Hardcore na zona sul paulistana: Com show energético no Sesc Santo Amaro, Pense mostra que o underground também é forte fora das regiões centrais

Foto: Marcelo Baradel

Em 2022, a banda mineira Pense, um dos principais nomes do hardcore nacional contemporâneo, enfrentou um dos períodos mais delicados de sua trajetória. Lucas Guerra, Charles Taylo e Cristiano Souza, integrantes responsáveis pelo elogiado álbum “Realidade, Vida e Fé” (2018) — trabalho que ampliou significativamente a projeção do grupo no Brasil e no exterior — , deixaram a formação. A mudança gerou incertezas, mas o quinteto conseguiu se reestruturar rapidamente, renovar sua identidade e manter o prestígio conquistado ao longo dos anos.

Desde então, a banda vive uma fase positiva. Em 2024, lançou ‘Tudo Que Temos de Lembrar”, disco muito bem recebido pelo público e pela crítica especializada, que impulsionou uma intensa agenda de apresentações por todo o país. Já no último mês de junho, o conjunto alcançou mais um marco importante ao gravar um projeto audiovisual com ingressos esgotados na Casa Natura Musical, tornando-se a primeira banda de hardcore a se apresentar neste importante clube de espetáculos da cidade. Assim sendo, o grupo vem mostrando que não apenas se reinventou, mas que segue alcançando novos patamares dentro da cena independente.

Pouco menos de dois meses após o show de captação de imagens para o futuro DVD, os mineiros retornaram à capital paulista no último sábado (25), desta vez para uma apresentação no Sesc Santo Amaro, na zona sul da cidade, levando o hardcore para além do circuito da região central. Curiosamente, embora a banda mantenha uma relação bastante próxima com o público paulistano e se apresente regularmente na metrópole desde 2012, esse foi o segundo show do grupo em uma unidade da instituição por aqui.

Com um bom público para uma fria noite de sábado — embora a casa não tenha atingido a lotação máxima — , Ítalo Nonato (vocais), Daniel Avelar e Raphael Gonçalves (guitarras), Judá Ramos (baixo) e Alexandre Magno (bateria) subiram ao palco pontualmente às 20h. A partir daí, a banda desfilou um repertório recebido pelos fãs como uma coleção de verdadeiros hinos. Como esperado, o novo álbum ocupou papel de destaque, com faixas como “Sala de Controle”, “O Que as Palavras Dizem” e “Não Recuar para Ninguém”. Também chamou atenção a nova versão de “De Onde Viemos”, apresentada em um andamento mais lento e introspectivo, seguindo o arranjo exibido na gravação do DVD, que na ocasião contou com a participação de Teco Martins (Rancore). Ao mesmo tempo, clássicos dos demais discos como “Aponte para o Espelho”, “Espelho da Alma”, “Existência” e “Utopia” também surgiram ao longo do set.

A estrutura do Sesc Santo Amaro contribuiu para tornar a experiência ainda mais intensa. O palco baixo e a ausência de grades de proteção praticamente eliminaram qualquer barreira entre banda e público, incentivando os fãs a subirem para cantar ao lado de Ítalo Nonato e protagonizarem diversos stage dives ao longo da apresentação. Na reta final, a interação atingiu seu ponto máximo: a plateia foi convidada a invadir o palco durante “Eu Não Posso Mais”, transformando a música em um grande coro coletivo. Já em “Andando Sobre Pedras”, escolhida para encerrar a noite de forma definitiva, Ítalo desceu para a pista e se divertiu com a galera no moshpit.

O show reforçou que o hardcore também vive fora da região central, contando com forte público em regiões afastadas ou periféricas da cidade. Que iniciativas como essa se tornem cada vez mais frequentes, ampliando o acesso à música underground e fortalecendo ainda mais a cena independente local.