Tailgunners esbanja Heavy Metal tradicional em “Between Dimensions”

Formado em São Paulo no início dos anos 1990, o Tailgunners construiu uma discografia marcada por longos intervalos. “Between Dimensions” chega treze anos depois do trabalho anterior, reunindo treze faixas em pouco mais de 54 minutos. A história fonográfica do grupo começou com o ótimo “Battlefield”, lançado em 1998, disco que colocou a banda no mapa do cenário brasileiro. Em 2001 veio o inspirado “Behind the History”, trabalho baseado em episódios e personagens da história do Brasil. Após doze anos sem um novo álbum, o Tailgunners retornou em 2013 com “The Gloomy Night”. Outro intervalo de treze anos conduziu a “Between Dimensions”, quarto registro de estúdio de uma trajetória iniciada há mais de três décadas.

A formação atual reúne Lely e Ricardo Lima nas guitarras, Lennon no baixo, Bill Martins nos vocais e Paulo Mariz na bateria. As guitarras comandam boa parte do álbum, passando por riffs, harmonias e solos que participam efetivamente das composições. Bill Martins apresenta uma interpretação firme e sabe reservar os agudos para os trechos em que eles realmente tem necessidade.

A abertura fica a cargo de “The Passage”, introdução de pouco menos de um minuto. Sua brevidade ajuda o disco, pois prepara a entrada da rápida “Owner of the Void”. É nessa segunda faixa que o álbum começa de fato, trazendo uma combinação de Heavy Metal clássico, linhas melódicas bem marcadas e trabalho constante das duas guitarras. A música oferece uma boa amostra do caminho escolhido pela banda sem muitas enrolações.

“Inner Sword” mantém a sequência com maior atenção às melodias e uma sonoridade mais trabalhada, enquanto “Different Ways”, com mais de cinco minutos, amplia o formato utilizado nas duas anteriores. A composição permite que as guitarras desenvolvam melhor seus temas e estabelece uma passagem importante para a parte seguinte do álbum. O vocabulário musical é clássico, um autêntico Heavyzão com riffs cortantes, mas a banda varia a duração e a construção das faixas para que o início não fique preso a uma única fórmula.

Apresentada anteriormente como single, “Our Mistakes” é uma das faixas mais curtas e agressivas do repertório. Seus pouco mais de três minutos favorecem oferecem um contraste com “Different Ways”, indo direto ao ponto. “Across the Worlds” retoma a temática sugerida pelo título do álbum e mostra o lado “baladeiro” do grupo, exibindo desenvoltura ao focar num lado mais calmo e melódico.

Os títulos mostram que “Between Dimensions” não permanece o tempo todo no campo da fantasia. “Our Mistakes”, “Pray for My Soul”, “Tormented” e “Changing My Mind” levam o disco para assuntos mais pessoais, passando por culpa, conflito, arrependimento e mudança. A travessia entre dimensões também pode ser entendida como uma passagem entre diferentes estados da mente, e não apenas como uma viagem por mundos imaginários.

“Pray for My Soul” (com ótimas guitarras) e “Gatekeepers” ocupam o centro do disco e mantém a preferência do Tailgunners por músicas de aproximadamente quatro minutos. “Gatekeepers”, com o baixo galopante à la Maiden, também divulgada antecipadamente, possui o perfil necessário para funcionar isoladamente, mas ganha outra dimensão ao ser ouvida dentro da sequência do disco. A ordem das faixas cria uma ligação que dificilmente seria percebida apenas pelos singles.

Na sequência, “Tormented” (faixa mais veloz), “Runaway” e “Playing with Life” mantêm o álbum em movimento, com ótimos riffs, solos e cozinha. O principal momento do álbum é “Between Dimensions”. Com nove minutos e dez segundos, a faixa-título é a composição mais extensa do disco e seu grande ponto de referência. O tempo adicional permite trabalhar temas instrumentais, mudanças de andamento e passagens de guitarra que não caberiam nas músicas anteriores. Ela funciona como destino da viagem iniciada em “The Passage”, reunindo ideias espalhadas pelo álbum e dando ao grupo espaço para desenvolver cada parte sem a obrigação de chegar rapidamente ao refrão.

Depois dessa faixa, o Tailgunners poderia ter encerrado o trabalho com outra introdução ou algum efeito prolongado. A opção foi terminar com a galopante “Changing My Mind”, composição de menos de quatro minutos que traduz bem o clima clássico do grupo. Como ressalva, creio que a ordem deveria ter sido invertida, com o disco sendo fechado com a faixa-título.

No geral, “Between Dimensions” carrega elementos encontrados em diferentes fases do Tailgunners. De “Battlefield” vem a orientação pelo Heavy Metal tradicional; “Behind the History” trouxe a evolução sonora; e “The Gloomy Night” destacou o amadurecimento do grupo.

“Owner of the Void”, “Our Mistakes”, “Across the Worlds”, “Gatekeepers” e, principalmente, a faixa-título formam algumas das melhores músicas do trabalho. Após treze anos sem um disco de inéditas, o Tailgunners apresenta um álbum consistente e espero que “Between Dimensions” não seja realmente o último álbum da banda.