“Lidamos com o que temos, com os sentimentos e expectativas que nos são depositados — e também com o que nos falta. Tudo isso está expresso no personagem que conduz o álbum”, entrevista com Controversy

Banda catarinense revela bastidores do disco “ITÁ-UM”, influências no metal progressivo e os desafios de fazer música independente no Brasil.

Guilherme: Olá, pessoal da Controversy. Obrigado pela disponibilidade para esta conversa. Para começar, gostaria que falassem um pouco sobre a trajetória da banda até aqui. Como surgiu o projeto e quais foram os principais marcos nesse caminho?

Controversy: Apesar destes 12 anos de história, parece que estamos sempre revisitando esse início da banda. Diferente de outros projetos, cada vez que a gente se encontra lá em casa, parece que estamos iniciando algo novo, aprendendo algo novo, ouvindo uma banda que alguém traz como referência. Foi assim que surgiu a banda: um grupo de amigos, no estúdio improvisado nos fundos da casa, ouvindo sons experimentais, pesados, poéticos, expressivos e por aí vai. De lá pra cá, tivemos mudanças nas formações, amigos que vêm e vão. Mas o Marcus, assim como o Guilherme, estão desde o começo. Sentimos que, na composição das músicas da Um à Cinco, tínhamos uma pegada um pouco mais crua, e talvez um dos marcos da banda seja a entrada do André, que trouxe para nós uma complexidade extra nas criações, mudando as composições da música Seis em diante. Essa mudança fica um pouco mais evidente agora que estamos com o álbum completo lançado. Mas a adição do Lucas e do Adan também foi fundamental para a gente olhar para trás e sentir que chegamos onde queríamos, mesmo enfrentando o dia a dia difícil do trabalhador brasileiro, que precisa ficar arrumando intervalos na vida para se dedicar à arte. Ou, no nosso caso, ainda ter que driblar enchentes que insistem em acontecer na nossa região. Tudo isso foram marcos que fazem a banda ser o que é hoje.

Guilherme: O nome Controversy chama bastante atenção. Qual foi a ideia por trás dessa escolha? Existe um conceito ou proposta que o nome busca transmitir?

Controversy: Quando começamos a pensar em ter um projeto, logo pensamos em um nome. A ideia inicial era muito clara: ter um nome que não nos limitasse. Que, mesmo quando quiséssemos explorar algo muito bizarro ou estranho aos ouvidos, o nome nos permitisse isso. E, claro, um nome que não fosse tão batido. Ao pesquisar, vimos, na época, que não existia nenhuma banda de metal no Brasil com esse nome e, no exterior, apenas projetos abandonados com nomes semelhantes. Controversy agradou muito: palavra única, direta, abrangente.

Guilherme: Ao ouvir o som de vocês, fica evidente uma sonoridade bastante madura. Este é o primeiro projeto musical dos integrantes ou vocês já tiveram experiências anteriores em outras bandas?

Controversy: Acredito que não é a primeira banda de ninguém, mas é a banda mais consistente, resistente e duradoura para a maioria de nós. Literalmente insistimos nesta banda até dar certo. Mesmo com mudanças de integrantes, enchentes, projetos paralelos… todos nós notamos que aqui tem algo diferente, seja na forma de compor ou na própria amizade que criamos, e isso influencia o resultado final. Os integrantes já passaram por bandas de grind, death, progressivo, melódico, entre tantas outras coisas, e aqui é o espaço onde conseguimos juntar os elementos que achamos necessários.

Guilherme: Outro ponto de destaque é a mistura de estilos presente no trabalho, que transita entre stoner rock, metal progressivo, death metal e elementos mais experimentais. Essa diversidade surgiu de forma natural ou já era algo planejado desde o início da banda?

Controversy: Acredito que a maior parte dessa diversidade não tenha sido proposital, mas uma verdade sobre o Controversy é que todo mundo que passou por aqui deixou uma marca. Nós extrapolamos de propósito as ideias “menos convencionais” que aparecem durante o processo de composição e, como cada membro traz referências bem diversas, isso acontece com frequência. Sobre a mistura de gêneros, dá pra dizer que surgiu naturalmente, mas que a gente foi aprimorando — e continuamos aprimorando — e experimentando coisas novas.

