Él Mató a un Policía Motorizado retorna a São Paulo e mostra que seu espetáculo funciona melhor em espaços alternativos

Em dezembro de 2023, São Paulo recebeu a segunda edição brasileira do festival espanhol Primavera Sound. Realizado no Autódromo de Interlagos, espaço que também costuma sediar eventos como Lollapalooza Brasil e The Town, o espetáculo reuniu uma programação diversificada, com nomes como The Cure, Beck, Cansei de Ser Sexy, Bad Religion e The Killers. Além das atrações musicais, o evento contou com ativações de grandes marcas, espaços cenográficos pensados para fotografias nas redes sociais e experiências interativas, compondo uma estrutura que ia muito além da música.

No domingo, segundo e último dia do festival, entre dezenas de atrações da música pop e alternativa, estava o grupo argentino Él Mató a un Policía Motorizado, que levou ao palco um repertório centrado em Súper Terror, álbum lançado apenas cinco meses antes. Entretanto, em meio ao calor intenso, às lojas de merchandising, às ativações promocionais e à distribuição de brindes, a apresentação acabou disputando a atenção do público com uma série de estímulos paralelos. Para completar, o show coincidiu com a apresentação da cantora canadense pop Carly Rae Jepsen no palco principal, conhecida mundialmente pelo hit “Call Me Maybe”. Embora tenha reunido seguidores fiéis e possivelmente conquistado novos admiradores entre aqueles que circulavam pelo festival em busca de rock alternativo, o grupo não recebeu a atenção que sua música merecia em meio à atmosfera dispersiva do evento.

Quase três anos depois, a banda finalmente teve a oportunidade de apresentar seu repertório em um ambiente mais intimista, no qual suas composições pudessem receber a atenção e o envolvimento do público. No último domingo (11), os argentinos subiram ao palco do Cine Joia, tradicional endereço da cena alternativa paulistana, para um show que também marcou seu retorno à cidade em formato solo após a apresentação no festival. A casa já havia recebido o grupo em 2022, quando dividiu a programação com os sergipanos do The Baggios. Curiosamente, aquela passagem também ocorreu em meio ao segundo turno das eleições presidenciais brasileiras, ocasião em que o vocalista Santiago Motorizado deixou claro seu apoio ao candidato Luiz Inácio Lula da Silva.

Histórico

Formado no início dos anos 2000, na cidade argentina de La Plata, o grupo teve uma trajetória inicialmente modesta, com os primeiros lançamentos restritos ao circuito underground. A situação começou a mudar com o EP Día de los Muertos (2008), que ajudou a ampliar a visibilidade do grupo e impulsionou algumas de suas músicas nas paradas locais. Naquele período, a banda também gravou uma sessão especial em estúdio, posteriormente distribuída pela MTV Argentina.

Em 2012, o lançamento de La Dinastía Scorpio consolidou o crescimento do conjunto e abriu caminho para uma extensa turnê pela América do Sul. O reconhecimento internacional, porém, ganhou força com La Síntesis O’Konor (2017), um dos trabalhos mais celebrados de sua discografia, que reúne faixas como “La Noche Eterna”, “El Tesoro” e “El Mundo Extraño”. Desde então, os argentinos passaram a integrar a programação de importantes festivais internacionais, incluindo Primavera Sound Los Angeles, Lollapalooza — nas edições chilena e argentina — e Estéreo Picnic, na Colômbia. A banda também registrou uma sessão completa para o programa musical norte-americano KEXP, ampliando sua exposição para além da América Latina. Em 2023, lançou Súper Terror, álbum que incorporou elementos eletrônicos de maneira mais acentuada à sua sonoridade, renovando a identidade musical do grupo e contribuindo para atrair novos ouvintes.

Experiência geral e shows

No dia da apresentação, São Paulo enfrentou uma forte chuva, que persistiu durante boa parte da tarde. Paralelamente, uma manifestação em apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva movimentou a Avenida Paulista. A presença de pessoas que seguiram diretamente do ato para o Cine Joia era perceptível pelos bonés, bottons, adesivos e bandeiras com referências ao Partido dos Trabalhadores (PT) e ao presidente. Apesar das condições climáticas e da movimentação na cidade, o evento registrou ótima procura, com os fãs ocupando a pista da casa de shows logo após a abertura dos portões.

Antes da atração principal, a discotecagem Oye Rock assumiu a responsabilidade de aquecer o público com uma seleção de clássicos do rock argentino, uruguaio, chileno e de outros países latino-americanos, estabelecendo uma atmosfera alinhada à proposta da noite. A programação também contou com o trio Los Otros, banda formada em São Paulo por integrantes de Rondônia, Buenos Aires e Curitiba. Com um indie rock cantado em português, o grupo apresentou composições que combinam referências do pop rock nacional dos anos 1980 a letras diretas e refrões de fácil assimilação.

Um detalhe curioso foi a familiaridade do público com o repertório: embora a banda ainda não tenha lançado um álbum e seus integrantes tenham anunciado a previsão de um primeiro trabalho completo para o início de 2027, havia fãs cantando músicas como “Rotina”, “Rockzinho Básico” e outras composições que sequer estão disponíveis nas plataformas de streaming. Ao longo da apresentação, a resposta da plateia demonstrou que o grupo já conta com uma base de admiradores, apesar de sua presença ainda discreta nas redes, onde registra pouco mais de mil ouvintes mensais no Spotify. Para encerrar o set, os músicos ergueram uma bandeira em apoio ao PT e a Lula, gesto que foi recebido com aplausos por parte do público.

