Após 10 anos, Tigers Jaw reencontra público paulistano em noite de clássicos, novidades e covers

Embora a cena emo tenha alcançado seu auge no mainstream durante o início dos anos 2000, o gênero voltou a despertar grande interesse do público nos últimos anos, especialmente após a retomada dos eventos presenciais no período pós-pandemia. O movimento, que por muito tempo permaneceu associado à nostalgia de uma geração, vem demonstrando fôlego renovado, conquistando tanto antigos admiradores quanto novos ouvintes.

Um dos exemplos mais expressivos desse fenômeno é o festival I Wanna Be, dedicado ao emo e a vertentes relacionadas. Entre 2024 e 2025, o evento registrou duas edições com ingressos esgotados no Allianz Parque, atual Nubank Parque, reunindo milhares de pessoas. Curiosamente, as atrações principais de cada edição — Simple Plan, na estreia, e Fall Out Boy, no ano seguinte — em visitas anteriores, se apresentaram em casas de médio porte, como Audio e Citibank Hall (atual Vibra São Paulo), ambas com capacidades que sequer chegam a 4000 pessoas. Outro caso emblemático é o Bring Me The Horizon: no início da década passada, a banda inglesa se apresentou no Carioca Club, diante de pouco mais de mil pessoas, mas, em 2024, esgotou os ingressos para um show no Allianz Parque. A apresentação ganhou registro audiovisual especial, exibido em salas de cinema ao redor do mundo, e o grupo também integrou o Palco Mundo do Rock in Rio em 2026.

Entretanto, o crescimento da cena não se restringe a artistas que já alcançaram projeção comercial expressiva. Bandas de menor alcance midiático, mas com trajetórias consolidadas no circuito alternativo, também vêm encontrando públicos cada vez maiores. Um exemplo é o Tigers Jaw, grupo estadunidense que combina elementos de pop-punk e midwest emo a passagens eletrônicas. Em suas passagens anteriores por São Paulo, a banda enfrentou uma realidade bastante diferente da atual. Em 2015, apresentou-se no antigo Morfeus Club, espaço intimista que, com esforço, comportava cerca de 200 pessoas. Dois anos depois, retornou à cidade para um show no Fabrique Club, que contou com baixa procura: a imprensa especializada relatou que nem metade da pista havia sido ocupada na ocasião.

No último sábado (10), porém, o público testemunhou o crescimento expressivo do interesse dos fãs não apenas pelo Tigers Jaw, mas também pela cena emo como um todo. Em um evento organizado pela produtora NDP em parceria com a Powerline Music & Books, o grupo realizou seu aguardado retorno à capital paulista após quase dez anos, lotando o Cine Joia, uma das principais casas de São Paulo dedicadas à música alternativa. Mais do que um reencontro aguardado, a apresentação evidenciou o amadurecimento artístico da banda, refletido nos álbuns recentes I Won’t Care How You Remember Me (2021) e Lost on You (2026), além de reforçar que o emo — seja no mainstream ou em suas vertentes menos conhecidas do underground — está longe de ser uma moda passageira ou uma manifestação musical sem muita relevância.

O evento contou com certa atmosfera de festival, reunindo três conjuntos de abertura com propostas musicais distintas, mas que, de diferentes maneiras, dialogavam com a sonoridade do Tigers Jaw. Responsável por abrir a programação, veio o quarteto sorocabano Ana Paia, que vem conquistando espaço no underground com seu primeiro disco intitulado Continuar, lançado em 2025. Em um set enxuto, o grupo apresentou algumas das principais faixas de seu catálogo, como “Eu Continuo Aqui”, “5h da Manhã”, “Falha” e “Brutal”. Com uma sonoridade que transita entre o emo, o slowcore e o shoegaze, a banda aposta em guitarras arrastadas, vocais lentos e atmosferas melancólicas, remetendo ao trabalho do Adorável Clichê, outro nome de destaque do rock alternativo nacional contemporâneo.

Na sequência, subiu ao palco o Marrakesh, um dos principais nomes associados à Balaclava Records, selo de grande relevância na cena alternativa brasileira. Em uma apresentação igualmente breve, o grupo curitibano concentrou seu repertório em faixas do álbum homônimo, lançado em 2025 e considerado um dos melhores trabalhos de sua trajetória até o momento. Canções como “Ponto Final”, “Cão” e “Talvez” evidenciaram a maturidade do grupo na construção de um indie rock profissional e bem elaborado. Infelizmente, o set foi prejudicado por diversos problemas técnicos, incluindo microfonia nos vocais, guitarras emboladas e até uma falha no bumbo da bateria. Apesar dos contratempos, a banda conseguiu conquistar a atenção do público presente na pista.

