Uma década de Stage Four: Touché Amoré transforma dor em celebração no Cine Joia

Surgido no underground de Los Angeles, em 2007, Touché Amoré rapidamente se destacou na cena post-hardcore/screamo. Embora sua sonoridade fosse relativamente semelhante a de outras bandas que despontavam naquele período, o grupo tinha as composições de Jeremy Bolm como principal diferencial, já que suas letras abordavam experiências pessoais, conflitos internos e temas emocionalmente pesados, capazes de gerar conexão imediata.

A capacidade do compositor de trazer à tona temas sensíveis, entretanto, atingiu seu ápice em Stage Four, lançado em 2016 pela lendária gravadora Epitaph (responsável por disponibilizar materiais de nomes como Bad Religion, Converge, Millencolin, Descendents, entre outros). Neste trabalho, Bolm aborda a experiência de acompanhar a mãe durante o tratamento contra o câncer e, posteriormente, o processo de lidar com o luto. O próprio título apresenta um duplo sentido: trata-se de uma referência ao estágio quatro do câncer. As composições são específicas, autobiográficas e, em diversos momentos, desconfortáveis, explorando lembranças, culpa, arrependimento, ausência e a sensação de continuar vivendo após a perda de alguém próximo. Em comparação com os trabalhos anteriores, como …To the Beat of a Dead Horse (2009) e Parting the Sea Between Brightness and Me (2011), marcados por uma escrita mais metafórica e próxima da poesia, Jeremy adotou no quarto álbum uma abordagem mais direta, detalhada e pessoal.

Celebrando uma década deste importante trabalho de sua trajetória, o quinteto decidiu realizar uma turnê especial, executando o material na integra. A excursão passou por diversas cidades da América do Norte e da Europa e, no último sábado (12), passou por São Paulo. O show aconteceu no palco do Cine Joia, com organização da NDP Productions, e teve ainda um significado particular: a capital paulista recebeu a última apresentação da turnê pela América Latina.

Para a abertura, foram convocadas bandas de propostas distintas, que não estavam totalmente alinhadas à sonoridade da atração principal. A escolha, porém, serviu para demonstrar a variedade existente dentro do cenário underground. Dando início ao evento, subiu ao palco a Sodade, grupo paulistano que define sua sonoridade como “Post Black Metal/Shoegaze”. No repertório, estiveram presentes algumas faixas de seu recente EP, Naskimentu, Resisténsia, Despedida, marcadas composições extensas, algumas com mais de sete minutos, além de riffs intensos, vocais rasgados e uma atmosfera densa, evidenciando forte influência do grupo californiano Deafheaven.

Na sequência, foi a vez do grupo Dialiética, diretamente de Curitiba. A sonoridade do conjunto apresentou uma abordagem mais pesada do screamo, alternando momentos de maior agressividade com passagens de guitarra melódicas que chegaram a remeter ao primeiro disco da banda canadense Alexisonfire. Para participar do evento, entretanto, os curitibanos precisaram lidar com uma situação delicada: o baterista original perdeu o pai às vésperas do show e, por isso, foi substituído por um músico que precisou aprender as canções em menos de 24 horas. Diante das circunstâncias, o set acabou reduzido a apenas quatro músicas. Ainda assim, o grupo procurou aproveitar ao máximo a oportunidade, com o vocalista Lucas Telles chegando a deixar o palco e ir até a pista para interagir e agitar junto ao público.

Encerrando o bloco de abertura, veio a Celeste, banda francesa de metal alternativo. Responsável pela apresentação mais diferente da noite, o quarteto exibiu uma identidade visual curiosa, com os integrantes surgindo como silhuetas diante do público e utilizando lanternas vermelhas na cabeça, criando uma atmosfera sombria e cinematográfica. Musicalmente, também entregou o repertório mais pesado da noite, com riffs densos, vocais agressivos e uso intenso de pedal duplo na bateria. Apesar da distância estética e sonora em relação ao Touché Amoré, o set despertou a atenção dos presentes, que acompanharam com interesse.

Diante de uma pista lotada e ao som de “What Sarah Said”, do Death Cab for Cutie, tocando nos alto-falantes, Jeremy Bolm (vocal), Clayton Stevens e Nick Steinhardt (guitarras), Tyler Kirby (baixo) e Elliot Babin (bateria) surgiram no palco. Sem perder tempo, o quinteto deu início à apresentação com “Flowers and You”, primeira faixa de Stage Four, levando a plateia à loucura logo nos primeiros acordes. Não demorou para que os stage dives começassem, enquanto os fãs se lançavam do palco em direção à pista. A partir dali, o grupo executou o álbum na íntegra, com o público cantando a plenos pulmões faixas como “Rapture”, “Displacement”, “Palm Dreams” e “Softer Spoken”, tratadas quase como hinos pessoais por aqueles que estavam diante do palco.

Curiosamente, chamava atenção a postura de Jeremy Bolm durante a execução das canções. Embora estivesse interpretando letras atravessadas pelo luto, pela tristeza e pelo arrependimento, o vocalista demonstrava uma energia impressionante e parecia incansável. Dividia o microfone com os fãs, aproximava-se constantemente da beira do palco e berrava cada verso com uma intensidade visceral. A cena reforçava uma das características mais interessantes de Stage Four: apesar de nascer de uma experiência profundamente dolorosa e pessoal, o disco encontrou no palco uma forma diferente de existir. Aquilo que no álbum é marcado pela perda e pela introspecção transformava-se, ao vivo, em catarse coletiva.

Encerrado o repertório de Stage Four, o quinteto ainda fez uma breve passagem por diferentes momentos de sua discografia. O grupo revisitou faixas como “~”, “Pathfinder” e “Come Heroine”, além de músicas mais recentes, como “Hal Ashby” e “Nobody’s”, ambas presentes em Spiral in a Straight Line (2024). A grande surpresa, porém, veio com “Green”, incluída no repertório após um pedido feito por um dos fãs. Para completar a sequência final, a banda também apresentou “Honest Sleep”, que entrou no lugar de “Limelight”.

Touché Amoré não apenas celebrou uma década de Stage Four, mas também evidenciou a força de um trabalho que conseguiu transformar uma experiência extremamente íntima em algo compartilhado por milhares de pessoas. Se no disco Jeremy Bolm registra a dor da perda, as lembranças e as contradições provocadas pelo luto, ao vivo essas mesmas composições mostraram uma dimensão coletiva, com cada verso sendo devolvido pela plateia em forma de gritos, abraços e stage dives.

Fotos: Mara Alonso (@mara.alonsoph/Musicult)