Deathgeist atinge o ápice com “Underworld”, seu mais inspirado álbum; confira resenha

Quem acompanhou o Thrash Metal brasileiro na década de 1990, certamente ouvia Bywar ou pelo menos tinha conhecimento da banda. Do seu surgimento em diante, foram lançados quatro excelentes álbuns, que ajudaram a moldar o estilo e o gosto pelo “old school” de muita gente, afinal, desde a primeira demo, “The Evil’s Attack”, de 1998, até o último álbum, “Abduction”, de 2011, o que pudemos ouvir foi um verdadeiro resgate do Thrash oitentista, que, graças à banda, serviu como referência para uma geração sedenta por mosh e colete de patches.

Ao mesmo tempo, tínhamos bandas como o Brutal Faith e o Panzer, que adotavam uma sonoridade pesada, mas com um toque de groove, lançando ótimos discos e fazendo shows sempre empolgantes. Por fim, no início da década de 2000, apareceu o Woslow, injetando sangue novo na cena. Desta mistura entre as raízes do Thrash e a “modernidade” do Groove, temos a bagagem de Adriano Perfetto (vocal e guitarra) e Victor Regep (guitarra), ambos ex-integrantes do Bywar, e ao lado da dupla, Maurício Bertoni (baixo), ex-Panzer e Brutal Faith e Fernando Oster (bateria), ex-Woslow, formando um time com experiência e que entende do riscado.

Ouça:

Na ativa desde 2017, o Deathgeist já acumula, com “Underworld”, quatro álbuns de estúdio, uma discografia consistente e em crescente amadurecimento. E esta é a palavra que podemos usar aqui, para definir o disco de forma clara. Musicalmente, o trabalho propõe uma quebra de expectativa para quem acompanha os primeiros lançamentos do grupo. O Thrash da banda segue como foco, mas há um espaço muito maior para uma abordagem mais próxima do Heavy Metal tradicional, resultando em composições um pouco mais melódicas. Algo, que aliás, sempre esteve incrustado na sonoridade do grupo. A dinâmica entre Perfetto e Regep, resultado de décadas de parceria, é o grande alicerce dessa nova fase, com foco na construção de riffs elaborados, harmonias de guitarras gêmeas que remetem à NWOBHM e solos muito bem articulados, valorizando a melodia. Destaque também para a belíssima capa, criada por Regep.

O diferencial de “Underworld” reside exatamente nessa vibe: enquanto o instrumental se mostra técnico e polido, as linhas vocais de Perfetto mantêm uma rispidez rústica, flertando com o famigerado Blackened Thrash. Esse contraste impede que o material soe artificial ou perca a agressividade característica da banda.

Para sustentar essas variações de andamento, a cozinha formada por Maurício Bertoni e Fernando Oster não deixa furos, enquanto a inserção pontual de sintetizadores adiciona um “algo a mais”, o que faz muita diferença. Faixas como a homônima “Underworld”, que abre a bolacha, seguida de “Mind Games” (com destaque para o baixo), expõem esta nova fase do Deathgeist, e o resultado é empolgante. Há muita melodia, riffs anavalhados e empolgantes, perfeitos para o mosh. A faixa-título, diga-se de passagem, torna-se viciante após algumas audições, sobretudo pelos riffs despejados em profusão e ao seu ritmo veloz, com momentos mais cadenciados.

“Destination Dust” vem na sequência com ótimas linhas de bateria, acompanhadas por mais uma overdose de riffs (que inspiração hein?), enquanto os vocais de Perfetto me trouxeram à mente alguns nomes obscuros do Thrash Metal devido ao seu estilo de cantar. “The Kraken’s Wrath” possui uma pegada mezzo veloz mezzo cadenciada, com riffs empolgantes e um trecho mais calmo, com dedilhados e sintetizadores, que abre espaço para um final que alterna entre velocidade e ótimas linhas de bateria.

“UFO Inc.” é, talvez, a faixa mais experimental, focando em colocar o pé no freio e investindo em guitarras pesadas e uma cozinha cadenciada. “Last Memories” é quase uma balada, muito bem construída e melódica, ao passo que “When Darkness Falls” traz de volta a velocidade, guiada por riffs inspirados. A penúltima, “In the Darkwood”, tem bons momentos, principalmente de solos de guitarra, abrindo caminho para a finalização com a climática e quase épica “Skinwalkers”, que fecha o álbum mostrando a força do grupo.

O que fica evidente após a audição de “Underworld” é que os integrantes souberam usar a sua experiência para não soar datado ou repetitivo. É um prato cheio tanto para os velhos fãs de Thrash que buscam riffs cortantes, quanto para quem aprecia incursões pelo Heavy Metal tradicional. Este é, sem sombra de dúvidas, o melhor e mais inspirado trabalho do quarteto até aqui.