Apesar de setlist contido e ausência de sucessos importantes, Gackt emociona fãs paulistanos com show grandioso

O último sábado (7/2) já pode ser considerado histórico para os fãs paulistanos de visual kei e J-rock. Após décadas de pedidos, rumores e expectativas alimentadas na internet e redes sociais, o público finalmente pôde conferir ao vivo o show de Gackt, uma das maiores lendas da música japonesa, no palco do tradicional Carioca Club. A apresentação marcou a estreia do artista no país e contou com a YELLOW FRIED CHICKENz, banda que surgiu em 2010 como um projeto solo e rapidamente se consolidou como um grupo completo, acompanhando o cantor em turnês ao redor do mundo.

O evento foi realizado pela R.I.T Agency, produtora relativamente nova na cena, que desde 2023 vem se destacando por viabilizar apresentações de artistas japoneses que, até pouco tempo atrás, pareciam distantes da realidade dos palcos brasileiros.

Gackt: relevância dentro e fora do rock

Cantor, compositor, multi-instrumentista e ator, Gackt é reconhecido como uma das figuras mais influentes da música japonesa contemporânea, com impacto que ultrapassa os limites do rock. Sua trajetória artística teve início em 1992, quando integrou a banda Cain’s Feels como baterista. Pouco tempo depois, assumiu os vocais e passou a se destacar como frontman, chamando atenção pela presença de palco e personalidade artística.

Ainda nos anos 1990, ingressou no Malice Mizer, um dos nomes mais emblemáticos da cena visual kei, atuando como vocalista principal, compositor e pianista. Com o grupo, participou do lançamento de dois álbuns fundamentais — Voyage Sans Retour (1996) e Merveilles (1998) — período em que a banda alcançou grande projeção no Japão. Apesar do sucesso crescente, divergências internas culminaram em sua saída no final de 1998.

A carreira solo teve início em 1999, acompanhado da banda de apoio GacktJob. Seu single de estreia, Mizérable, foi lançado em maio daquele ano, seguido pelo álbum Mars (2000), que consolidou seu nome como artista solo. Paralelamente à música, Gackt construiu uma carreira consistente no audiovisual e se tornou uma figura recorrente em diferentes setores da cultura pop japonesa. Em 2003, protagonizou o filme Moon Child ao lado de HYDE (L’Arc~en~Ciel), sucesso nos cinemas asiáticos. No mesmo ano, dublou o personagem Seiji no anime Shin Hokuto no Ken e estrelou o jogo Bujingai, lançado para PlayStation 2 no Japão e nos Estados Unidos.

Experiência e show

Durante todo o dia, o evento foi acompanhado com grande entusiasmo. Fãs se reuniram desde as primeiras horas da manhã em frente à casa de espetáculos, registrando nas redes sociais cada movimentação no local. Próximo à abertura oficial dos portões, uma gigantesca fila já se estendia pela rua Cardeal Arcoverde. Nem mesmo a chuva intensa ou a concorrência com outros shows de rock/metal acontecendo na cidade — como Enforcer, Rivers of Nihil e a edição anual do festival Skarnaval, que, embora não sejam visual kei, disputam a atenção do público underground — desanimaram a galera, que não mediu esforços para ver um ídolo do j-rock ao vivo. O público era composto por um misto variado de seguidores, desde jovens que conheceram o cantor recentemente até uma “galera 30+” que o acompanha desde o Malice Mizer e o conheceram ainda nos primórdios da internet. Alguns fãs que adquiriram o pacote VIP tiveram acesso antecipado, e puderam acompanhar a passagem de som.

Com a casa completamente lotada e um leve adiantamento em relação ao horário previsto, uma introdução sonora começou a ecoar pelos alto-falantes, levando o público da pista a agitar com palmas. Em seguida, Gackt surgiu no palco acompanhado por Yohio, MiA e Hiroto (guitarras), Daichi (baixo) e Hidehiro (bateria) — músicos de apoio exibindo máscaras e dreads. A abertura ficou por conta de “Dybbuk”, faixa do álbum Crescent, marcada por uma sonoridade mais pesada e próxima do rock, que remete ao clássico “N.p.s N.g.s. ~No Pains No Gains”, do Malice Mizer. Apesar do peso, o frontman entregou certa sensualidade durante a execução da música, com movimentos provocativos. Na sequência, “Speed Master” trouxe riffs intensos, passagens melódicas e um refrão cativante. “DISPAR” manteve a pegada pesada, agora com elementos eletrônicos, momento em que Gackt jogou água no público, elevando ainda mais a adrenalina da experiência.

Após o bloco inicial mais agressivo, com canções pesadas cuja sonoridade quase flertava com o metal, o cantor suavizou o clima com faixas de influência pop rock como “Maria”, “Until The Last Day” e “Suddenly”. Nesse trecho, Gackt apostou na interação com os fãs e arriscou em inglês: “I know my brothers and sisters are here, let me feel your souls”. A resposta veio em coro, enquanto o vocalista esbanjava carisma com coreografias sensuais e movimentos marcados por rebolados.

Retomando o clima mais animado, “Ride or Die” incendiou a plateia com um riff alucinante, com os músicos recebendo coros “hey, hey” da plateia. Neste momento, rolou uma dinâmica interessante, com os guitarristas reunidos em torno do vocalista. Logo depois, “Vanilla”, um dos primeiros hits da carreira de Gackt, apareceu em uma versão repaginada, com instrumental muito mais pesado, distanciando-se da abordagem pop acessível da gravação original.

Na reta final do set regular, Gackt voltou a provocar o público, perguntando se era amado e desejado pelos fãs. Logo depois, emendou o hit “Jesus”. O encerramento veio com a belíssima balada “ALL MY LOVE”, quando o público acendeu as lanternas dos celulares, criando um clima digno de show em estádio dentro da pista do Carioca Club. Após uma breve pausa, os músicos retornaram para o bis. Muitos esperavam que o desfecho viesse com clássicos como “Redemption”, “Mizerable” ou “U+K”, mas a escolhida foi “Mata, Koko de Aimashou”, faixa de energia quase hardcore melódico, marcada por batida skank beat e riffs velozes. Ao final, o artista prometeu retornar ao Brasil. No entanto, chamou atenção o fato de Gackt aparentar estar indisposto, demonstrando falta de ar e sendo amparado por um de seus músicos de apoio, deixando parte do público em dúvida se aquilo fazia parte da encenação ou se era sinal de exaustão física.

Sem dúvidas, Gackt, ao lado dos músicos da YELLOW FRIED CHICKENz, entregou uma apresentação grandiosa — não apenas impecável em termos técnicos e de performance, mas também em carisma e presença de palco. Ainda assim, parte do público criticou o repertório, que deixou de fora hits importantes da carreira. No entanto, foi uma grande oportunidade para os fãs que aguardaram por décadas.

Setlist

Dybbuk
Speed Master
DISPAR
Maria
Until The Last Day
Suddenly
Ride or Die
VANILLA
Jounetsu no Inazuma
JESUS
ALL MY LOVE
Mata, Koko de Aimasho