Silver Dust: A união do peso e da teatralidade prestes a invadir o Brasil

A união entre a estética steampunk vitoriana, orquestrações clássicas e o peso do Heavy Metal forma a identidade do Silver Dust. Liderada pelo multi-instrumentista e ex-goleiro profissional de hóquei no gelo, Lord Campbell, a banda suíça construiu sua reputação com base em uma forte veia teatral e apresentações marcantes.

Prestes a desembarcar no Brasil pela primeira vez para shows no Manifesto Bar e no festival Bangers Open Air, em São Paulo, Lord Campbell conversou conosco. Na entrevista a seguir, ele detalha o processo criativo do álbum “Symphony of Chaos”, reflete sobre os desafios financeiros da indústria musical e projeta o que os fãs brasileiros podem esperar dessa aguardada estreia no país.


Heavy Metal Online: A identidade do Silver Dust combina elementos steampunk e vitorianos. No processo criativo, a construção visual costuma ditar o rumo dos arranjos musicais ou a música vem primeiro e exige uma abordagem visual específica?

Lord Campbell: Os temas que exploramos podem ser bem diferentes. Pode haver histórias sombrias, algumas espirituais, outras cruéis, mas também há muitas observações sobre o nosso mundo atual e como ele funciona. Quero que tudo permaneça livre e não se limite a um único estilo musical ou a uma escolha específica de temas, mesmo que nosso visual seja, de fato, claramente steampunk vitoriano. Quanto às letras, elas são realmente reflexões e observações pessoais sobre o nosso atual mundo caótico. Acompanho de perto o noticiário e muitas coisas me afetam profundamente. Também sou um grande defensor dos direitos dos animais e totalmente contra a crueldade animal. O consumo excessivo de carne neste planeta é uma verdadeira praga. Uma grande farsa começou. Todos estão sofrendo por causa disso, tanto os animais quanto os seres humanos. A música “I’m Flying” aborda essa questão. Em Symphony Of Chaos, há também uma faixa intitulada “Goodbye”, que é uma homenagem ao meu melhor amigo, que deixou este mundo cedo demais devido a uma doença grave.

Heavy Metal Online: Em “Symphony of Chaos”, o contraste entre a agressividade do Heavy Metal e a sensibilidade da música orquestral é evidente. Como vocês trabalham esse equilíbrio no estúdio para garantir que o peso dos riffs não sufoque as melodias clássicas? Aliás, o que inspirou a banda a seguir por esse caminho?

Lord Campbell: Em relação à música e ao aspecto visual, eu sou o criador da banda, componho todas as músicas, escrevo as letras e cuido dos arranjos. Crio tudo de A a Z, incluindo o design gráfico, logotipos e capas dos álbuns. Ouço muita música clássica e gosto muito de criar o tipo de mistura que você mencionou. Não há risco de um riff de guitarra poderoso abafar uma melodia clássica se ele for perfeitamente adaptado e composto para essa mistura dos dois estilos. “Symphony of Chaos” é a prova perfeita disso, e ninguém pode dizer o contrário. Isso também exige um certo nível de domínio dos vários instrumentos que compõem uma orquestra. Meu objetivo era criar um álbum um pouco mais Metal do que os lançamentos anteriores do Silver Dust. Eu queria um álbum em que cada melodia ficasse na sua cabeça, com vocais poderosos, arranjos muito bem produzidos, loops eletrônicos e orquestrações clássicas épicas. Adoro trabalhar com diferentes plug-ins, sou apaixonado por programação e, olhando para trás, estou muito feliz com o resultado.

Heavy Metal Online: O Heavy Metal tem uma rica tradição de teatralidade, e vimos bandas com um forte apelo visual, como o Ghost, alcançarem um sucesso enorme recentemente. O que o Silver Dust traz de único para essa cena, destacando-se de outros nomes atuais?

