Após o rigoroso e inspirado resgate promovido no EP de estreia “A Tribute to the Gods of Music”, o multi-instrumentista Rafael Agostino dá mais um passo ambicioso com o projeto Hall of Gods. Se no trabalho anterior as homenagens majoritariamente cruzavam o oceano para reverenciar mestres europeus como Mozart, Beethoven e o próprio Bach, além do brasileiro Antônio Carlos Gomes, o novo single “Auri Sacra Fames”, lançado no dia 1º de maio, volta os holofotes para o maior expoente da música erudita nacional: Heitor Villa-Lobos.
Além da reverência musical, esta nova etapa do projeto nos traz uma temática importante. O título “Auri Sacra Fames” (expressão latina para “a maldita fome de ouro”) direciona a obra para uma dura crítica à devastação ecológica e à exploração desenfreada das riquezas naturais do Brasil. Nesse sentido, o single funciona como um sucessor espiritual direto da faixa “Guarany (Sons of The Forest)”, presente no EP anterior. Se a adaptação da ópera de Antônio Carlos Gomes utilizava a agressividade extrema de Marcello Pompeu e May Puertas para denunciar os séculos de massacre contra os povos indígenas, a releitura das composições de Villa-Lobos expõe a tragédia ambiental e a ganância do garimpo ilegal que continuam a sangrar as florestas brasileiras.
O infelizmente curto EP adapta trechos das lendárias Bachianas Brasileiras, série de nove suítes compostas entre 1930 e 1945, onde Villa-Lobos fundiu a técnica contrapontística e harmônica do período barroco de Johann Sebastian Bach com a pulsação inconfundível dos ritmos folclóricos do Brasil. Estruturado em três partes que formam o Opus 7 do projeto, o single traz pouco mais de dez minutos de um Metal Neoclássico pujante, intrincado e de extremo bom gosto.
A responsabilidade de guiar essa grandiosa adaptação recai sobre as cordas vocais de Gus Monsanto, vocalista brasileiro com passagens por bandas como Adagio, Revolution Renaissance e Human Fortress. O andamento da obra se inicia com “OP. 7 : I Preludio”, preparando o terreno com ótimas linhas vocais de Monsanto cantadas em português e um belíssimo instrumental guiado por pianos e cellos, honrando as partituras originais antes de desaguar na complexidade pesada de “OP. 7 : II Embolada”. É nesta segunda parte que o projeto insere peso e agressividade à obra, com muitos riffs e ótimas orquestrações. Agostino constrói uma verdadeira parede de riffs e marcações rítmicas desafiadoras, enquanto Monsanto exibe enorme versatilidade, imprimindo drive e agressividade na medida exata para dar contornos pesados à métrica da música. Há ainda a participação de Caroline Alencar no cello.
Ouça:
O desfecho ocorre com “OP. 7 : III Aria Cantilena”, movimento diretamente associado à célebre Bachianas Brasileiras Nº 5. O desafio de converter uma melodia chorosa e sublime, originalmente escrita para soprano e violoncelos, em uma levada de Heavy Metal é superado com maestria. A interpretação de Monsanto ganha contornos dramáticos, sustentada por solos precisos de guitarra e por uma base sólida que não tira o brilho lírico da composição original. O destaque maior, entretanto, vai para as seções percussivas, 100% a cara do Brasil, com os tradicionais “batuques” já utilizados pelo Overdose, Sepultura e Angra.
Sem baixar o volume das guitarras, “Auri Sacra Fames” mantém intacta a proposta central do Hall of Gods. Rafael Agostino demonstra novamente que o Heavy Metal e a música erudita caminham lado a lado, provando que a complexidade e a riqueza da erudição brasileira não deixam nada a desejar para os grandes compositores europeus. Assim como nosso riquíssimo Heavy Metal. Como fã tanto de música clássica quanto de Heavy Metal, torço para que mais projetos do gênero surjam e que o Hall of Gods continue nos brindando com tantas referências aos deuses da música.
Assista:

