No último final de semana, São Paulo recebeu a segunda edição do Bangers Open Air. Realizado no Memorial da América Latina, o evento já se consolida como um dos favoritos do público headbanger paulistano — não apenas pelo lineup de peso que costuma exibir, com nomes de diferentes vertentes da música pesada, mas também pela experiência oferecida, comparável à de grandes festivais europeus.
Como aquecimento para a programação principal, a cidade recebeu uma série de apresentações paralelas. A agenda teve início na quarta-feira (22), com o metal atmosférico e obscuro de Evergrey e Silver Dust no Manifesto Bar. Já na quinta-feira (23), foi a vez do In Flames — um dos pilares do death metal melódico — dar continuidade à celebração no palco do clube Audio.
Para abrir a noite, a escolha não poderia ter sido mais acertada: o Throw Me To The Wolves trouxe ao palco uma sonoridade diretamente influenciada pela atração principal. Formado por nomes conhecidos da cena, como Gui Calegari e Maycon Avelino, o grupo paulistano já vem se consolidando como presença recorrente em aberturas de shows internacionais — tendo dividido palco recentemente com Exodus, Possessed e HammerFall. Desta vez, porém, encontrou um público especialmente receptivo ao seu estilo. Com uma proposta que transita entre o metalcore e o death metal melódico, a banda entregou uma performance técnica e segura, sustentada por riffs bem construídos e cativantes. O repertório destacou o álbum de estreia, com faixas como “Fragment”, “Gates of Oblivion” e “Gaia”. O vocalista Diogo Nunes foi um dos grandes destaques, combinando presença de palco e consistência vocal. Em um momento de descontração, o frontman também revelou que dividir a noite com o In Flames era a realização de um sonho antigo, já que é uma de suas bandas favoritas.

Após a troca de palco — e um atraso de cerca de 20 minutos — , Björn Gelotte (guitarra), Anders Fridén (vocal), John Rice (bateria), Chris Broderick (guitarra) e Liam Wilson (baixo) surgiram no cenário e começaram o show com “Pinball Map”, clássico do álbum Clayman. O riff marcante e o refrão poderoso foram prontamente acompanhados pelo público, que cantou em uníssono e começaram a agitar nas rodas. Na sequência, “The Great Deceiver” elevou a intensidade com sua combinação de guitarras detalhadas e bateria agressiva, puxando o primeiro grande coro da noite. “Deliver Us” trouxe peso e precisão, com destaque para o equilíbrio vocal de Anders entre guturais e melodias limpas.

Em “The Quiet Place”, o frontman reforçou a conexão com o público ao ceder trechos inteiros da música para a plateia cantar — e ainda protagonizou um momento inusitado ao pegar o celular de um fã na grade e registrar imagens do palco. A atmosfera seguiu mais densa com “In the Dark” e “Voices”, reforçando as raízes mais pesadas da banda.
A introdução eletrônica de “Cloud Connected” funcionou como uma viagem direta aos anos 2000, levando o público a pular em perfeita sintonia — um dos momentos mais marcantes da noite. “Trigger”, embora não tão popular no catálogo do In Flames, manteve a energia, enquanto a dobradinha “Only for the Weak” e “Meet Your Maker” consolidou o domínio da banda sobre a plateia, equilibrando melodia e agressividade com precisão.

O grupo ainda revisitou A Sense of Purpose (2008) com “Alias” e “The Mirror’s Truth”, evidenciando uma fase mais acessível e melódica. Já na reta final, Anders agradeceu aos fãs e destacou a importância do respeito dentro da comunidade do heavy metal: “Esse mundo está louco. Eu já venho dizendo isso a um bom tempo… só que agora está mais do que nunca”, comentou. Em seguida, vieram “I Am Above”, do álbum I, the Mask (2019), e o clássico “Take This Life”, verdadeiro hino do death metal melódico.
O saldo foi de uma apresentação intensa, profissional e marcada por forte conexão com o público. Ainda assim, a produção deixou a desejar em alguns aspectos: a iluminação limitada prejudicou a visibilidade do palco em diversos momentos, e o cenário minimalista — restrito a um pano de fundo — contrastou com o potencial visual do espetáculo. Recursos como o telão de LED, utilizados pela banda de abertura, poderiam ter sido melhor explorados também durante a atração principal.
Mesmo com essas ressalvas, a noite serviu como prova da força e da resiliência do heavy metal no Brasil. Ver uma casa cheia em São Paulo para assistir a uma banda sueca, longe do circuito mainstream, é um indicativo claro de que o gênero segue extremamente relevante.
Fotos: Flávio Santiago (credenciado pelo site On Stage)








Setlist
Pinball Map
The Great Deceiver
Deliver Us
The Quiet Place
In the Dark
Voices
Cloud Connected
Trigger
Only for the Weak
Meet Your Maker
State of Slow Decay
Alias
The Mirror’s Truth
I Am Above
Take This Life
