Entre poesia e screamo: Alesana revisita The Emptiness em noite memorável para cena underground paulistana

Com os álbuns On Frail Wings of Vanity and Wax (2006) e Where Myth Fades to Legend (2008), a banda estadunidense Alesana rapidamente conquistou destaque na cena post-hardcore/screamo, tornando-se um dos nomes mais relevantes do estilo na primeira década dos anos 2000. Porém, foi com o álbum The Emptiness, lançado em 2010, que o grupo levou seu trabalho a um patamar mais ambicioso e profissional, ampliando significativamente sua popularidade.

De forma criativa, o disco apresenta uma narrativa inspirada no poema “Annabel Lee”, de Edgar Allan Poe, desenvolvida ao longo de 11 faixas em formato conceitual, com elementos que remetem a uma espécie de ópera-rock moderna. O reconhecimento foi expressivo: além de possibilitar extensas turnês ao redor do mundo naquele mesmo ano, o álbum alcançou a posição #68 na Billboard 200, um resultado significativo para uma banda de perfil underground e com uma sonoridade pouco voltada ao apelo comercial.

Após passar por diversas cidades de diferentes países da América Latina, no último sábado (28), a turnê que celebra o lançamento de 15 anos do disco passou por São Paulo, e teve o Carioca Club como palco da apresentação — mesmo local que já sediou passagens anteriores do conjunto na cidade.

Durante todo o dia, o evento foi acompanhado com entusiasmo. Fãs se reuniram desde as primeiras horas da manhã em frente a casa de espetáculos, registrando nas redes sociais cada movimentação no local. Próximo à abertura dos portões, uma fila gigantesca já se estendia pela rua Cardeal Arcoverde.

Para abrir o show, subiu ao palco a banda AXTY, um dos maiores destaques do rock moderno da cena underground paulistana — já conhecida do público por participar em eventos com While She Sleeps, Escape The Fate e Slaughter To Prevail. Com nova formação e Beatriz Parisi (Wirestone, Lex Level) temporariamente no baixo, o grupo apresentou um setlist majoritariamente composto por faixas do excelente álbum Hannya, lançado em 2024. O som da AXTY se destaca por breakdowns intensos, batidas pesadas e pedais duplos violentos, enquanto o vocalista Felipe Hervoso impressiona com sua versatilidade, alternando entre vocais limpos e guturais estridentes. Em certo momento, o frontman revelou que o Alesana foi uma grande inspiração e que era uma honra tocar no Carioca Club, a casa onde o grupo se apresentou pela primeira vez. Apesar de soar bem mais pesado que o Alesana, foi uma escolha interessante para a abertura.

Com o Carioca Club lotado — de adolescentes a fãs “30+” — , o sexteto do Alesana subiu ao palco e explodiu com “Curse of the Virgin Canvas”, levando a casa à loucura. Seguiram na ordem cronológica do álbum: “The Artist”, “A Lunatic’s Lament”, “The Murderer” e “Hymn for the Shameless”. Infelizmente, alguns problemas técnicos marcaram o bloco, exigindo uma pausa longa para consertar o microfone do guitarrista Shawn Milke. Nesse intervalo, o vocalista Dennis Lee brincou: “Quem aqui já viu o Alesana ao vivo? Vocês sabem, a gente sempre quebra algo durante o show”.

Com tudo resolvido, o grupo levou a casa abaixo com “The Thespian”, o principal single do disco e um dos maiores hits do emo dos anos 2000. Em seguida, a galera continuou cantando alto até nas faixas secundárias, como “The Lover”, “In Her Tomb by the Sounding Sea” e “To Be Scared by an Owl”, sem poupar esforços em “Annabel” — uma verdadeira ópera rock de mais de sete minutos, coroada por um belíssimo coro do público no final.

Cada membro do Alesana entregou um espetáculo à parte. Dennis Lee, o “Jack Black do screamo”, atuava praticamente como um humorista, brincando sem parar, fazendo caretas e se jogando no chão. Shawn Milke animava dançando pelo palco e girando a guitarra. Patrick Thompson era imparável, pulando e correndo com o instrumento. O baixista Shane Crump agitava a beira do palco, jogando água em si mesmo e adicionando berros alucinantes à agressividade das músicas.

No fim do set regular, a multidão gritou por hits como “Ambrosia” e “Seduction”, mas Dennis rebateu: “Isso não é jukebox”. No bis, vieram as b-sides “This Is Usually the Part Where People Scream” e “Beyond the Sacred Glass”, além do clássico “Apology”, cantado em uníssono com um moshpit gigantesco. Ao final, os músicos deram uma aula de simpatia, distribuindo baquetas, setlists, palhetas e autografando itens de fãs por um bom tempo.

Ao lotar o Carioca Club mais uma vez, o Alesana provou que não foi mera onda do screamo: é uma banda relevante e competente. A criatividade de The Emptiness segue tão impactante quanto em seu lançamento.

Fotos — Thammy Sartori (credenciada pelo site “Tramamos”)

Setlist

Curse of the Virgin Canvas

The Artist

A Lunatic’s Lament

The Murderer

Hymn for the Shameless

The Thespian

Heavy Hangs the Albatross

The Lover

In Her Tomb by the Sounding Sea

To Be Scared by an Owl

Annabel

Bis

This Is Usually the Part Where People Scream

Beyond the Sacred Glass

Apology