The Fall of Troy estreia no Brasil com show técnico e caótico em São Paulo

No início dos anos 2000, os videogames passaram por um grande salto tecnológico. Não apenas os gráficos evoluíram, mas também diversos outros aspectos, como a conexão online, o desenvolvimento de narrativas mais complexas e a possibilidade de incluir músicas de artistas reais nas produções. Com o tempo, a indústria dos games cresceu a ponto de superar, em faturamento, os mercados do cinema e da música somados. Diante desse cenário, muitos produtores passaram a enxergar nos jogos uma poderosa plataforma para divulgar bandas e artistas.

Franquias como Burnout, Tony Hawk’s Pro Skater, Grand Theft Auto, NHL e Need for Speed sempre abriram espaço para grupos de rock, metal e hardcore em suas trilhas sonoras. Não é raro encontrar pessoas na cena underground que tiveram o primeiro contato com esses estilos musicais justamente por meio dos videogames.

Diversas bandas foram beneficiadas por essa exposição no universo gamer, mas um nome que merece destaque especial é o grupo estadunidense The Fall of Troy. Formado no estado de Washington em 2002, o trio composto por Thomas Erak (guitarra e vocal), Andrew Forsman (bateria) e Jon‑Henry Moss (baixo) rapidamente ganhou destaque na cena local com um som técnico e cheio de variações, que mais tarde seria associado ao mathcore. A projeção generalizada, no entanto, veio com o álbum “Doppelgänger” (2006), que traz a faixa “F.C.P.R.E.M.I.X.” — um verdadeiro hino entre jogadores nos anos 2000. A música integrou a trilha sonora de títulos populares como Major League Baseball 2K6, Saints Row e Guitar Hero III: Legends of Rock. É difícil imaginar que a banda tivesse alcançado a mesma repercussão sem essa exposição no universo dos games.

Duas décadas após sua presença inicial em títulos marcantes do entretenimento virtual, o trio finalmente realizou sua estreia na América Latina. A turnê passou por capitais de países como México, Chile, Argentina, Peru e Colômbia. Em São Paulo, a apresentação aconteceu no último domingo (8), no palco do tradicional Carioca Club, com produção da Overload.

O público presente não foi exatamente numeroso: cerca de um terço da casa foi ocupada — algo curioso, considerando a popularidade do nome na cena mathcore e os diversos pedidos dos fãs pela internet ao longo dos anos para que a banda finalmente viesse ao Brasil. Possivelmente, a procura mais modesta pode ser explicada pela grande quantidade de eventos acontecendo na cidade durante este mês de março.

Pontualmente às 20h, o trio subiu ao palco abrindo o show com “Mouths Like Sidewinder Missiles”, faixa que começa com uma forte pegada instrumental antes de se transformar em uma verdadeira explosão sonora. Logo nos primeiros momentos, o público já respondeu com um animado moshpit. Para compensar a longa espera pela estreia no país, o grupo apresentou um setlist especial, com grande destaque para músicas do álbum “Doppelgänger” (2006) e do disco de estreia “The Fall of Troy” (2003), incluindo faixas como “The Holy Tape…”, “Laces Out, Dan!”, “The Adventures of Allan Gordon”, “I Just Got This Symphony Goin’” e “You Got a Death Wish, Johnny Truant?”. Ao todo, músicas desses dois trabalhos ocuparam mais da metade do repertório de 19 canções. Ainda assim, o show também abriu espaço para composições de discos posteriores, como “Manipulator”, “In the Unlikely Event” e até do mais recente “Mukiltearth” (2020), garantindo certo equilíbrio no repertório. De forma exclusiva, “Chapter III: Nostalgic Mannerisms” — que não havia aparecido nos setlists das outras datas da turnê pela América Latina — também foi executada. Ao longo da apresentação, era perceptível que os instrumentos estavam excessivamente altos na mixagem, por vezes soando até mesmo desregulados.

Durante a apresentação, o baterista Andrew Forsman chamou atenção por seu estilo singular de tocar. Entre viradas caóticas que, à primeira impressão, pareciam quase fora do tempo, o músico conduzia o instrumento com uma intensidade destrutiva. Ainda assim, de maneira difícil de explicar, tudo se encaixava perfeitamente nas composições. O baixista Jon-Henry Moss, por sua vez, manteve uma postura mais contida no palco, concentrado em executar as complexas linhas de baixo enquanto reforçava as músicas com vocais gritados. Já o frontman Thomas Erak foi o mais carismático do trio. Durante o set, brincou com o público, aproximou-se diversas vezes da plateia na beira do palco com sua guitarra e comentou sobre sua festa de aniversário na noite anterior, além dos excessos e bebidas ao longo da turnê. Também impressionava observar sua habilidade em executar riffs extremamente complexos enquanto cantava, confirmando-o como uma figura central da banda.

Como era esperado, o encerramento veio com “F.C.P.R.E.M.I.X.” e sua cativante mistura de metalcore com uma certa atmosfera indie rock. O público, que não havia parado um minuto sequer no moshpit, abriu um enorme circle pit no meio da pista, provando que um show não precisa estar completamente lotado para ser extremamente energético e marcante.

Mesmo com a presença moderada de público e alguns problemas de regulagem no som — que afetaram parcialmente a experiência geral, sendo comum ouvir pessoas reclamando de desconforto auditivo e até tontura ao final da apresentação — , The Fall of Troy entregou um show competente. No fim das contas, a noite acabou sendo um verdadeiro presente para os fãs, já que contou comum setlist bem escolhido, carisma no palco, energia do público e músicos demonstrando alto nível técnico em seus instrumentos.

Fotos: Flávio Santiago (Credenciado pelo portal On Stage, que gentilmente compartilhou seu trabalho)

Setlist

Mouths Like Sidewinder Missiles
 The Hol[ ]y Tape…
 Laces Out, Dan!
 The Adventures of Allan Gordon
 I Just Got This Symphony Goin’
 Chapter III: Nostalgic Mannerisms
 Cut Down All the Trees and Name the Streets After Them
 Ex-Creations
 Sledgehammer
 We Better Learn to Hotwire a Uterus
 Straight-Jacket Keelhauled
 Chain Wallet, Nike Shoes
 Knife Fight at the Mormon Church
 You Got a Death Wish, Johnny Truant?
 Chapter I: Introverting Dimensions
 Reassurance Rests in the Sea
 Chapter I: Introverting Dimensions (Continuation)
 Whacko Jacko Steals the Elephant Man’s Bones

Bis

F.C.P.R.E.M.I.X.