Após a apresentação de abertura, o público foi agitado por mais uma sequência de rock latino enquanto aguardava a atração principal. Entretanto, problemas técnicos no sistema de som e a demora nos ajustes dos instrumentos provocaram um atraso de aproximadamente 30 minutos em relação ao horário previsto. Resolvidos os contratempos, os músicos Santiago C. Motorizado (baixo e vocal), Manuel “Pantro Puto” Sánchez (guitarra), Gustavo “Niño Elefante” Monsalvo (guitarra), Guillermo “Willy Doctora Muerte” Ruiz Díaz (bateria) e Agustín “Chatrán Chatrán” Spasoff (teclados) surgiram no cenário sob palmas e gritos. A dobradinha de abertura do set estabeleceu um diálogo entre diferentes fases da carreira, alternando a barulhenta “Navidad en Los Santos”, do EP Navidad de Reserva (2005), quando a banda explorava de forma brutal o noise rock de nomes como Sonic Youth, e “Un Segundo Plan”, do álbum Súper Terror (2023), que explora uma abordagem mais eletrônica e acessível. Ambas foram recebidas com entusiasmo, entre vocais entoados em coro, palmas e gritos com o nome da banda. A resposta calorosa demonstrou que, para os fãs presentes, as diferentes etapas da trajetória do grupo convivem sem grandes distinções.

Na sequência, foi a vez de o Cine Joia explodir com “La Noche Eterna”, um dos grandes destaques de La Síntesis O’Konor (2017). Conduzida pelas linhas hipnóticas de baixo e pela voz grave de Santiago Motorizado, a música provocou uma reação intensa, com o público acompanhando a melodia em palmas ritmadas e cantando praticamente no mesmo volume da banda. Ao final, os presentes emendaram um coro em apoio a Lula, incorporando o contexto político ao espetáculo. A energia continuou em “Diamante Roto”, que levou os fãs a abrirem uma roda punk na pista.

Se a passagem anterior do grupo pela cidade, durante o Primavera Sound de 2023, havia sido marcada por uma recepção mais discreta, no Cine Joia o cenário foi completamente diferente. Ao longo de músicas como “Mujeres Bellas y Fuertes”, “Más o Menos Bien”, “El Tesoro”, “Destrucción” e “El Mundo Extraño”, a banda mostrou a amplitude de sua identidade musical, transitando entre passagens ruidosas e explosivas, guitarras que remetem ao indie rock dos anos 2000 — em sintonia com a sonoridade de grupos como The Strokes e The Libertines — e arranjos eletrônicos de apelo imediato. A resposta da plateia foi impressionante: os fãs cantavam praticamente todas as letras, puxavam coros e gritavam o nome da banda com total devoção entre os intervalos das canções. Chamava a atenção, sobretudo, a formação de mosh pits, mesmo embora as músicas não fossem agressivas ou rápidas.

Apesar da entrega do público, um problema persistiu durante toda a apresentação: o volume baixo do sistema de som, que prejudicou parte da experiência. Ainda assim, a participação dos fãs foi tão intensa que superou finalmente o contratempo. O frontman Santiago Motorizado não conversou muito com os seguidores, mas, nas poucas vezes que iniciou diálogos, agradeceu a presença dos fãs e recordou as passagens anteriores do grupo pelo país. O vocalista também destacou que São Paulo recebeu o primeiro show internacional da banda, exatamente 19 anos antes. Como esperado, o músico também mostrou engajamento com o cenário político atual. Ao término de “Yoni B”, o cantor comentou algo como: “Essa foi a faixa 13 do nosso setlist… Bem, vocês sabem o que fazer no próximo dia 25”, em uma referência ao número eleitoral de Lula. Para encerrar a noite, o grupo retornou ao palco para um bis concentrado em alguns de seus singles mais conhecidos: “El Magnetismo”, “Ahora Imagino Cosas”, “Fuego”, “Chica de Oro” e “Mi Próximo Movimiento”. Recebidas com entusiasmo, as cinco músicas funcionaram como um presente para os fãs e coroaram uma apresentação que encontrou no ambiente intimista do Cine Joia o espaço ideal para evidenciar a força de seu repertório.

Em seu retorno à cidade de São Paulo, Él Mató a un Policía Motorizado mostrou que sua música melhor em espaços alternativos, já que entrega uma proposta intimista que estabelece forte conexão com seus seguidores. No Cine Joia, essa proximidade se traduziu em uma plateia completamente envolvida, que cantou, dançou e acompanhou cada momento do espetáculo.

Fotos: Lohanne Villela

Setlist

Navidad en Los Santos

Un segundo plan

La noche eterna

Diamante roto

Medalla de oro

Mujeres bellas y fuertes

Más o menos bien

Sábado

Tantas cosas buenas

El tesoro

Amigo piedra

Destrucción

Yoni B

Excálibur

El mundo extraño

El fuego que hemos construido

El magnetismo

Ahora imagino cosas

Fuego

Chica de oro

Mi próximo movimiento