The Gathering – Algumas coisas o tempo não consegue levar

The Gathering

Por Ayron Borsari – @ayronborsari

Em 2005, comprei um VHS com uma apresentação do The Gathering no festival Dynamo Open Air, de 1996. Naquela época, o show já tinha quase dez anos, a qualidade da imagem não era exatamente um espetáculo e eu estava pouco me lixando para isso. Do outro lado da televisão de tubo de 14 polegadas, uma jovem holandesa chamada Anneke van Giersbergen cantava como se tivesse descoberto alguma coisa sobre a existência humana que o restante de nós ainda estava tentando entender.

Eu não fazia ideia de que, vinte anos depois, sairia de Minas Gerais rumo a São Paulo para assistir àquela mesma formação celebrando os 30 anos de Mandylion, o álbum que mudou a história do The Gathering e que me fez gostar da banda.

E não fui sozinho. Minha esposa, Juliana, embarcou comigo nessa viagem, muito por conta da própria empolgação. Fui eu quem apresentou a banda a ela, mas gosto de dizer que, hoje, ela gosta de The Gathering exatamente 1% a mais do que eu. Uma diferença pequena, mas suficiente para justificar alguns quilômetros de estrada.

A Audio (casa de shows), em São Paulo, recebeu uma plateia que parecia ter saído de algum lugar entre 1995 e os dias atuais. Cabelos mais curtos, algumas barrigas mais generosas, rostos marcados pelo tempo e aquela expressão de quem tinha deixado muita coisa para trás, menos a capacidade de se emocionar com uma boa música.

E então veio Anneke.

Existem vozes que envelhecem com seus donos, outras parecem fazer um acordo particular com o tempo. A dela continua carregando aquela mistura de delicadeza e força que ajudou a transformar Mandylion em um disco tão singular.

Quando clássicos como Leaves e Strange Machines começaram a preencher o ambiente, aconteceu uma coisa curiosa. Não havia contas para pagar ou compromissos para cumprir. Havia apenas música.

Talvez seja esse um dos maiores poderes da música. Ela não nos devolve os anos que passaram, mas consegue, durante alguns minutos, fazer com que a gente se lembre exatamente de quem éramos antes de perdê-los.

Não era simplesmente um espetáculo comemorativo. Era um reencontro com uma época e, principalmente, com versões de nós mesmos que já não aparecem com tanta frequência.

Passei uma parte da noite com a câmera nas mãos e algumas long necks na cabeça, tentando registrar tudo aquilo. Uma tarefa curiosa, porque existe sempre um conflito entre o profissional que precisa capturar o momento e o fã que gostaria apenas de guardar a câmera, levantar os braços e esquecer o resto do mundo.

No fim, tentei fazer as duas coisas.

E enquanto observava aquela formação reunida novamente, uma pergunta começou a incomodar, dessas que aparecem justamente quando estamos felizes demais para querer pensar no futuro: será que algum dia vou assistir a isso outra vez?

O The Gathering daquela época pertence a um capítulo muito particular da história do rock. Uma banda de identidade própria, distante das grandes multidões, mas capaz de criar uma ligação profunda com quem encontrou alguma coisa de especial naquelas músicas.

Talvez justamente por isso aquela noite de 15 de outubro de 2026 tenha sido tão importante. Não estamos falando de um espetáculo que acontece a cada seis meses, em qualquer esquina do planeta. Algumas reuniões são raras. Outras, talvez, irrepetíveis.

Quando tudo terminou, saí da Audio com os ouvidos satisfeitos, a memória cheia e uma fome considerável. A celebração terminou diante de um cachorro-quente de procedência questionável, desses que desafiam a vigilância sanitária e a expectativa de vida de qualquer cidadão razoavelmente responsável.

Achei apropriado. Afinal, depois de uma noite inteira viajando pelos anos 90, seria até uma falta de respeito terminar a experiência com uma refeição sofisticada.

Voltei para o Airbnb com Juliana, as imagens gravadas e aquela sensação difícil de explicar que aparece quando um sonho antigo finalmente encontra a realidade.

Em 2005, eu assistia àquele VHS sem imaginar que um dia estaria diante daqueles músicos. Em 2026, estava ali, tentando compreender como vinte anos haviam passado tão depressa.

O tempo levou muita coisa nesse intervalo. Algumas pessoas, algumas certezas, uma quantidade respeitável de cabelos e boa parte da nossa disposição para atravessar a madrugada sem consequências.

Mas deixou a música.

E nessa noite, enquanto Anneke cantava, percebi que o sujeito que comprou aquele VHS ainda estava por ali.

Só precisava que alguém apertasse o play novamente.