Sepultura se despede com EP denso, emotivo e tecnicamente afiado: o impacto de “The Cloud of Unknowing”

Resenha por Jaqueline Souza – @jackie.souza.flashs

Nota: 10

Em meio aos anúncios de uma turnê de encerramento de carreira, oSepultura lançou, em 24 de abril, via Nuclear Blast (físico) e nas plataformas digitais pela ONErpm, o EP The Cloud of Unknowing. O trabalho reúne, em apenas quatro faixas, diferentes elementos que transitam entre a agressividade característica da banda, grooves marcantes e momentos mais etéreos, progressivos e emocionais.

O EP se inicia com “All Souls Rising”, que abre com um clima intenso e pesado, intercalado por passagens atmosféricas que contrastam com riffs densos e percussão explosiva.

A segunda faixa, “Beyond The Dream”, apresenta uma atmosfera mais emotiva e melancólica. Nela, destaca-se a versatilidade de Derick Green, que demonstra flexibilidade vocal, controle preciso de entonação e variações tímbricas, conferindo forte carga emocional à interpretação. A música contou com a participação de Tony Bellotto e Sérgio Britto no processo de composição e na letra.

Primeiro registro com o baterista Greyson Nekrutman — que atuou com o Suicidal Tendencies entre 2023 e 2024 —, o EP também reflete influências distintas do thrash metal tradicional. É possível perceber nuances oriundas de um repertório mais próximo do jazz, resultando em variações rítmicas interessantes e pouco convencionais dentro da sonoridade da banda.

“Sacred Books”, a terceira faixa, remete ao Sepultura mais pesado, com riffs cortantes, agressividade e um clima de protesto. Trata-se da música mais direta e politizada do EP, reforçando a tradição do grupo em construir narrativas críticas com densidade e contundência.

O encerramento fica por conta de “The Place”, que, assim como a segunda faixa, equilibra peso e ambiência, alternando momentos agressivos com passagens introspectivas.

Fica a sensação de que o lançamento poderia ir além: ao final da audição, surge a impressão de que ainda havia espaço para mais. Pelo peso histórico do Sepultura como principal expoente do metal brasileiro no cenário internacional, o EP carrega um forte valor simbólico, funcionando como demonstração de como uma potência encerra seu legado sem abrir mão da capacidade de se reinventar.