Lançado em 1991, o disco Whirlpool, da banda inglesa Chapterhouse, moldou o subgênero do rock que viria a ser conhecido como shoegaze. Neste material, em vez de apostar em algo já estruturado e comercialmente atrativo para o grande público, o conjunto decidiu entregar algo ousado para o padrão do rock underground na época, com guitarras e bateria pesadas que, curiosamente, continham certas passagens agradáveis, além de psicodelia, melodias pop e ritmos dançantes, resultando em um som bastante inusitado.
Comercialmente, o disco — assim como todo o estilo — acabou sendo ofuscado pela onda do grunge, que estava bombando na mesma época, quando nada que não se parecesse com Nirvana, Pearl Jam e Soundgarden tinha grande espaço na mídia tradicional. Logo depois, veio o pop punk de Green Day, The Offspring, Blink-182 e outros, mostrando uma sonoridade ainda mais agitada e festiva, tirando qualquer chance de o segmento triunfar entre o público roqueiro geral. No entanto, ao lado de trabalhos como Loveless (My Bloody Valentine), Just for a Day (Slowdive) e Going Blank Again (Ride), Whirlpool conquistou um status cult dentro do cenário alternativo, e faixas como “Pearl”, “Breather” e “Falling Down”, mais de três décadas depois, são reconhecidas como obras obrigatórias para quem deseja conhecer o shoegaze, além de estarem presentes em praticamente todas as playlists dedicadas ao gênero.
Na última terça-feira (29), os ingleses finalmente estrearam no Brasil, presenteando o público paulistano com um repertório especial ao executar na íntegra seu magnum opus e celebrar os 35 anos de trajetória do álbum no palco do Cine Joia, clube queridinho da galera alternativa. A apresentação foi entregue pela Balaclava Records, selo já conhecido dos seguidores de música indie e aclamado por fãs do estilo por entregar shows que outrora pareciam impossíveis de acontecer por aqui.
Com o público ainda chegando ao local, a abertura ficou a cargo dos curitibanos do terraplana, um dos maiores nomes do shoegaze nacional e já bastante conhecidos no cenário por participarem da abertura de importantes shows nacionais e internacionais, como Deafheaven e Turnover, além do lançamento do disco Nenhuma Estrela, do Terno Rei, em meados de 2025. Recentemente, o grupo também chamou atenção ao realizar uma excursão pelo continente europeu. No set, Stéphani Heuczuk (voz e baixo), Vinícius Lourenço (voz e guitarra), Cassiano Kruchelski (voz e guitarra) e Wendeu Silverio (bateria) focaram em seu mais recente disco, Natural, lançado em março de 2025, executando nove faixas do material.

Músicas como “Todo Dia”, “Amanhecer” e “S.N.C.” apresentaram uma sonoridade barulhenta, marcada por fortes extensões instrumentais e guitarras e bateria absurdamente pesadas, que, por vezes, acabavam comprometendo os vocais. As canções “Conversas” e “Me Esquecer”, do disco Olhar Para Trás (2023), também estiveram presentes. Como de costume, a apresentação do conjunto contou com baixa iluminação, tornando a experiência ainda mais caótica e atmosférica, em um match perfeito com o clima das faixas. Apesar de apresentar uma proposta muito mais pesada e sombria em relação à atração principal, o show foi acompanhado com bastante atenção e respeito pela plateia.

Após uma pausa para as mudanças no palco — que contou até mesmo com o baterista Ashley Bates montando os instrumentos e brincando com os fãs, fazendo um aviãozinho de papel com o setlist e arremessando-o para a plateia — , e com a pista já lotada por fãs de diferentes faixas etárias, o quinteto finalmente surgiu no palco, iniciando o repertório com a breve introdução instrumental “Ecstasy II”. Na sequência, os músicos mergulharam em sua obra-prima, executando-a na íntegra. Logo de cara, os sucessos “Breather”, “Pearl” e “Falling Down” fizeram o público dançar, pular e cantar a plenos pulmões. Ao término desse primeiro bloco, os frontmen Andrew Sherriff e Stephen Patman brincaram ao anunciar que seguiriam agora com o “Lado B” do disco. A reação da plateia, porém, não diminuiu, e o público continuou se divertindo ao som de “April”, “Guilt” e “Something More”. Sem dúvida, Whirlpool é um trabalho singular: suas músicas soavam ora extremamente barulhentas, ora dançantes e, em determinados momentos, relativamente melancólicas e dramáticas. Ainda assim, apesar das diferentes atmosferas exploradas pelo álbum, o sentimento predominante entre os presentes era de pura satisfação.

Depois de concluir a execução do álbum, o grupo continuou revisitando seu catálogo, apresentando faixas do EP Mesmerise, como “Precious One” e “Then We’ll Rise”, além de “Greater Power” e “Love Forever”, do disco Blood Music — com essas canções apresentando uma atmosfera mais dançante com influência da dance music noventista, indicando caminhos que a banda chegou a explorar antes de encerrar as atividades nos anos 1990. Nesse trecho do repertório, o show ganhou um clima mais descontraído, com os integrantes conversando com o público e agradecendo repetidamente pelo apoio dos fãs — algo particularmente marcante dentro do shoegaze, gênero em que a interação entre artistas e plateia costuma ser bastante limitada. Para encerrar a noite, a escolhida foi a romântica “Need (Somebody)”, do EP Freefall.

Mais do que uma simples celebração dos 35 anos de trajetória de Whirlpool, a estreia do Chapterhouse em São Paulo serviu como uma espécie de reencontro tardio entre a banda e os fãs. Se a banda passou boa parte dos anos 1990 à margem das grandes tendências do rock, o tempo acabou tratando de entregar o devido reconhecimento ao trabalho dos ingleses.
Fotos: Lohanne Villela





























Setlist
- Ecstasy II
- Breather
- Pearl
- Autosleeper
- Treasure
- Falling Down
- April
- Guilt
- If You Want Me
- Something More
- Precious One
- Then We’ll Rise
- Come Heaven
- In My Arms
- Greater Power
- Love Forever
- Mesmerise
- Need (Somebody)
