O cantor, compositor e multi-instrumentista Mac DeMarco já é um velho conhecido do público alternativo. Ele ganhou destaque na cena indie no início dos anos 2010 com álbuns como 2 (2012) e Salad Days (2014), que apresentavam uma sonoridade marcada por guitarras limpas, vocais suaves e uma atmosfera aparentemente despretensiosa, mas cuidadosamente construída. Nesse período, o artista também chegou a se apresentar no Brasil, consolidando sua base de fãs por aqui.
No entanto, sua popularidade se expandiu de forma significativa durante a pandemia, impulsionada pela ascensão de redes sociais como Tiktok e Instagram. Músicas como “Chamber of Reflection” e “Freaking Out the Neighborhood” viralizaram em vídeos com estética nostálgica e introspectiva, muitas vezes associada a um sentimento de melancolia leve — algo que dialogou diretamente com o comportamento do público na plataforma. Seu estilo passou a embalar conteúdos sobre solidão, memória e relacionamentos, temas amplamente explorados nas redes sociais. Assim sendo, um possível show de retorno do artista aos palcos brasileiros vem sendo idealizado com desejo: parte pelos fãs antigos, mas principalmente pela nova leva de ouvintes.
Felizmente, a espera finalmente chegou ao fim para o público paulistano. Após oito anos desde sua última passagem pela cidade, Mac realizou, no último fim de semana, duas apresentações com ingressos esgotados no palco da Audio. Os shows, organizados pelo selo Balaclava Records, fazem parte da turnê “Guitar”, que também inclui outras capitais brasileiras, como Belo Horizonte, Recife, Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba. A equipe do Heavy Metal Online teve a oportunidade de conferir a segunda data, realizada no domingo (05).
A abertura da noite ficou por conta de Pedro Martins, artista também vinculado ao selo Balaclava Records. Seu som traz uma estética que remete ao rock nacional dos anos 1980, com passagens que até lembram Guilherme Arantes, mas reinterpretadas sob uma abordagem contemporânea que dialoga com o indie rock. Ao longo da apresentação, Pedro evidenciou por que é apontado como uma das revelações da guitarra no Brasil, preenchendo suas músicas com solos bem elaborados e sensíveis. A iluminação mais baixa contribuiu para a atmosfera do show, combinando perfeitamente com o tom melancólico de suas composições.

Após uma breve troca de instrumentos, Mac DeMarco surgiu no palco com seu habitual ar descontraído, acompanhado de seus músicos de apoio. Sem grandes efeitos ou introduções elaboradas, iniciou o show com “Shining”, faixa presente em Guitar (2025), álbum que dá nome à turnê. Em seguida, “For the First Time” trouxe destaque para o contrabaixo e os sintetizadores, enquanto “Sweeter” manteve o clima intimista, com foco em guitarras suaves e linhas minimalistas.

O repertório seguiu alternando entre clássicos e músicas mais recentes. Em faixas como “Salad Days” e “20191009 I Like Her”, Mac assumiu a guitarra, evidenciando sua versatilidade como multi-instrumentista e elevando a energia da plateia. Mesmo em canções mais contemplativas, como “Still Beating”, “Heart to Heart”, “Passing Out Pieces” e “Home”, o artista buscava manter o público engajado. Em diversos momentos, incentivou palmas, conduziu movimentos coletivos e interagiu de forma espontânea — seja brincando com uma bandeira do Brasil lançada ao palco, contando histórias absurdas ou soltando gargalhadas e falando sozinho no palco. Em um dos momentos mais inusitados, durante “Another One”, chegou a fazer uma bananeira. Além disso, ele se movimentou com estilo irreverente durante praticamente todo o show, como se comunicasse com a plateia por meio da dança.

Na reta final, “Freaking Out the Neighborhood” levou a casa abaixo com seu riff marcante, enquanto “Chamber of Reflection” foi cantada em uníssono pela plateia, consolidando seu status de clássico contemporâneo. O encerramento ficou por conta de “My Kind of Woman”, fechando a noite em tom emocional. Antes de deixar o palco, Mac pediu desculpas pela longa ausência no Brasil e prometeu que não demorará tanto para retornar.
Mac DeMarco entrega um show que transita entre o humor e a emoção, equilibrando leveza e profundidade mesmo ao abordar temas como solidão e nostalgia. Trata-se, sem dúvida, de um artista singular dentro da nova geração — alguém que transforma simplicidade em conexão genuína com o público.
Fotos: Tamires Lopes























Setlist
Shining
For the First Time
Sweeter
On the Level
Phantom
Salad Days
20191009 I Like Her
The Stars Keep On Calling My Name
Rock and Roll
Still Beating
Passing Out Pieces
Home
Heart to Heart
Knockin
Ode to Viceroy
One More Love Song
Another One
Rooster
Freaking Out the Neighborhood
Holy
Moonlight on the River
Chamber of Reflection
My Kind of Woman
