Narrando sobre guerra, empatia, ciência e responsabilidade coletiva por meio de histórias sensíveis, conjunto de art-rock apresenta conceito de seu novo disco, intitulado Tomorrow Is Now Today. Além disso, o grupo comenta sobre -nova fase marcada por turnês importantes e maior aproximação com o público latino-americano.
Guilherme: Olá, pessoal do Lesoir! Obrigado pela oportunidade e tempo cedido para esta entrevista aqui no site Heavy Metal Online. Para começar, seria possível uma introdução falando um pouco acerca da trajetória da banda?
Lesoir: Nós agradecemos o convite!
O Lesoir é uma banda de art-rock e rock progressivo. O grupo surgiu em 2009 e evoluiu gradualmente por meio da gravação de álbuns, turnês e do constante aprimoramento de nossa própria linguagem musical. Nossa música combina melodia e atmosfera com estruturas progressivas, arranjos em camadas e dinâmicas marcantes. Frequentemente, transitamos de passagens muito íntimas e delicadas para seções muito mais pesadas e grandiosas.
A base do processo de composição manteve-se constante ao longo da nossa trajetória: Ingo Dassen cria as composições musicais e, na sequência, Maartje Meessen elabora as melodias vocais e as letras. A partir daí, as músicas são desenvolvidas em conjunto com toda a banda.
Ao longo dos anos, o Lesoir passou por diversas formações, mas muitos dos músicos envolvidos compartilham uma longa história musical. Viemos da mesma comunidade musical e já tocamos juntos em diversos projetos. Na verdade, ninguém parece deixar o Lesoir completamente. Às vezes, integrantes se afastam por questões de trabalho, família ou outras prioridades, mas frequentemente retornam quando as circunstâncias permitem.
Hoje, o Lesoir funciona mais como um coletivo. Isso nos proporciona a flexibilidade de realizar turnês mais extensas, mantendo, ao mesmo tempo, a química e a identidade compartilhada que construímos ao longo dos anos. Tomorrow Is Now Today será o nosso sétimo álbum de estúdio e, para nós, representa tudo o que aprendemos nessa jornada.
Guilherme: A Holanda é bem conhecida por ter entregue ao mundo bandas de metal que conseguiram conduzir o estilo por um segmento mais melódico, como Within Temptation, Epica, After Forever e tantos outros. Quando vocês começaram a desenvolver a identidade musical do Lesoir, eram bandas serviram de referência?
Lesoir: De fato, nós respeitamos essas bandas e o espaço que conquistaram no cenário internacional. Todos esses grupos mostraram que nomes de um país relativamente pequeno como a Holanda podem construir uma carreira internacional ao entregar músicas ambiciosas, emotivas e melódicas.
No entanto, essas bandas nunca serviram como um modelo direto para a proposta final do Lesoir. Nós sempre nos sentimos mais conectados ao “art rock” e ao rock progressivo do que ao metal sinfônico. Nossa identidade se desenvolveu naturalmente a partir da combinação das músicas que ouvíamos, das personalidades dos integrantes da banda e da maneira como Ingo e Maartje compõem juntos.
Podem existir semelhanças quanto à importância da melodia, da atmosfera, da dinâmica e dos vocais emotivos, mas a nossa banda sempre abordou esses elementos sob sua própria perspectiva. Estruturas progressivas estão presentes em nossa música, mas elas devem servir à canção, em vez de se tornarem um objetivo em si mesmas. Não tentamos demonstrar o quão complexa uma composição pode ser; tentamos criar uma jornada musical e emocional.

Guilherme: Dois anos atrás, o conjunto lançou o disco Push Back the Horizon. Como foi o processo de composição, gravação e produção deste material. Agora, olhando para o passado, como vocês se sentem em relação ao feedback dos fãs e crítica?
Lesoir: O método de composição por trás desse disco foi similar aos métodos que sempre utilizamos em nossa trajetória. Ingo criou as bases e arranjos. Logo após, Maartje escreveu as letras e também começou a idealizar as melodias vocais. Boa parte do
Musicalmente, o disco se inclinou fortemente ao “lado rock” do Lesoir. É um disco direto, melódico e talvez até mesmo mais acessível do que nossos álbuns anteriores, embora ainda mantenha algumas características progressivas e dinâmicas de nossa sonoridade.
Olhando para trás, somos muito gratos pela repercussão. O álbum ajudou a alcançar novos ouvintes sem afastar os fãs que acompanhavam a banda há muitos anos. Esse disco também marcou nosso retorno à V2 Records, gravadora pela qual havíamos lançado anteriormente Transience e Luctor Et Emergo.
Desde Push Back the Horizon, notamos que a atenção da mídia internacional continua crescendo. Também observamos um interesse maior fora da Europa, especialmente na Ásia e nas Américas. Isso reforçou nossa convicção de que a nossa música pode se conectar com um público global.
Guilherme: Agora, em 2026, vocês estão preparando o disco Tomorrow Is Now Today. O espaço de tempo entre os lançamentos é relativamente curto. Isso é resultado de um período criativo dentro do grupo, ou existem outras motivações que justifiquem um lançamento tão rápido?
