Quando se fala em death metal, é comum recordar nomes estadunidenses da cena da Flórida, como Death, Morbid Angel, Deicide e Obituary, ou grupos ingleses como Carcass, Bolt Thrower e Benediction. No entanto, enquanto o estilo despontava no cenário da música extrema, bandas suecas também começavam a explorar suas possibilidades sonoras, lançando trabalhos fundamentais para a consolidação do gênero. Não por acaso, a Suécia, país reconhecido por sua forte tradição no metal, tornou-se um dos principais polos do death metal mundial.
Entre os pioneiros dessa vertente do país nórdico, destacam-se nomes como Entombed, Dismember e Unleashed. Outro grupo de importância incontestável é o Grave, responsável por ajudar a estabelecer as bases de uma sonoridade que conquistaria admiradores muito além das fronteiras escandinavas.
Formado em 1988, em Visby, o conjunto surgiu em um momento decisivo para o desenvolvimento do death metal, quando o gênero começava a se desvincular de suas raízes no thrash metal para consolidar uma identidade musical própria. Nesse processo, o Grave contribuiu para estabelecer as características de uma escola sueca marcada pela brutalidade, pelos riffs pesados e ríspidos e por uma abordagem direta, na qual a força das composições e a atmosfera sombria se sobrepunham à busca por virtuosismo técnico. Uma fórmula que ajudaria a moldar o som de inúmeras bandas que surgiriam nos anos seguintes.
Embora não tenha alcançado a mesma projeção internacional de nomes como Death e Cannibal Corpse, o Grave ocupa um lugar fundamental na história da primeira geração do death metal. Seus dois primeiros álbuns, Into the Grave (1991) e You’ll Never See… (1992), são registros essenciais entre admiradores do estilo, além de grande influência no desenvolvimento da música extrema.
Na última quarta-feira (7), os headbangers paulistanos tiveram a oportunidade de testemunhar um capítulo especial dessa história. Após mais de 14 anos sem se apresentar na cidade, o Grave retornou a São Paulo para um show no palco da Burning House. A ocasião, porém, reservava um atrativo ainda mais especial: a reunião de sua formação original, composta por Ola Lindgren e Jonas Torndal nas guitarras, Jörgen Sandström nos vocais e no baixo e Jens “Jensa” Paulsson na bateria.
Mais do que uma oportunidade de rever um dos nomes fundamentais do death metal sueco, a apresentação representou um encontro histórico para os fãs paulistanos, que puderam conferir ao vivo uma formação cuja reunião dificilmente parecia possível. A passagem pela capital paulista integrou uma turnê que também incluiu datas no Chile, Colômbia e no México.
Para abrir a noite, nada mais justo do que uma banda fortemente influenciada pela atração principal. Nesse sentido, a produção da Caveira Velha e da Xaninho Discos acertou em cheio ao convocar o Infamous Glory, importante representante da cena extrema local. Com um repertório que destacou faixas de seu álbum mais recente, Algor Mortis (2024), além de composições de outras fases da carreira, o grupo entregou uma apresentação marcada por riffs pesados, vocais extremos, bateria veloz e uma sonoridade crua, que prioriza a força das composições. Ficou evidente que o quarteto bebeu diretamente da fonte dos primeiros trabalhos do Grave e de outros pioneiros do death metal sueco. Para coroar a apresentação, o grupo ainda executou um cover de “Casket Garden”, do Dismember, prestando homenagem a outro nome fundamental daquela cena.

Após uma breve pausa para os ajustes no palco, contando inclusive com integrantes do Grave junto aos roadies, o quarteto surgiu diante de uma pista relativamente cheia para uma noite de quarta-feira. Depois de cumprimentar o público, os músicos deram início ao set com a brutal “Into the Grave”, faixa-título do álbum lançado em 1991. Com bateria veloz, riffs devastadores e vocais agressivos, a música sintetiza tão bem a essência do death metal que poderia facilmente ilustrar uma definição de “música extrema” na Wikipédia. Com o público rapidamente conquistado, a banda emendou “Day of Mourning”, outra pedrada de seu disco de estreia, antes de revisitar You’ll Never See… (1992) com “Morbid Way to Die”.

Em uma breve pausa, Jörgen Sandström agradeceu a presença dos fãs e comentou sobre a emoção de voltar a tocar em São Paulo depois de tantos anos. Encerrada a interação, o frontmen deu o sinal para “Deformed”, faixa que finalmente desencadeou um mosh pit sem que ninguém parecesse muito preocupado com as dores que poderiam surgir no expediente do dia seguinte. A roda seguiu agitada enquanto o Grave percorria diferentes momentos de sua discografia, com destaque para “In Love”, “Hating Life”, “For Your God” e “Brutally Deceased”. O repertório também reservou espaço para faixas menos óbvias, como “Soulless” e “Eroded”, ampliando a representação das diferentes fases da trajetória do grupo.

Além da execução precisa das canções, o carisma dos integrantes foi outro ponto alto da apresentação. Durante as músicas, os músicos mantinham uma postura sisuda, quase ameaçadora, perfeitamente alinhada à atmosfera sombria de suas composições. Nos intervalos, entretanto, a expressão fechada dava lugar à simpatia e à descontração. Sandström agradecia constantemente a presença dos fãs, fazia brincadeiras e procurava estimular a participação da plateia, criando uma conexão que contrastava com a brutalidade do set.

Em uma dessas interações, o vocalista revelou que o Sepultura foi uma influência fundamental para a formação do Grave, destacando especialmente o álbum Schizophrenia (1987). Ele também comentou a relação do nome da banda com o grupo brasileiro: grave significa “sepultura” em inglês, uma referência que reforça a conexão entre os dois nomes da música extrema. Ola Lindgren também demonstrou estar à vontade, divertindo-se com o público e acrescentando expressividade à performance com caretas e gestos que evidenciavam o quanto estava aproveitando o momento. Mais reservados, Jonas Torndal e Jens Paulsson mantiveram uma postura discreta, mas compensaram a timidez com a intensidade e a energia dedicadas a seus instrumentos.

Ao final, o Grave deixou São Paulo com a missão cumprida, reafirmando a relevância de seu legado e a força atemporal do death metal sueco. Mais do que uma celebração nostálgica, o encontro da formação original mostrou que a brutalidade de seus clássicos continua tão impactante quanto há mais de três décadas. Para os fãs presentes, ficou a lembrança de uma noite histórica de celebração ao som extremo.
Setlists


Fotos: Jacqueline Souza




















