Com repertório recheado de hits, Men At Work entrega noite de nostalgia e celebração em São Paulo

Formado no fim da década de 1970, na cidade australiana de Melbourne, o Men At Work consolidou-se como um dos grandes nomes do new wave e do pop rock. Mesmo com uma discografia enxuta — composta apenas por Business as Usual (1981), Cargo (1983) e Two Hearts (1985) — , a banda conseguiu emplacar sucessos atemporais que atravessaram gerações. Apesar da trajetória bem-sucedida, o grupo também enfrentou momentos conturbados e episódios trágicos, incluindo a morte do multi-instrumentista Greg Ham, em 2012. Ainda assim, em 2019, o vocalista Colin Hay decidiu reviver o nome do grupo para uma nova série de turnês, mantendo vivo e relevante o legado de um dos nomes mais icônicos da música pop australiana.

Pouco mais de dois anos após sua última passagem por São Paulo, o grupo retornou à maior metrópole da América Latina na última quarta-feira, dia 6, cidade que, aliás, figura entre as que mais consomem a música da banda, tanto nas plataformas de streaming quanto nas tradicionais rádios FM voltadas ao público easy listening. A apresentação aconteceu novamente na Vibra São Paulo e marcou o início de uma nova turnê brasileira, que ainda passará por cidades como Rio de Janeiro, Recife, Curitiba, Belo Horizonte e Porto Alegre.

Sem banda de abertura, o público foi chegando aos poucos e ocupando gradualmente os diversos setores da casa de espetáculos. Próximo do horário oficial marcado para o início da apresentação, às 21h, a Vibra São Paulo já estava completamente lotada. A plateia era bastante diversa: muitos jovens dividiam espaço com fãs na faixa dos 40 e 50 anos, que viveram o auge do new wave nos anos 1980, evidenciando como a música do Men At Work jamais se resumiu a uma moda passageira. Cerca de vinte minutos de atraso após o horário previsto para o começo do set, sem qualquer introdução grandiosa, efeitos especiais ou quedas de cortina, o fundador e único integrante original remanescente, Colin Hay, subiu ao palco acompanhado por Jimmy Branly (bateria), San Miguel Perez (guitarra e vocais de apoio), Yosmel Montejo (baixo e vocais de apoio), Rachel Mazer (saxofone, flauta e teclados), Scheila Gonzalez (saxofone, flauta, teclados e vocais de apoio) e Cecilia Noël (vocais de apoio). Após um simpático “Boa noite, São Paulo”, dito pelo frontman, o grupo iniciou a apresentação com “Touching the Untouchables”, faixa de Business as Usual marcada pela combinação entre guitarra cativante, baixo preciso, bateria firme e passagens de saxofone que flertavam com o blues. Na sequência, “No Restrictions” trouxe uma introdução de bateria bastante trabalhada, guitarras dedilhadas e um refrão animado, rapidamente acompanhado em coro pelo público. O destaque ficou também para o solo de guitarra e para as intervenções de flauta ao longo da canção.

Após a dobradinha inicial com clássicos do Men At Work, o repertório passou a abrir espaço para músicas da carreira solo de Colin Hay. “Broken Love” apresentou fortes influências de country e blues, além de permitir que Cecilia Noël exibisse seu talento na gaita. A cantora, aliás, continuou roubando a cena em “Come Tumblin’ Down” e “Can’t Take This Town”. Na primeira, arriscou algumas frases em português para incentivar a plateia a cantar junto — pedido prontamente atendido pelos fãs, que ainda acompanharam a música com palmas. Já na segunda, ela se destacou ao tentar transmitir a letra da canção com uma espécie de dança, além de assumir backing vocals de forma precisa.

O repertório seguiu alternando canções do Men At Work com composições da carreira solo de Colin. “Down by the Sea” surgiu com uma poderosa introdução de baixo e uma bateria repleta de nuances complexas que, em determinados momentos, chegavam a lembrar estruturas típicas do rock progressivo. Em uma breve pausa, Colin comentou o quanto ama tocar para os fãs brasileiros antes de engatar “Into My Life”, um dos principais sucessos de sua trajetória solo, levando a plateia a cantar em uníssono. Na sequência vieram “I Can See It in Your Eyes” e “Looking for Jack”, que não provocaram a mesma reação calorosa do público nos refrões. Em contrapartida, “Blue for You” e “Catch a Star” chamaram atenção pelas fortes influências de reggae, evidentes principalmente nas guitarras arrastadas e no groove descontraído das composições. “No Sign of Yesterday”, “The Longest Night” e “Underground” completaram o bloco intermediário da apresentação.

Já na reta final, “Dr. Heckyll & Mr. Jive” voltou a elevar a energia da plateia com seu ritmo acelerado, atmosfera descontraída e refrão carregado de humor. A partir daí, o show entrou em uma sequência praticamente irretocável de sucessos: “Overkill”, “Helpless Automaton” — interpretada por Cecilia Noël — , “It’s a Mistake”, “Who Can It Be Now?”, “Down Under” e, por fim, “Be Good Johnny”. Foi uma verdadeira viagem nostálgica que parecia conduzir os fãs diretamente de volta aos anos 1980. Ainda assim, fica a reflexão: talvez o impacto do setlist fosse ainda maior caso esses grandes clássicos estivessem distribuídos ao longo da apresentação, em vez de concentrados em sequência no encerramento.

Mesmo sem a presença da formação clássica, o Men At Work segue demonstrando enorme relevância e capacidade de entregar apresentações extremamente sólidas. Aos 72 anos, Colin Hay continua impressionando pela potência vocal e pela fidelidade com que reproduz as canções originalmente registradas em estúdio. Cecilia Noël, por sua vez, praticamente protagoniza um espetáculo à parte: interage com os fãs constantemente, dança, percorre o palco inteiro e esbanja carisma durante toda a apresentação. Já os músicos de apoio exibem um nível técnico impecável, executando cada arranjo com precisão e reforçando a sensação de profissionalismo que marcou a noite do início ao fim.

Fotos: Anderson Hildebrando (credenciado pelo site Heavy Metal Online)

Setlist

Touching the Untouchables

No Restrictions

Broken Love

Come Tumblin’ Down

Can’t Take This Town

Down by the Sea

Into My Life

I Can See It in Your Eyes

Looking for Jack

Upstairs in My House

Blue for You

Everything I Need

Catch a Star

No Sign of Yesterday

The Longest Night

Underground

Dr. Heckyll & Mr. Jive

Overkill

Helpless Automaton

It’s a Mistake

Who Can It Be Now?

Down Under

Be Good Johnny