O tempo é implacável, e perceber que já se passaram exatas duas décadas desde o lançamento do debut “Chemical Assault” (2006) é um choque de realidade. Principalmente para quem passou dos 40 anos de idade. Os tempos de mosh nos shows muitas vezes deram lugar a remédios para coluna e movimentos mais comedidos, assim como o velho colete de patches cheirando a cerveja, jogado em um canto do guarda-roupa. O Violator, na ativa desde 2002, não é mais aquela promessa da “New Wave of Old School Thrash Metal” de 20 anos atrás, hoje a banda é uma veterana e sobrevivente do caos, e mostra-se implacável.

Muita coisa mudou nesse intervalo. Quem viveu o underground em meados dos anos 2000 lembra bem da explosão de bandas tentando resgatar a sonoridade oitentista, numa época em que os shows eram um mar de coletes jeans lotados de patches e tênis cano alto branco. A cena, que chegou a ficar saturada, viu muitas dessas bandas ficarem pelo caminho ou mudarem de direção. O Violator, no entanto, manteve-se firme, e “Unholy Retribution”, lançado após um hiato de 12 anos sem um álbum completo (o último foi “Scenarios of Brutality”, de 2012), chega para provar que a banda transcendeu a “moda” da qual foi um dos principais expoentes.
Visualmente, a capa criada por Andrei Bouzikov já entrega o jogo e evoca uma nostalgia brutal e uma coincidência tremenda. A arte traz uma estética que remete imediatamente à capa de “Invincible War” (2002), do Bywar. Não sei se a referência foi uma homenagem, mas ver aquelas figuras malévolas evoca uma época empolgante e cheia de promessas.
Musicalmente, o disco mostra que o tempo fez bem ao quarteto. A produção de Yarne Heylen (do Project Zero Recording Studio) cortou alguns excessos sem mexer na pegada habitual do grupo. As guitarras de Capaça (que aqui atende com o apelido de “Bloody Nightmare”) e Cambito (vulgo “Chains Killer”) soam cortantes, fugindo daquela sonoridade excessivamente comprimida de produções modernas, com muita malevolência e inspiração.
A abertura com “Hang the Merchants of Illusion” deixa claro que a velocidade continua sendo a lei, mas com uma maturidade de composição que só a estrada traz. Poney (baixo/vocal, ou, “Ret Crucifier”) cria linhas vocais mais graves e controladas, casando com o tom mais sério e politizado das letras, enquanto David Araya (Bone Crusher) segue sendo uma máquina de d-beat. Faixas como “Cult of Death” mostram que, mesmo com a mudança nos ventos da cena e o envelhecimento do público (e da própria banda), a energia permanece intacta. Ao vivo não deve ser diferente. A quebrada mais cadenciada na metade da música me lembrou uma sonoridade meio anos 90, com guitarras serra elétrica à la HM-2. Destaque para os solos de guitarra, abismais!
Ouça:
Um fator interessante que permeia o álbum são algumas referências à Sepultura antigo, como em “The Evil Order”, uma ode à fase “Bestial/Morbid”. Nota-se também uma guinada maior ao Death Metal old school em algumas faixas, algo que já vem incrustado nas influências dos integrantes e de projetos paralelos, como na já citada faixa de abertura “Hang the Merchants of Illusion”, onde há umas quebradas meio Hellhammer/Celtic Frost. O encerramento fúnebre com “Vengeance Storm” dá o tom do álbum, um misto do velho Violator com o que a banda representa no momento.
“Unholy Retribution”, que saiu pela Kill Again Records em setembro de 2025, figura como um dos melhores discos do ano que se passou. Enquanto muitos penduraram os coletes, o Violator segue honrando o Crossover e o Thrash, criando um álbum direto e essencial para entender o Metal sul-americano atual. O Violator não reinventa a roda, mas a faz girar com uma violência que faltava em meio à uma série de lançamentos plásticos e sem feeling. É para cair no mosh e curtir uma tempestade de riffs infernais e aquele “tu pá tu pá” tão empolgante que só os “violas” sabem fazer.
