Acompanho o Hibria desde a primeira demo. Em 1997, quando a banda participou do programa Arrasa Quarteirão para divulgar “Metal Heart” e tocou “Draft”, aconteceu o que posso definir como paixão à primeira ouvida. A velocidade, o destaque dado ao baixo e a força daqueles riffs colocavam o grupo em um patamar incomum para quem estava começando. Em 2026, ano em que completa três décadas de atividade, o Hibria lança “On the Shortness of Life”. Muita coisa mudou desde aquela participação no rádio, numa noite gelada de inverno, inclusive a maneira como a própria banda compreende o Heavy Metal e pelo que ela construiu ao longo destas décadas.
Nos primeiros anos, o Hibria praticava um som ligado diretamente à escola tradicional do gênero. Havia ecos de Judas Priest, Iron Maiden e do Power Metal dos anos 1990, conduzidos por músicos que gostavam de tocar rápido e mostrar habilidade. Esse caráter ficou ainda mais evidente em “Defying the Rules”, álbum que abriu as portas do mercado internacional e apresentou músicas como “Steel Lord on Wheels” e “Living Under Ice”. O vocal agudo de Iuri Sanson, as guitarras de Abel Camargo e Diego Kasper, além do baixo bastante presente de Marco Panichi e a energia das baquetas de Sávio Sordi ajudaram a formar uma identidade facilmente reconhecível. Os shows, inclusive, eram sempre memoráveis.
O grupo, porém, nunca permaneceu parado naquele modelo. “The Skull Collectors” conservou a velocidade, mas trouxe composições mais pesadas e trabalhadas. “Blind Ride” ampliou o uso de afinações baixas e bases cadenciadas, enquanto “Silent Revenge” levou a agressividade adiante. Os discos seguintes registraram novas formações e uma aproximação gradual com soluções mais atuais. Quando “Me7amorphosis” foi lançado, em 2022, já era evidente que o Hibria não pretendia reproduzir indefinidamente a fórmula de sua estreia.
“On the Shortness of Life” dá continuidade a esse percurso. O disco não promove um retorno aos tempos de “Metal Heart” ou “Defying the Rules”, embora conserve traços fundamentais da banda. A execução segue rigorosa, o baixo permanece importante nos arranjos e ainda existem passagens velozes. O entorno dessas características, no entanto, mudou. Os riffs ganharam recortes mais secos, certas bases se aproximam do Groove e as músicas alternam trechos tradicionais com escolhas que dificilmente apareceriam nos primeiros trabalhos.
A formação também apresenta uma nova realidade. Abel Camargo continua como principal ligação com a origem do Hibria, agora acompanhado pelo guitarrista Velles, pelo baterista William Schuck, pelo vocalista Ângelo Parisotto e pelo baixista Benhur Lima. O retorno de Benhur, que participou de álbuns como “Blind Ride” e “Silent Revenge”, traz de volta um músico que conhece bem o processo de transformação vivido pelo grupo. Ele também cuidou da mixagem, enquanto Renato Osório, ex-guitarrista do grupo, assumiu a produção.
A maior mudança está nos vocais. Ângelo Parisotto não procura repetir Iuri Sanson ou Victor Emeka. Seu canto é mais áspero, com ataques fortes e uma interpretação que por vezes se aproxima de registros empregados no Metal contemporâneo. Os agudos continuam presentes, mas dividem espaço com linhas mais agressivas. Essa escolha pode causar estranhamento em quem associa o nome Hibria a timbres mais agudos. Ainda assim, seria injusto julgar Parisotto apenas pela distância que mantém de seus antecessores.
“Undying” abre o álbum com um riff veloz e coloca o baixo imediatamente em evidência. É uma das faixas mais próximas do Hibria clássico, embora a produção e o estilo vocal deixem claro que estamos diante de outra fase. A composição tem energia, boas mudanças rítmicas e uma pegada empolgante. Como apresentação da nova formação, cumpre muito bem sua finalidade. O refrão é muito bom.
“Fire Away” segue por um caminho direto, com guitarras rápidas e uma estrutura que remete à pegada dos primeiros anos. Não é uma reconstrução nostálgica, pois os timbres e a condução rítmica pertencem ao Hibria atual. A faixa mostra que a antiga inclinação pelo Power Metal ainda existe, mesmo que não seja mais o único idioma usado pelo grupo. É uma das minhas preferidas deste novo registro, com ótimos solos.
