Em contraste ao Carnaval, Tribulation conquista o público paulistano com sua música obscura

Fotos: Marcelo Catacci – @m.catacci

Em pleno início de Carnaval, entre blocos de rua e o ritmo contagiante do samba, os headbangers também encontraram espaço para celebrar a música pesada.

No último sábado (14), enquanto foliões lotavam bares e se espalhavam por diferentes festas temáticas, os fãs de metal tiveram a oportunidade de conferir o aguardado retorno da banda sueca Tribulation a São Paulo, quase quatro anos após sua última passagem pelo país. O show aconteceu no Burning House, espaço underground localizado na região da Barra Funda.

Formado na cidade de Arvika, em 2005, o grupo é hoje um dos nomes mais criativos do heavy metal contemporâneo. Com naturalidade impressionante, o quarteto transita por diferentes vertentes — do death e doom metal ao gótico e até elementos de post-punk — sem soar forçado ou artificial. Diante do reconhecimento conquistado nos últimos anos, era de se esperar uma casa cheia. No entanto, o público ocupou cerca de um terço da pista.

Pontualmente às 19h30, uma longa introdução começou a ecoar pelos alto-falantes: trilhas sonoras de filmes clássicos de terror, acompanhadas por luzes vermelhas, fumaça intensa e incensos, criaram uma atmosfera soturna no ambiente. O clima foi bem construído, mas a ambientação se estendeu por mais de 30 minutos — tempo excessivo, que gerou certa impaciência em parte da plateia.

Encerrada a introdução, subiram ao palco Johannes Andersson (vocal e baixo), Adam Zaars e Joseph Tholl (guitarras), acompanhados pela baterista brasileira Luana Dametto, integrante da Crypta, que assumiu o posto de Oscar Leander. Com visual vampiresco — maquiagem pálida e trajes sombrios — a banda iniciou o set com “The Unrelenting Choir”, faixa do mais recente álbum Sub Rosa in Æternum. A música evidencia a atual fase do grupo: atmosfera post-punk à la Bauhaus, vocais carregados de dramaticidade, peso nos guturais e solos bem distribuídos entre Adam e Joseph. Na sequência, “Tainted Skies”, outro destaque do novo trabalho, reforçou essa fusão entre o clima melancólico do pós-punk e a agressividade do death metal, sustentada por bases de guitarra precisas e densas.

Após apresentar as novidades, o grupo passou a revisitar a própria discografia. “Nightbound”, do álbum Down Below, foi recebida com entusiasmo. Já em “Hamartia”, o peso se intensificou, com uma pegada mais voltada ao death metal, arrancando da plateia um animado coro de “hey, hey”. Em “Suspiria de Profundis”, a iluminação vermelha, que havia dominado até o momento, deu lugar a tons esverdeados, ampliando o clima sinistro da faixa, marcada por atmosfera doom e passagens instrumentais mais progressivas, com explosões de guitarra. Para equilibrar, “In Remembrance” trouxe agressividade direta do início ao fim, reafirmando as raízes extremas da banda.

Depois de revisitar alguns trabalhos anteriores, o grupo voltou a destacar o novo álbum Sub Rosa in Æternum com “Hungry Waters”, “Saturn Coming Down” e “Murder in Red”. As três faixas evidenciam a atual fase da Tribulation: clima mais dançante, riffs carismáticos e refrães que rapidamente conquistaram o público, que cantou em uníssono. Fica claro que a banda caminha para uma sonoridade mais acessível. Para encerrar o repertório regular, a escolhida foi “The Lament”, resgatando uma atmosfera mais próxima do death metal tradicional.

No bis, duas músicas do álbum The Children of the Night fecharam a noite com força: “Melancholia” e “Strange Gateways Beckon”, ambas recebidas com grande empolgação pela plateia, que respondeu à altura da intensidade proposta pelo quarteto.

Tribulation entregou um espetáculo interessante. A habilidade de transitar entre diferentes vertentes sonoras foi o ponto alto da noite. Além disso, mesmo sob a estética sombria e a maquiagem carregada, os integrantes demonstraram carisma e domínio de palco. Já Luana Dametto, baterista conhecida pelo trabalho extremo na Crypta, com skank e blasts beats, mostrou versatilidade ao se adaptar com naturalidade às dinâmicas mais cadenciadas do som dos suecos, reafirmando seu talento no instrumento. Sem dúvida, foi uma apresentação que merecia ter atraído um público maior.

Fotos: Marcelo Catacci (credenciado pelo site Heavy Metal Online)

 Setlist

 The Unrelenting Choir
 Tainted Skies
 Nightbound
 Hamartia
 Suspiria de profundis
 In Remembrance
 Hungry Waters
 Saturn Coming Down
 Murder in Red
 The Lament

 Bis:
 Melancholia
 Strange Gateways Beckon