Lesoir: Definitivamente, estamos passando por um momento criativo, mas o lançamento do disco em um período de tempo tão curto não foi uma decisão calculada. O material simplesmente chegou, e surgiu um forte sentimento entre as pessoas que as músicas deveriam ser feitas agora.
Isso se reflete no nome do álbum. Tomorrow Is Now Today é baseado na percepção de que o futuro não é algo distante. As coisas que esperamos, tememos ou sonhamos já estão acontecendo ao nosso redor. Não devemos esperar para agir ou mudar, pois o amanhã já começou.
Essa sensação de urgência também esteve presente no processo criativo. Foi um álbum desafiador de produzir, mas que parecia necessário. Tínhamos ideias que queríamos explorar musicalmente e temas que queríamos abordar nas letras. Em vez de desacelerar o processo propositalmente para criar um intervalo maior entre os lançamentos, seguimos aquele impulso criativo.
Para a banda, o disco também representa um ponto de virada artístico. Não se trata de uma rejeição do nosso passado, mas de um momento em que tudo o que aprendemos ao longo dos anos ganhou contornos mais nítidos.
Guilherme: Vocês lançaram recentemente o single “Back to You”, que estará presente no próximo álbum. Vocês poderiam falar um pouco mais sobre essa música? Como ela surgiu e de que forma representa o conceito geral de Tomorrow Is Now Today?
Lesoir: “Back to You” foi inspirada na pessoa e na humanidade por trás de Volodymyr Zelensky, incluindo sua vida e carreira antes de se tornar presidente da Ucrânia e a forma como assumiu esse papel em uma situação quase inimaginável.
A música não pretende ser apenas uma declaração geopolítica. Queríamos olhar além do símbolo e focar no ser humano que vive essa realidade. Essa abordagem representa todo o álbum. Pegamos temas que podem parecer enormes ou abstratos — guerra, clima, violência, responsabilidade social — e tentamos torná-los específicos e humanos. Ao conectar uma questão global a uma pessoa, uma decisão ou um momento específico, ela se torna algo que as pessoas conseguem sentir e com o qual podem se identificar.
Musicalmente, a faixa começa de forma vulnerável e intimista, construída em torno de violão, violino e vocais. Aos poucos, ela cresce com a adição de novos instrumentos e camadas vocais até chegar a um final dramático e explosivo. Essa evolução do minimalismo para algo muito maior é uma parte importante da identidade musical do Lesoir.
Ingo compôs a música, depois Maartje escreveu a letra e as melodias vocais. As ideias iniciais para os arranjos de cordas foram criadas durante o processo no estúdio caseiro e posteriormente desenvolvidas por Bryan Raets em arranjos completos para um quarteto de cordas.
Gravamos o single no Airfield Studio utilizando estúdios separados para a banda e para os vocais. Embora a estrutura principal e as partes já estivessem definidas, cada músico ainda teve espaço para acrescentar sua própria interpretação. Ramon Reijnders, por exemplo, adicionou percussões extras durante as gravações, ajudando a tornar a construção final da música ainda mais poderosa.
No fim, “Back to You” é uma expressão de vulnerabilidade, esperança, força e humanidade. Apesar de ter uma fonte de inspiração muito específica, os ouvintes podem interpretar a letra a partir de suas próprias experiências e relacioná-la a outras pessoas ou situações.
Guilherme: Tomorrow Is Now Today será o sétimo álbum de estúdio do Lesoir. Depois de tantos anos de carreira, o que os fãs podem esperar deste novo trabalho? Haverá algo diferente em relação aos lançamentos anteriores?
Lesoir: Quem apreciou o caráter melódico e acessível de Push Back the Horizon certamente reconhecerá esse lado do Lesoir, mas Tomorrow Is Now Today amplia bastante nossa sonoridade.
Enquanto o álbum anterior era mais voltado ao rock, o novo disco mergulha de forma ainda mais profunda na emoção, na melodia, na atmosfera e nos contrastes. Momentos pequenos e delicados evoluem para passagens grandiosas e bombásticas. Texturas frágeis convivem com dinâmicas intensas, e as estruturas progressivas são utilizadas para fortalecer a narrativa emocional de cada música.
Os elementos progressivos continuam muito presentes. Há compassos diferentes, arranjos ousados e trechos que exigem mais atenção do ouvinte. Ao mesmo tempo, nunca enxergamos acessibilidade e experimentação como opostos. A música sempre vem em primeiro lugar e recebe exatamente o que precisa. Algumas faixas são mais diretas e abertas, enquanto outras exploram territórios progressivos de forma mais intensa.
Também trabalhamos com percussão gravada ao vivo e um quarteto de cordas real, apoiado por arranjos cuidadosamente desenvolvidos. Exploramos novos timbres de guitarra, diferentes camadas vocais e abordagens líricas, buscando trazer para as gravações mais da energia presente em nossos shows.
