Entre gerações: Fiddlehead e Rival Schools unem passado e presente do underground em São Paulo

O Fiddlehead fez sua estreia no Brasil em um show épico no domingo, dia 22. A já tradicional casa de shows Fabrique Club, localizada na Barra Funda, em São Paulo, recebeu o quinteto de Boston sob a clássica garoa paulistana — cenário perfeito para uma noite intensa. Rival Schools, outro clássico da cena, também esteve entre as atrações principais.

Desde as 18h, a frente da casa já estava tomada pelo público que aguardava ansiosamente o início das apresentações. Camisetas das bandas circulavam entre vendedores ambulantes, enquanto, em um boteco típico da região, o som da noite já ecoava em uma caixa improvisada, antecipando o clima que tomaria conta do bairro.

A banda Capote abriu os trabalhos por volta das 18h30. Os santistas, que inicialmente demonstraram certa timidez, entregaram um ótimo show com sete músicas que traduzem o emo noventista em sua forma mais pura e honesta.

Com a participação especial de Marília, vocalista da banda Jonabug, na faixa “Perto do Fim”, o Capote reforçou a sensação que tive quando “Joelho Ralado” tocou aleatoriamente na minha playlist meses atrás: é uma banda que merece muito mais atenção pelo som consistente que vem construindo. Encararam a responsabilidade de abrir uma noite tão aguardada e fizeram isso com competência e personalidade.

Logo depois, o Zander subiu ao palco. Sou suspeito para falar — raramente perco um show da banda em São Paulo. Hoje, é provavelmente o show que mais gosto de assistir, seja pelo intimismo que criam, pelas letras que me fazem pensar “eu queria ter escrito isso”, ou pelo instrumental sempre preciso. Com Carlos “Fermentão” nas baquetas — também baixista do Sugar Kane — a banda ganha ainda mais peso, formando a configuração que mais gosto de ver ao vivo. O show foi carregado de emoção, mas de uma forma diferente da habitual. Deixo aqui, inclusive, um forte abraço ao meu amigo de longa data, Faust Oi.

Foram dez músicas, começando com o hit “Meia Noite” e encerrando com a potente “Pólvora”. No meio do caminho, clássicos indispensáveis como “Bastian Contra o Nada”, “Até a Próxima” e um cover energético de “Ímpar”, do Noção de Nada. Imagino o desafio que deve ser montar um setlist com tantas músicas que marcaram tanta gente. Limitar-se a dez faixas não deve ser fácil — mas nada disso tirou o brilho de mais uma apresentação memorável.

O Rival Schools, liderado pelo lendário Walter Schreifels, subiu ao palco para completar um ciclo pessoal: era a última banda do vocalista que ainda me faltava ver ao vivo. Depois de assistir Gorilla Biscuits, Youth of Today e Quicksand, eu já sabia que algo especial estava por vir. Com um setlist dançante e energético e uma presença de palco impressionante, “Waltinho” fez cada minuto de espera valer a pena. Foram treze músicas cantadas em coro pela plateia, criando aquela sensação agridoce de “poderia durar mais” — mas ainda havia Fiddlehead pela frente.

E então, finalmente, o Fiddlehead. A intensidade foi imediata. Fiquei alguns minutos simplesmente paralisado, tentando processar o que estava acontecendo no palco. Patrick Flynn conduziu dezenove músicas praticamente sem pausa, numa avalanche de energia que transformou a Fabrique Club em um reduto de riffs melódicos, letras emotivas e conexões profundas.

O público respondeu à altura: saltos, abraços, vozes em uníssono. O punk/hardcore tem esse poder transformador — não apenas pelo som, mas pelo sentimento de pertencimento que cria entre pessoas que muitas vezes só se encontram nesses momentos.

Voltei para casa exausto, mas com aquela vontade de viver tudo de novo. Tranquilo também por saber que a New Direction Productions continuará trazendo noites como essa para o Brasil.

Fotos: Flávio Santiago (Credenciado pelo portal On Stage, que gentilmente compartilhou seu trabalho)




Setlist – Capote

01 – Propaganda

02 – Eu, pesadelo

03 – Tentei mudar

04 – Essência

05 – Perto do fim (feat Marilia – Jonabug)

06 – Joelho ralado

07 – Através das minhas mentiras

Setlist – Zander

01 – Meia noite

02 – Dezesseis

03 – Auto falantes

04 – Terreiro

05 – Linha vermelha

06 – Humaitá

07 – Bastian contra o nada

08 – Até a próxima

09 – Ímpar (Noção de Nada cover)

10 – Pólvora

Setlist Rival Schools

01 – Wring it out

02 – 69 guns

03 – Everything has it point

04 – High acetate

05 – Favorite star

06 – A part for B actors

07 – Small doses

08 – My echo

09 – Used for glue

10 – Travel by telefone

11 – Good things

12 – Undercovers on

13 – Hooligans for life

Setlist Fiddlehead

01 – Grief motif

02 – The years

03 – The deathlife

04 – Sleepyhead

05 – Million times

06 – True hardcore

07 – Tidal waves

08 – Head hands

09 – Spousal loss

10 – Poem you

11 – My world

12 – Eternal you

13 – Sullenboy

14 –  Get my mind right

15 – Fifteen to infinity

16 – Heart to heart

17 – Lay low

Bis:

18 – Usma

19 – Loverman


Texto: Felipe Rocha