Guilherme: Vocês lançaram uma demo em 2020 e, depois disso, passaram um período inativos. O que motivou esse hiato nas atividades?

Controversy: Foram épocas complicadas: todo mundo muito ocupado ou vivendo momentos turbulentos na vida particular, isso quando não ocorria alguma enchente, pandemia ou desastre que impedisse a gente de se juntar para criar com calma. Isso, somado à reestruturação da banda, fez a gente ficar um tempo longe das gravações.

Guilherme: Recentemente, vocês lançaram o álbum “ITÁ-UM”. Como foi o processo de composição e gravação desse material?

Controversy: O processo de gravação foi delicioso. Vale um salve para quem produziu esse álbum, o Alessandro Takassaki (Caverna), profissional atencioso e paciente, amigo da banda e agora responsável por finalmente tirarmos esse álbum da fila de espera.

As músicas de “Um” a “Cinco” foram gravadas quase como foram criadas. Por serem composições mais antigas, a gente tentou manter a originalidade delas. Da música “Seis” em diante, tivemos criações e adaptações mais evidentes durante a própria gravação: gravamos em partes e montamos, criando uma espécie de “mosaico sonoro”. Inclusive, no decorrer dos outros ensaios, continuávamos debatendo e criando.

Novamente, a mudança de membros da banda durante todo esse tempo foi importante para incrementar essa coletânea de ideias e referências. A “Zero” foi composta pelo Lucas depois de o álbum já estar construído e caiu como uma luva, exatamente o que precisávamos para a intro.

Agradecemos novamente ao Caverna por ter conduzido isso. Aprendemos muito no processo, e as lições já estão tendo efeito nas nossas novas composições e planejamentos para as próximas obras.

Guilherme: Um aspecto curioso do disco é a ausência de títulos tradicionais nas faixas, que são nomeadas como “Zero”, “Um”, “Cinco”, “Sete”, entre outras. Qual é o significado dessa escolha? Existe algum conceito por trás dessa estrutura?

Controversy: A gente tem um certo receio de parecer “clichê” em muitos momentos. Então, quando escrevíamos os nomes das músicas para ensaiar, acabávamos nos referindo a elas pela sequência do ensaio: “vamos de Um ou começamos o ensaio com a música Dois?”, por exemplo. Com o tempo, notamos que isso era muito mais verdadeiro do que colocar um nome oficial, “trevoso”, ou qualquer coisa semelhante. Conversando um dia sobre como apresentaríamos as músicas para os amigos e o público, decidimos pela honestidade, pela vida bruta como ela é: “se é assim no ensaio, por que não pode ser assim no álbum?”. Coincidentemente, o Opeth (uma das bandas que mais escutamos) anos depois lançou um álbum nomeando músicas com “parágrafos, 1, 2, 3…” E a gente até brinca dizendo que eles copiaram em partes a nossa ideia. Mas é isso: retornar ao bruto é importante às vezes, é até mais original. Nem sempre é necessário criar um nome complexo, cheio de metáforas e referências para soar original. Inclusive, também não gostamos de tirar fotos; tem sido quase uma tortura fazer “foto de banda”, com os integrantes posando com cara de mal. Não é a nossa verdade, mas a gente compreende que é a forma mais comum de divulgação.

Guilherme: E para quem não conseguiu captar totalmente a proposta do álbum, sobre quais temas vocês trabalham nas composições?

Controversy: Os temas são variados, mas convergem na busca por significados interiores. São múltiplas facetas de personagens que sofrem diferentes mazelas: algumas vezes psicológicas, outras sociais, outras existenciais.

