“Swedish Detah Metal” é leitura obrigatória para quem está envolvido com música extrema

Swedish Death Metal 1

Nota: 9

Death metal sueco.

Quem diria que a Suécia, um país distante dos grandes centros europeus no que dizia respeito ao metal, acabaria nomeando uma subdivisão do metal e ainda se tornaria o epicentro de uma quantidade enorme de bandas de alta qualidade? Improvável à primeira vista, mas não impossível.

“Swedish Death Metal”, livro lançado por Daniel Ekeroth, somente agora em 2026 saiu aqui no Brasil, todo traduzido para o português por Thiago “Índio” Silva (VICE Brasil, DarkSide Books, Edições Ideal), graças a uma iniciativa louvável entre o Morbus Zine, a Kill Again Records e a Metal Brasileiro Zines (MBZ). Seu maior mérito é ser um relato de quem estava lá, vivendo tudo aquilo que em poucos anos varreria e deixaria sua marca no mundo da música extrema.

Tudo começa em meados dos anos 1980, quando Ekeroth era mais um adolescente sueco fanático por metal, sobretudo europeu e estadunidense, que ia em um show ou outro ver as poucas bandas locais, a maioria de heavy e thrash metal, já que as bandas de fora nem cogitavam dar as caras pelo país. Só que, além dele, havia outros jovens que, graças a programas sociais que incentivavam o estudo da música e lugares baratos para ensaio, foram se unindo, formando suas bandas e criando, sem intenção nenhuma, uma cena. Entre esses jovens, nomes hoje conhecidos que foram cruciais para que isso acontecesse, como Niklas “Nicke” Andersson (Nihilist, Entombed), Tomas “Tompa” Lindberg (RIP 2025, Grotesque, At The Gates), Michael Amott (Carnage) e Tobias Forge (Reougnant), que começaram trocando fitas K7 e cartas, fazendo e colaborando com zines, montando bandas e, sem querer, acenderam a faísca que faria poucos anos depois o mundo da música extrema virar os olhos e ouvidos para a Suécia.

A forma de Ekeroth relatar as coisas deixa a leitura bem agradável, já que tudo corre de forma bem informal. Apesar de toda informação, como nomes das pessoas, das bandas pipocando, dos primeiros locais, etc., tudo corre sem deixar o texto cansativo ou mesmo confuso. A medida que você vai lendo o livro, vai percebendo como que eventos, a princípio pouco importantes, acabariam tomando uma dimensão inimaginável: a troca de fitas K7 pelos correios puxou a criação de uma pequena loja especializada em metal; essa loja serviu de ponto de encontro desses jovens para trocar ideias e formar as suas bandas; essas bandas despertaram o interesse de donos de estabelecimentos e produtores em produzir shows; esse shows e as bandas e demos lançadas cobertas por zines feitos a mão e depois xerocados, isso sem falar dos selos, estúdios, gravadoras…Logo, toda uma engrenagem estava montada e suportando, aí sim, uma cena local.

A história dos embriões do death metal sueco é revirada: Grotesque, Crematory, Nihilist, Carnage, Treblinka, Mefisto e ele, o Entombed, enaltecido – não sem razão – como o marco zero, graças ao lançamento de “Left Hand Path” (1990), disco gravado no Sunlight Studio, local que se tornaria uma referência ao ter criado o som de “guitarra motosserra” que se tornaria referência no mundo todo (créditos para Leif Cuzner, que reinventou o uso do pedal BOSS HM-2 Heavy Metal).

É impressionante como que em questão de poucos anos, um país que já tinha lá algumas poucas bandas conhecidas, ainda que bem undergrounds, como o Bathory (devidamente revisitado e reconhecido como o ponto de partida do metal sueco graças ao pioneirismo de Thomas “Quorton” Forsberg) e bandas punks como Anti-Cimex, Mob 47, Crude SS e Avskum, iria parir nomes como Entombed, Tiamat, Therion, Unleashed, Dismember, Grave, At The Gates, Edge OF Sanity, Hipocrisy, Katatonia, Dark Tanquility, Amom Amarth, Dissection, In Flames, e muitos, muitos outros.

O período coberto é relativamente curto, do nascimento a queda, onde o próprio Ekeroth cita o período 1992 em diante como o declínio do estilo graças a pasteurização do som, excesso de lançamentos e a superação do estilo pela chamada “segunda onda do black metal” (estilo constantemente execrado por ele, não sei se por rancor ou por não gostar mesmo).

Todo material gráfico do livro é muito bom: suas 565 páginas foram impressas em preto e branco em um papel muito agradável de segurar (só tenha cuidado com os dedos gordurosos, porque vai ficar marcado) e está atolado de fotos raras de bandas, demos, capas de discos, flyers, zines, divulgação de selos, etc. Ao final, há ainda duas sessões muito interessantes: uma “Deathografia” que traz nomes locais de A a Z de bandas não só de death metal, mas também de heavy, thrash, black, grind, etc. com uma breve descrição (algumas até cruéis), formação e seus lançamentos (até 2005) e outra, isso sim podendo ser chamado de histórico, cobrindo uma gama enorme de zines (os muitos que não foram extintos, acabaram migrando para o virtual, para desespero de Ekeroth). A edição brasileira tem ainda prefácio de Sérgio “Nekrobaloff666” Borges (vocalista do Headhunter D.C.) e posfácio de Sérgio Vilhena (guitarrista do Preceptor).

“Swedish Death Metal” é um dos livros mais importantes da música extrema que já foram lançados e que finalmente chegou ao Brasil, uma obra que deve ser conhecida por qualquer um que esteja envolvido com metal extremo.

Eu não recomendo, eu te digo: compre!