Encerrando a sequência de atrações nacionais, o Metade de Mim mostrou por que figura entre os destaques do emo melódico brasileiro. Assim como o Marrakesh, o grupo aproveitou a oportunidade para apresentar novidades, concentrando o repertório em Acidentes, seu primeiro álbum completo, lançado em abril e já apontado como um dos destaques do rock independente no ano. Faixas como “Aviso Prévio”, “Voltar Atrás” e “Eu Não Sei Falar de Amor” revelaram uma sonoridade moderna e bem produzida, marcada por influências de nomes como Menores Atos, Balance and Composure e Basement, além de letras confessionais que favorecem a identificação com o público. A recepção foi digna de atração principal, com os fãs acompanhando as canções em coro, letra por letra. Na reta final, o grupo ainda mandou um trecho de “The Night I Drove Alone”, do Citizen, levando a galera a loucura, e convidou Milton Aguiar, vocalista do Bayside Kings, para participar de “Você Não Vale o Trampo Que Dá”.

Um ponto que merece destaque: ao longos dos sets: as três bandas demonstram apoio ao candidato Lula durante o segundo turno das eleições 2026.

Com o encerramento das bandas de abertura e a casa já lotada, o cenário passou por algumas mudanças, acompanhadas de perto por Ben Walsh e Brianna Collins, que ajudaram a equipe técnica na preparação do palco. A atitude reforçou a postura despretensiosa dos integrantes, distantes de qualquer comportamento típico de rockstars. Com tudo pronto, a apresentação começou com a faixa acústica “It’s OK”, seguida por “Primary Colors”, que trouxe a banda completa e uma pegada mais próxima do pop-punk. Ambas integram o recém-lançado Lost on You e, logo de início, evidenciaram a diversidade sonora do novo trabalho. Ainda no início do set, o grupo trouxe um dos pontos altos da noite ao executar versões acústicas de “Where Am I?” e “Safe in Your Skin”, da lendária banda Title Fight — um dos principais nomes desse movimento musical, que entrou em hiato no ano de 2018. A resposta foi imediata: o público cantou em uníssono, em uma demonstração de sintonia e emoção tão intensa que parecia capaz de fazer as paredes do Cine Joia estremecerem. Sem dúvida, um dos momentos mais emocionantes de toda a apresentação.

Com a plateia definitivamente conquistada, o Tigers Jaw seguiu revisitando diferentes fases de sua discografia. O álbum Lost on You teve papel central no repertório, com nove faixas executadas ao longo da noite. Entre elas, as animadas “Head Is Like a Sinking Stone” e “Ghost” figuraram entre as mais bem recebidas pelos presentes. O grupo, porém, não deixou de lado os trabalhos anteriores, alternando músicas de Belongs to the Dead e Charmer com composições como “The Sun” e “Nervous Kids”, além de resgatar faixas queridas dos discos Spin e Tigers Jaw, caso de “June” e “Never Saw It Coming”. Com instrumentais acessíveis e refrões convidativos, estas canções poderiam facilmente integrar programações de pop rock em rádios ou trilhas sonoras de produções hollywoodianas voltadas ao público adolescente.

Musicalmente, Ben Walsh e Brianna Collins demonstraram a sintonia que sustenta a identidade do conjunto, alternando os vocais e explorando tanto interpretações individuais quanto momentos compartilhados. A riqueza dos arranjos também chamou a atenção, com influências que transitavam entre o pop-punk, o indie de contornos eletrônicos e o rock mais comercial. E, embora a sonoridade do grupo não seja necessariamente agressiva, a reação dos fãs esteve longe de ser contida: entre uma música e outra, a pista se transformava em um verdadeiro redemoinho de stage dives, como se o palco estivesse diante de uma banda de hardcore extremo. A energia atingiu seu ápice na reta final, quando um enorme mosh pit tomou conta do Cine Joia durante “Plane vs. Tank vs. Submarine” e “I Saw Water”, encerrando a sequência em clima de euforia e mantendo o público em plena ebulição.

Com uma apresentação que equilibrou delicadeza melódica, refrões marcantes e momentos de intensa interação com o público, o Tigers Jaw demonstrou a consistência de sua trajetória e a versatilidade de sua discografia. A passagem pelo Cine Joia também evidenciou o potencial de crescimento de bandas que, mesmo distantes do grande circuito comercial, encontram no Brasil uma audiência cada vez mais receptiva.

Fotos: Flávio Santiago (credenciado pelo site Onstage)

Setlist

It’s OK

Primary Colors

Where Am I? / Safe in Your Skin

Head Is Like a Sinking Stone

The Sun

Nervous Kids

Between Your Band and the Other Band

Anxious Blade

Baptized on a Redwood Drive

Hum

June

Never Saw It Coming

BREEZER

Ghost

Guardian

Anniversary

Staring at Empty Faces

Plane vs Tank vs Submarine

Chemicals

Lost on You

I Saw Water