Depois que estávamos compondo, percebemos que o álbum apresenta um eu lírico que, em um momento de solidão e desespero, é amaldiçoado com a dádiva da consciência. Isso não é fácil de entender, mas temos experiências que nos conectam de alguma forma, e, quando criamos, sempre imaginamos alguma história, buscamos elos, conflitos e tudo mais que possa nos inspirar na escolha de uma nota ou batida. Então, as músicas expressam, de alguma forma, esses sentimentos e palavras.

A “Um” e a “Três” apresentam a consciência sobre a inevitabilidade da morte, não somente física, mas mental e espiritual ao longo da vida. A “Três” fala sobre a morte da esperança e dos sonhos que são cessados pelo fim iminente. Já a “Quatro” e a “Cinco” mostram a consciência acerca da deterioração e decadência pelas quais passam a felicidade, o amor e os objetivos. A chuva no final da “Cinco” fala sobre um momento de hiato da banda (por conta de enchentes e também tempestades internas de cada um), mas também pode ser interpretada como a solidão do eu lírico, como na “Zero”, que abre o álbum. A “Seis”’ fala sobre o não pertencimento a nenhum grupo, ao mesmo tempo em que somos todos irmãos, filhos do amor da mãe, filhos do ódio do pai — uma crítica direta aos aparelhos ideológicos do Estado, em especial ao núcleo familiar, à religião e à concepção de nacionalidade. A “Sete” apresenta o eu lírico imerso em uma depressão profunda, decrépito, moribundo, mas meditando sobre seu estado e aceitando o sofrimento como companheiro na solidão. A “Oito” denuncia como a sociedade molda nossos comportamentos e personalidades para um modo individualista e robótico: cada um é programado para pensar em si próprio, divindades isoladas em suas ilhas do ego.

A parte com influências brasileiras representa o eu lírico tentando se libertar e, ao final, o eu lírico tentando avisar o ouvinte, antes de se tornar mais um robô, que a vida é mais do que somos programados para ver. A “Dez” resgata uma visão pessimista da sociedade e como tudo é feito para nos cegar e nos manter imersos em uma rotina que nunca acaba, sempre igual, mas o vazio e a superficialidade acabam por libertar o eu lírico de sua “maldição”. Por fim, na “Dois”, o eu lírico deixa que o monstro interno o consuma por completo, deixando-o ensandecido por sangue, numa vã tentativa de libertar os outros e a si próprio. O eu lírico passa a se sentir completo.

Conceitualmente, conseguimos traduzir o álbum dessa forma. Mas, no fundo, como comentamos, há algo que vai além: o que conecta todas essas músicas é a nossa insistência em viver em um lugar que não é pró-música, não é pró-arte, principalmente quando falamos de metal. Viver no Itaum muitas vezes é insalubre. Quando falamos de insistir para fazer música, é porque muitas vezes nos juntamos lá em casa para pegar potes e tirar água de dentro da residência, para conseguir limpar tudo e depois ensaiar. Não há nenhum herdeiro aqui para comprar um espaço melhor, então lidamos com o que temos, lidamos com os sentimentos e expectativas que nos são depositados, lidamos com o que temos e com o que falta. E isso está expresso nesse personagem que conduz o álbum.

Guilherme: O disco conta ainda com a participação do músico belga Yannick Jacquet. Como surgiu essa colaboração e como foi trabalhar com ele? E como ele reagiu ao trabalhar com uma banda de metal, embora seu som seja voltado ao acústico?

Controversy: O Yannick é um músico incrível, que conhecemos por meio da irmã do Marcus (Taiane), que está morando na Espanha neste momento. Quando começamos a conversar sobre o álbum com os parentes, tratamos desde a ideia conceitual até a vontade de ter participações especiais; nesse momento, o próprio Yannick se ofereceu para participar, e nós aceitamos de primeira. Durante a composição, notamos que as músicas “Três” e “Sete” precisavam de “algo a mais” e, assim que jogamos a ideia para ele, ele nos retornou com inúmeras gravações de teclados, cello e outros instrumentos. Foi uma experiência maravilhosa. Por ser um músico tão completo, ele entendeu a ideia de primeira, mesmo não sendo do metal, e se divertiu muito fazendo esse experimento. Só temos a agradecer pela disponibilidade. Aguardamos com ansiedade a possibilidade de um dia fazermos uma versão ao vivo dessas músicas. Ele já tem viagens programadas para o Brasil, então quem sabe isso aconteça em breve.

