Ao longo de mais de duas décadas de trajetória, a Fresno consolidou-se como um dos nomes mais inquietos e mutáveis do rock nacional. Surgida no final dos anos 1990, em Porto Alegre, a banda rapidamente ganhou projeção com uma sonoridade fortemente ligada ao emo e ao pop punk, marcada por letras confessionais e melodias diretas — elementos que dialogavam com uma geração em busca de identificação emocional.
No entanto, limitar a Fresno a essa fase inicial seria ignorar o principal motor de sua carreira: a constante reinvenção. A partir da década de 2010, o grupo passou a incorporar novas influências, expandindo seu repertório para além das guitarras características. Elementos de música eletrônica, synthpop, indie rock e até nuances experimentais ganharam espaço, refletindo uma maturidade artística perceptível tanto na produção quanto na composição.
Já na década de 2020, a banda promoveu mais uma virada em sua sonoridade. Com os discos Vou Ter Que Me Virar (2021) e Eu Nunca Fui Embora (2024), o grupo mergulhou em uma estética mais refinada, com maior presença de pop e música eletrônica, além de arranjos mais elaborados e instrumentação diversificada. Diferentemente do que costuma acontecer com mudanças bruscas de estilo, a nova fase foi bem recebida tanto por fãs antigos quanto por novos ouvintes, ampliando ainda mais o alcance da banda. Não é exagero dizer que, hoje, a Fresno é ainda mais relevante do que na época em que dominava rádios e programas de TV nos anos 2000 — mesmo sem depender da mesma exposição midiática.
Em 2026, a banda dá continuidade a essa evolução com o lançamento de Carta de Adeus. No último sábado (18), o trio apresentou o novo trabalho em primeira mão, diante de um Espaço Unimed lotado, em São Paulo.
O espetáculo foi dividido em dois blocos. Na primeira parte, o público acompanhou, em primeira mão, as dez faixas do novo disco, como “Eu Não Vou Deixar Você Morrer”, “Tentar de Novo e de Novo”, “Tudo que Você Quer” e “Sóbria”. A experiência teve um caráter quase íntimo e inédito: sem as letras já conhecidas, a plateia assistiu a uma espécie de “pré-audição” ao vivo gigantesca para mais de 5000 pessoas. O cenário chamou atenção pela produção audiovisual caprichada, com ambientações específicas que dialogavam com cada música.

Após uma breve pausa, a segunda parte trouxe um passeio pela carreira da banda. Clássicos do emo nacional como “Quebre as Correntes”, “Cada Poça Dessa Rua Tem um Pouco de Minhas Lágrimas” e “Redenção” dividiram espaço com sucessos mais recentes, como “ELES ODEIAM GENTE COMO NÓS”, “CASA ASSOMBRADA” e “Sua Alegria Foi Cancelada”. Aqui, o coro do público tomou conta do ambiente, evidenciando o que há de mais essencial em um show: a troca de energia entre palco e plateia.

Com Carta de Adeus, a Fresno reafirma sua capacidade de se reinventar sem perder a própria essência. Mais do que acompanhar tendências, a banda demonstra saber absorvê-las e ressignificá-las, mantendo-se criativa, relevante e em constante movimento — uma resposta direta àqueles que, no passado, a apontavam como uma fase passageira do rock nacional.
Fotos: Ayumi Kranzini


















Setlist
Eu não vou deixar você morrer
Carta de adeus (Bye Bye Tchau)
Tentar de novo e de novo
Sóbria
Pessoa
Logo agora que o meu mundo girou
Tudo que você quer
Se foi tão fácil
O cantor e o taxista
Eu não sei dizer não
Cada poça dessa rua tem um pouco de minhas lágrimas
Redenção / Porto Alegre / Diga, parte 2
Infinito / Deixa o tempo / Eu sei
Eu nunca fui embora
Manifesto
ELES ODEIAM GENTE COMO NÓS
Sua alegria foi cancelada / Milonga
Eu sou a maré viva
CASA ASSOMBRADA
Quebre as correntes
Desde quando você se foi
