker manteve o nível de energia da noite nas alturas. Com a Burning House já completamente lotada, o grupo deu início aos primeiros moshpits intensos da noite ao som de clássicos de sua carreira, como “Troopers of Mayhem”, “Nuclear Metal Blood”, “Lucifer Set Me Free” e, claro, o praticamente hino “Crude Rock ’n’ Roll”. A sonoridade extremamente veloz — funcionando como uma combinação precisa entre speed e thrash metal — incendiou o ambiente do início ao fim.

Apesar da apresentação explosiva, alguns problemas técnicos acabaram interferindo no set, especialmente o pedestal do vocalista Victor “Whipstriker”, que caiu em diversos momentos durante o show. Ainda assim, nada foi capaz de diminuir a intensidade da performance. Os músicos seguiram comandando o espetáculo de forma visceral, sustentando a agressividade característica da banda.

Depois de três shows destruidores, chegou o momento mais aguardado da noite. Com a missão de encerrar o espetáculo dedicado à música extrema, os misteriosos integrantes do Midnight subiram ao palco trazendo sua sonoridade única. O set contou com uma intro sinistra, marcada por uma gravação de um sino ecoando pelo ambiente, enquanto Athenar e seus companheiros surgiam um a um no palco. Sem perder tempo, o trio partiu pro ataque com “Unholy and Rotten” e “Evil Like a Knife”, transformando imediatamente o clube em um verdadeiro pandemônio. Rodas punk se abriram, fãs se jogavam do palco e os refrões eram berrados em uníssono pela plateia, impulsionados pelas letras simples, repetitivas e extremamente convidativas para serem gritadas a plenos pulmões.

Após a insanidade inicial, o repertório seguiu praticamente com a execução completa das dez faixas de Satanic Royalty. Como as músicas são curtas, rápidas e diretas, encaixaram perfeitamente dentro da dinâmica frenética do show. Demonstrando enorme admiração pelo álbum, o público acompanhou cada faixa palavra por palavra enquanto os moshpits e stage dives seguiam sem interrupção. Naturalmente, músicas como “You Can’t Stop Steel” e “Black Damnation”, alguns dos maiores clássicos do grupo, provocaram reações ainda mais intensas. Encerrada a celebração do material de 2011, o grupo ainda fez uma breve passagem por outras faixas importantes da carreira, presenteando os fãs com “Endless Slut”, “Black Rock ’n’ Roll” e “Fucking Speed and Darkness”.

Entre uma música e outra, Athenar contrastava sua aparência sinistra com uma postura bastante descontraída, fazendo piadas, interagindo com os fãs e até arriscando alguns xingamentos em português. Musicalmente, porém, o trio era pura violência sonora, executando cada faixa com agressividade máxima. Outro ponto que chamou atenção foi a diversidade da plateia: punks, headbangers, fãs de heavy, thrash e black metal dividiram o espaço em completo espírito de celebração, sem qualquer sinal de conflito. De fato, Midnight é um conjunto que consegue dialogar com diferentes seguidores da música pesada.

Sem dúvidas, foi uma noite memorável para o underground paulistano — um espetáculo marcado pela intensidade das apresentações, pela atmosfera caótica e, principalmente, pela união de diferentes tribos em torno da música extrema.

Fotos: Marcelo Catacci (credenciado pelo site Heavy Metal Online)