Guilherme: Em determinado momento, vocês mencionam uma enchente que ocorreu em Joinville e que impactou diretamente a trajetória da banda. Poderia contar um pouco mais sobre esse episódio e seus desdobramentos?

Controversy: Enchentes são frequentes na zona sul de Joinville. O bairro Itaum, na zona sul, dá nome ao álbum. O nosso estúdio fica na casa onde nosso baterista morou grande parte da vida. A perda e o sofrimento provenientes das enchentes são acontecimentos frequentes para os moradores da região. O estúdio, a banda e pessoas relacionadas já sofreram perdas materiais nessas circunstâncias mais de uma vez nestes anos de estrada. Inclusive, a foto da capa do álbum é de uma das câmeras da casa, e a pessoa que aparece na imagem é um grande amigo nosso, o Adolfo. Ele representa não só os integrantes, mas todos os familiares e amigos que passaram por essa casa, que sofreram com as enchentes ou que nos ajudaram em todo alagamento que ocorreu por lá. Não tinha como tratar de outro tema, direta ou indiretamente, que não fosse esse. Novamente, buscamos originalidade, mas com bases sólidas e reais. Essa é uma verdade, é um fato, é um desastre que nos afeta, então faz sentido falar sobre isso nas imagens do álbum, nas músicas ou na insistência em fazer música. Sofrer com a enchente é algo complexo, mas que nos une a outras pessoas, de diversas regiões do Brasil, inclusive, pois representa também um problema social, representa desigualdade e por aí vai.

Guilherme: Como é ser uma banda underground em Joinville? Quais são os principais desafios da cena local e, por outro lado, quais aspectos positivos você destacaria?

Controversy: Joinville é uma cidade plural, construída por muita, muita gente que veio de fora em busca de uma vida melhor. Sejam nossos avós, pais ou nós mesmos, então a cena underground reflete um pouco disso. São vários nichos que, às vezes, se conectam, com muita potencialidade, mas uma coisa sempre foi muito evidente: faltam espaços físicos para que as bandas e artistas marginais explorem sua arte. Há muito artista bom aqui, muita gente com potencial, mas falta estrutura para que isso seja compartilhado. Talvez seja porque Joinville virou uma espécie de “cidade de passagem”, onde as pessoas trabalham a semana inteira para curtir o final de semana nas praias ou nas cidades próximas. Infelizmente, esse sentimento faz com que as pessoas curtam eventos em outros locais. A gente compreende que há público, arte e espaço a serem explorados aqui ainda, então talvez esse seja o principal desafio: ter espaços próprios, resistentes e estruturados para os artistas se apresentarem.

Guilherme: Para quem curtiu o som de vocês, que outros artistas ou bandas vocês indicariam como referência ou afinidade sonora?

Controversy: Gojira, Opeth, Tool, King Crimson, Death, Porcupine Tree, Sepultura, Pink Floyd, Bloodbath.

Guilherme: Agora, com o lançamento de “ITÁ-UM”, quais são os próximos passos da Controversy para o restante de 2026?

Controversy: Lançamento de pelo menos um clipe e um novo single. Já temos muito material novo represado, que queremos estruturar para lançar, em breve, um novo álbum, mas talvez fique para 2027…

Guilherme: Marcus, obrigado novamente pela entrevista. Para encerrar, deixe uma mensagem final para os leitores.

Controversy: Joguem Dark Souls e bebam água. Obs.: o Lucas também falou “torçam pro Vasco”, mas os outros integrantes estão batendo nele neste momento, pois temos um palmeirense, um torcedor do Joinville Esporte Clube e outros que nem gostam de futebol. Mas é isso: com humor, amor e ódio, sejam originais. Ou tentem, pelo menos.