O Death Metal, quando executado por quem entende e respeita suas raízes, não precisa de invencionices ou apelo a modernidades. “Once Alive Always Dead”, segundo disco do projeto potiguar Open the Coffin, lançado em abril do ano passado, é a prova material disso. Idealizado por Cláudio Slayer, que gravou vocais, baixo e guitarra, o álbum soa como uma exumação sonora: sujo, ríspido e totalmente focado na velha escola do Metal extremo. Mas além da música em si, há várias coisas que chamam a atenção. O título do trabalho é uma delas: “Uma vez vivo, sempre morto”. Genial!
A arte da capa já nos deixa preparados para o que esperar desta obra. Ela carrega a assinatura do gaúcho Marcos Miller, um dos maiores artistas do underground sul-americano. Basicamente, é como se o pintor Hieronymus Bosch voltasse do mundo dos mortos e resolvesse criar capas de Metal propriamente ditas, afinal, suas obras poderiam ser usadas facilmente com este propósito.
Longe da assepsia das ilustrações digitais de hoje, e do uso desenfreado de inteligência artificial, o traço de Miller traduz a podridão do álbum com maestria. Nada melhor do que trabalhar com um artista que ama o que faz e entende o que a velha escola exige: uma atmosfera fúnebre, de pura decadência e cheiro de cemitério. É clichê? Sim, e quem não adora um clichê no Metal?

As sessões de gravação do álbum ocorreram entre abril e maio de 2025 no Black Hole Studio, em Natal, sob o comando de Flávio “Horroroso” França e Leonardo “Dumal” Cunha. A mixagem e a masterização, feitas pelo estúdio Heavy Track (SP), preservaram a sujeira analógica. O grande acerto da produção é justamente isso, tudo ali soa orgânico, fugindo das baterias trigadas e das guitarras plastificadas que infestam parte do cenário atual. É Metal em estado bruto.
Logo na primeira música, o timbre rasgado da guitarra toma conta. O uso do clássico pedal HM-2 despeja o tradicional som de motosserra que definiu o Death Metal sueco nos anos 90. Distribuídas em pouco mais de meia hora, faixas como “Burn My Coffin” e a própria música-título são diretas e empolgantes. O baixo estourado e os vocais agoniantes carregam a temática de horror e zumbis com muita naturalidade. Para a bateria, Cláudio Slayer contou novamente com os préstimos de Flávio Neves, que executa um trabalho de primeira.
Como o resultado final é bem homogêneo, fica até dificil escolher alguma faixa preferida, mas além das duas citadas acima, temos por obrigação citar “Zombified” e “Tudo Pertence à Morte”, essa última com um refrão, na melhor das hipóteses, grudento e pútrido:
“Eu sou o senhor do caixão
E tudo pertence a morte
Eu sou o senhor do caixão
E tudo pertence a morte”
Esse aceno a cantar em língua portuguesa abre um leque de possibilidades. Primeiro, porque o resultado ficou muito bom, fácil de cantar junto. Segundo, deixa o material mais rico e certamente dá ao projeto uma nova identidade, sem ficar refém de letras em inglês.
Enfim, para quem já conhece o Open the Coffin, sabe que é um trabalho sem firulas, excelente para deixar rodar e curtir sem pretensões esta que é uma verdadeira ode ao Death Metal. Embora 2025 já tenha passado e 2026 tenha efetivamente começado, “Once Alive Always Dead” ainda está fresco como um cadáver e certamente é um dos melhores álbuns lançados do ano que passou. Se você curtir Death Metal “old school”, é um prato cheíssimo.
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