Lord Campbell: Sou um grande fã do Ghost. Tobias Forge é um excelente compositor e um ótimo músico. A identidade visual do Ghost é muito forte, mas eu diria que a música é ainda mais. São tantas melodias, arranjos e uma voz única, tudo está na medida certa para funcionar. Há uma verdadeira genialidade no Ghost. Mesmo que o Silver Dust não se pareça em nada com o Ghost, é muito inspirador observar esse fenômeno. O mesmo vale para bandas como Alice Cooper, Marilyn Manson, Lordi ou Kiss. Há muito o que aprender com eles. Quanto ao que o Silver Dust traz para essa cena, acredito que também criei algo único. Trabalhei muito a minha voz para poder expressar tudo o que vem da minha mente, e os arranjos no Silver Dust são muito elaborados, às vezes clássicos, às vezes eletrônicos. Além disso, ver o Silver Dust ao vivo é uma verdadeira viagem para o público. Descobrir o Silver Dust significa descobrir outro mundo, e cada um dos quatro músicos desta banda tem uma identidade muito forte.

Heavy Metal Online: O clipe de “No Matter How Far Away” foca na química entre os membros e em uma performance visceral para mostrar a jornada de um herói enfrentando seus demônios. Quão desafiador é condensar um conceito lírico em poucos minutos de vídeo sem perder a essência da mensagem?

Lord Campbell: Com “No Matter How Far Away”, não há uma história ganhando vida na tela como em “Salve Regina”, mas é uma escolha deliberada e totalmente assumida. Eu queria apresentar algo poderoso sem deixar de ser muito melódico às vezes, e também destacar nosso ponto forte número um: nossa performance ao vivo. Tenho muita sorte de colaborar com músicos talentosos que confiam em mim e acreditam no Silver Dust. É um privilégio incrível tê-los ao meu lado hoje, e eles são excepcionais no palco, além de serem amigos preciosos. Mr. Killjoy (bateria), Neiros (guitarra) e Kurghan (baixo) contribuem enormemente para a imagem forte e o som característico do Silver Dust.

Heavy Metal Online: As letras de “No Matter How Far Away” lidam com resiliência e persistência. Olhando para a trajetória do Silver Dust desde 2013, quais foram os maiores obstáculos reais que a própria banda teve que superar para chegar a esse momento de crescimento internacional?

Lord Campbell: Quanto mais avançamos, mais notamos grandes mudanças desde 2013, tanto positivas quanto negativas. O lado positivo é que o Silver Dust continua crescendo, mas o lado negativo é o aspecto financeiro. O sistema entrou em colapso e eu realmente não entendo como viemos parar aqui. Tudo o que posso dizer é que você tem que continuar trabalhando o mais duro possível e nunca parar de produzir discos, enquanto continua a melhorar. Você tem que evoluir e estar disposto a correr riscos.

Heavy Metal Online: Sua mudança do hóquei no gelo profissional para a liderança de uma banda de Metal é bem interessante. Nos conte como foi essa virada na sua vida.

Lord Campbell: O esporte costuma ser descrito como uma escola de vida, e isso é muito verdade. Fui goleiro profissional de hóquei, uma posição onde é preciso ter nervos de aço. Até hoje, sou convidado para tocar nas pistas de hóquei da Suíça com o Silver Dust, o que é uma grande honra. O esporte me ensinou rigor, disciplina, trabalho duro e organização. Mas, acima de tudo, me ensinou a nunca desistir até atingir meu objetivo. Essa é a minha mentalidade, todos os dias.

Heavy Metal Online: Vocês farão sua estreia no Brasil em dois cenários opostos: a intimidade de um clube como o Manifesto Bar e a grandiosidade do Bangers Open Air. Como a banda adapta um show tão baseado em atmosfera e figurinos para palcos e distâncias de público tão diferentes?

Lord Campbell: Tudo se resume à energia, a energia que a banda transmite. Já fizemos muitas turnês por toda a Europa e temos muita experiência de palco. Estamos realmente empolgados para descobrir o país e apresentar o Silver Dust ao público brasileiro pela primeira vez. Sim, sabemos que os fãs brasileiros estão entre os mais exigentes do mundo e nós absolutamente adoramos isso. Estamos ansiosos para apresentar algo diferente, algo novo para o público. Ir a um show do Silver Dust significa viver uma experiência, entrar em outro mundo. Pela primeira vez em sua história, o Silver Dust vai se apresentar no Brasil. É uma grande honra fazer parte desse line-up maravilhoso do Bangers Open Air, e estamos muito ansiosos para encontrar todo mundo em São Paulo! Queridos amigos brasileiros, mal podemos esperar para ver vocês!