Liricamente, a perspectiva também se ampliou. Os álbuns anteriores do Lesoir costumavam estar mais ligados às experiências pessoais. Neste disco, Maartje frequentemente escreve sob o ponto de vista de outra pessoa: alguém que se sente ignorado, ferido, maltratado ou preso em circunstâncias que fogem ao seu controle.
O álbum aborda guerra, violência, amor, empatia, ciência e responsabilidade coletiva, mas faz isso por meio de histórias humanas individuais. Nesse sentido, Tomorrow Is Now Today olha mais para o mundo ao redor do que nossos trabalhos anteriores, embora continue sendo profundamente pessoal.
Nós o enxergamos o novo disco como um livro de histórias que deve ser ouvido do começo ao fim. Ele conduz o ouvinte pela mão e não o solta até a última nota. A cada audição, novos detalhes, texturas e camadas ocultas devem continuar se revelando.
Guilherme: Recentemente vocês foram anunciados como banda de abertura da turnê europeia de Anneke van Giersbergen. Como surgiu essa oportunidade e o que isso representa para a carreira da banda?
Lesoir: Nossos caminhos com Anneke se cruzaram diversas vezes ao longo dos anos. A gente já abriu shows do A Gentle Storm, projeto dela com Arjen Lucassen, e nos reencontramos no Night of the Prog, na Alemanha, em 2015. Portanto, já existe uma história em comum e uma conexão pessoal.
Já fazia bastante tempo desde nossa última colaboração, o que torna essa nova oportunidade ainda mais especial. Será uma extensa turnê com quatorze apresentações em seis países.
Além de ser uma artista extraordinária e uma das vozes mais marcantes da Holanda, Anneke também é uma pessoa genuinamente maravilhosa. Essa foi a impressão que ficou de nossos encontros anteriores e é exatamente assim que ela é reconhecida em toda a comunidade musical.
Para o Lesoir, essa turnê representa uma excelente oportunidade para apresentar a banda e o novo álbum a um público mais amplo. Esperamos conquistar novos ouvintes, reencontrar fãs fiéis em vários países e levar Tomorrow Is Now Today diretamente às pessoas por meio das apresentações ao vivo.
Ao mesmo tempo, não sentimos que estamos entrando em um ambiente completamente desconhecido, mas sim reencontrando alguém cujo caminho cruzou o nosso em vários momentos importantes da história da banda.

Guilherme: Falando em Anneke, o The Gathering também anunciou uma turnê especial em comemoração aos 30 anos de Mandylion, um dos álbuns mais influentes do metal holandês. O que esse disco representa para vocês?
Lesoir: Mandylion é, sem dúvida, um álbum muito importante para a história da música holandesa. Ele ajudou a mostrar que a música pesada podia ser atmosférica, emocional e ousada, ao mesmo tempo em que alcançava um amplo público internacional.
Discos como Mandylion ajudaram a criar um ambiente no qual bandas holandesas passaram a pensar além das fronteiras nacionais. O The Gathering demonstrou que a música não precisava se encaixar perfeitamente em uma única categoria. Passagens pesadas, atmosferas fortes, ideias progressivas e uma identidade vocal muito marcante podiam coexistir.
Esse é um princípio com o qual certamente nos identificamos. O Lesoir também existe entre diferentes mundos musicais. Utilizamos elementos do rock progressivo, art rock, rock alternativo e música atmosférica sem sentir necessidade de permanecer dentro de um único gênero.
Guilherme: Desde 2024, o Lesoir trabalha com a agência brasileira de assessoria de imprensa Tedesco Mídia. Como essa parceria começou? Ela faz parte de uma estratégia para fortalecer a presença da banda no Brasil e em toda a América Latina?
Lesoir: Sim, trabalhar com a Tedesco Mídia faz parte de nossa estratégia internacional mais ampla. O Lesoir sempre olhou além da Holanda. É um país relativamente pequeno e, quando se deseja crescer como banda de turnê, rapidamente é preciso começar a pensar internacionalmente.
A parceria surgiu a partir de nossas atividades de divulgação internacional e evoluiu porque a Tedesco Mídia compreendeu tanto a nossa música quanto o público potencial para ela no Brasil e no restante da América Latina. Era importante trabalhar com pessoas que não apenas distribuíssem um press release, mas que realmente entendessem onde o Lesoir se encaixa musicalmente e fossem capazes de comunicar a história da banda aos veículos e ouvintes certos.
O Brasil e a América Latina possuem públicos extremamente apaixonados por rock progressivo, art rock e estilos relacionados. Também percebemos um interesse crescente de ouvintes e da imprensa fora da Europa, especialmente desde nosso retorno à V2 Records e da ampliação de nossa distribuição global.
Nosso objetivo certamente é fortalecer nossa visibilidade no Brasil e em toda a América Latina, mas encaramos isso como um processo de longo prazo. Trata-se de construir relacionamentos genuínos com jornalistas, plataformas e ouvintes, em vez de esperar resultados imediatos a partir de uma única campanha.
No fim das contas, nossa ambição é levar a música do Lesoir — e, futuramente, também nossos shows — ao maior número possível desses ouvintes.