A diferença fica mais acentuada em “Pulse”. O andamento quebrado logo de início, com riffs cadenciados e a maneira como os vocais são encaixados aproximam a música de tendências mais recentes. É uma faixa que provavelmente dividirá opiniões. Para quem acompanhou a banda por “Steel Lord on Wheels”, “Tiger Punch” ou “Defying the Rules”, a mudança é considerável. Dentro da sequência do álbum, contudo, “Pulse” volta a andamentos velozes, com riffs pesadaços.
“Persist” recupera a movimentação, combinando velocidade com passagens mais controladas. A música tem um dos refrães mais eficientes do disco e oferece espaço para que as duas guitarras desenvolvam suas próprias linhas. Também evidencia o trabalho de William Schuck, que alterna conduções rápidas e marcações firmes sem transformar a composição em demonstração gratuita de técnica.
Entre os melhores momentos está “Melting Alive”. A faixa desenvolve suas ideias com maior naturalidade e encontra uma boa medida entre melodia, força e variação. O baixo de Benhur Lima pode ser acompanhado mesmo durante os encontros com as guitarras, característica que remete à importância concedida ao instrumento desde o início da banda. Ângelo também apresenta uma interpretação mais variada, conduzindo muito bem as mudanças da música. É uma faixa rápida e agressiva.
Com mais de seis minutos, “Against the Wall” abre espaço para trechos mais calmos e trabalhados. Há alterações de ritmo e um trabalho de guitarra com uma sonoridade mais “moderna”. “Animus” é curta em comparação com as duas composições que a cercam. Sua posição antes da faixa-título faz dela uma passagem importante para o encerramento. Os riffs são cortantes, o refrão mantém a agressividade e a seção instrumental segue com velocidade. Ao vivo, caso esteja no set list, deve se tornar um dos destaques das apresentações.
O álbum termina com “On the Shortness of Life”, suíte de dezessete minutos dividida em “Adiaphora”, “Prohairesis”, “Apatheia”, “Ataraxia” e “Eudaimonia”. Os nomes vêm da filosofia estoica, ligação coerente com o título retirado da obra de Sêneca. A discussão proposta gira em torno do tempo, das escolhas individuais e da forma como cada pessoa conduz a própria existência. Musicalmente, a faixa reúne várias faces do Hibria. Existem passagens rápidas, trechos progressivos, mudanças de clima e momentos nos quais o baixo assume a condução. Em vez de acrescentar uma música longa e com ares épicos apenas para encerrar o álbum de maneira grandiosa, o grupo organiza a faixa como conclusão do assunto iniciado em “Undying”.
A produção de Renato Osorio está em cima. Guitarras, baixo e bateria podem ser identificados mesmo nas partes mais movimentadas, detalhe importante para músicas construídas sobre uníssonos e mudanças rápidas. “On the Shortness of Life” não é um álbum simples de classificar. Há elementos do som que projetou o Hibria, porém eles agora convivem com grooves, afinações mais baixas e uma interpretação vocal distante daquela que apresentou a banda ao mundo. Essa combinação nem sempre ocorre com a mesma fluidez, especialmente quando as composições tentam reunir linguagens muito diferentes.
Depois de acompanhar o Hibria desde aquela aparição no programa Arrasa Quarteirão, seria fácil exigir que a banda continuasse tocando como em 1997. Trinta anos de carreira, porém, envolvem mudanças de músicos, interesses e maneiras de compor. “On the Shortness of Life” registra exatamente esse movimento. O velho Hibria ainda pode ser ouvido na velocidade, no baixo destacado e no cuidado instrumental, mas está cercado por uma sonoridade que foi sendo modificada álbum após álbum.
Talvez o maior mérito do disco esteja em não fingir que o tempo parou. Algo que inclusive tem um pouco a ver com a proposta temática do disco. A edição japonesa inclui uma “live session” de “Steel Lord on Wheels”, oferecendo uma ligação direta com “Defying the Rules”. A faixa bônus recorda de onde o grupo veio; o restante do álbum mostra onde ele está. Para quem viveu aquela paixão à primeira ouvida em 1997, a experiência pode provocar surpresa, discordância e reconhecimento em medidas diferentes. Ainda assim, poucas coisas seriam menos adequadas ao conceito de “On the Shortness of Life” do que passar três décadas tentando repetir o mesmo momento. É sem dúvida o melhor trabalho do Hibria em anos.

