Cólera prova que o legado de “Pela Paz em Todo o Mundo” permanece mais atual do que nunca com show especial no Sesc Santo Amaro

Lançado em 1986, “Pela Paz em Todo o Mundo”, da banda paulistana Cólera, é amplamente reconhecido como um dos trabalhos mais importantes da história do punk rock brasileiro. Lançado em um momento de redemocratização do país e de relativa pacificação da cena punk paulistana — marcada por intensos conflitos entre gangues no período de 1977 a 1982 — , o disco destacou-se por defender valores como paz, igualdade, liberdade e respeito aos direitos humanos. Enquanto boa parte das bandas do gênero concentrava seu discurso na revolta e no niilismo, o trio escolheu um caminho diferente, tornando-se referência do chamado “punk positivo” e definindo de forma definitiva sua identidade criativa.

Além da força de sua mensagem, o álbum teve papel decisivo na projeção internacional do punk brasileiro. O sucesso do material abriu caminho para que o Cólera realizasse, em 1987, a primeira turnê europeia de uma banda do estilo da América Latina, ajudando a colocar a música alternativa brasileira no mapa mundial.

Quatro décadas após seu lançamento, as quatorze faixas deste clássico continuam soando como verdadeiros hinos. Na última sexta-feira (24), Wendel Barros (vocais), Val Pinheiro (baixo e vocais), Fábio Belluci (guitarra) e Alonso Góes — amigo de longa data da banda e técnico de som, que assumiu a bateria na ausência de Pierre Pozzi, impossibilitado de participar por um compromisso pessoal — subiram ao palco do Sesc Santo Amaro para executar o álbum na íntegra e celebrar o legado de um dos trabalhos mais emblemáticos da música independente nacional.

Experiência geral e show

Quem ainda associa shows de punk rock a ambientes hostis certamente teria mudado de opinião ao entrar no Sesc Santo Amaro naquela noite. A plateia reunia diferentes gerações: crianças acompanhadas pelos pais e avós, adolescentes descobrindo o legado da banda e veteranos que viveram o auge da cena punk paulistana. Todos compartilhavam o mesmo espaço para celebrar mensagens de paz, respeito e solidariedade, comprovando que as ideias defendidas pelo Cólera permanecem tão atuais quanto há quase 40 anos.

Poucos minutos após as 20h, os músicos subiram ao palco. Originalmente, o público deveria assistir ao espetáculo sentado, mas bastaram as primeiras batidas de “Medo” para que boa parte da plateia quebrasse o protocolo, se levantasse e começasse a cantar junto com Wendel Barros em um enorme coro. A partir dali, o grupo executou “Pela Paz em Todo o Mundo” na íntegra, faixa por faixa, com clássicos como “Funcionários”, “Alternar”, “Vivo na Cidade” e “Pela Paz” sendo entoados como verdadeiros hinos. O contraste entre diferentes gerações dividindo o mesmo espaço tornava a cena ainda mais emocionante, com diferentes gerações acompanhando as composições com a mesma sintonia e respeito.

Musicalmente, a apresentação foi impecável. A banda executou o repertório com enorme precisão, reproduzindo com fidelidade a sonoridade do álbum sem abrir mão da energia característica dos shows do Cólera. Destaque para Alonso, que, mesmo sendo convocado de última hora, entregou uma performance marcante, exibindo uma técnica mais rápida e agressiva na bateria, o que acabou acrescentando uma camada significativa de peso ao set.

Após a execução completa do álbum, o quarteto prolongou a festa com outros clássicos de sua carreira, incluindo “São Paulo”, “Quanto Vale a Liberdade?”, “Deixe a Terra em Paz” e “Palpebrite”. No final, o repertório acabou não sendo apenas uma celebração ao disco histórico, mas sim uma emocionante homenagem ao legado de Redson Pozzi, fundador, guitarrista, vocalista e principal compositor do conjunto, falecido em 2011, com apenas 49 anos.

Quatro décadas depois de seu lançamento, “Pela Paz em Todo o Mundo” segue forte e majestoso. Ver crianças, adolescentes, adultos e idosos cantando em uníssono músicas sobre paz no Sesc Santo Amaro foi a prova vida de que “o grito não foi em vão”.

Setlist