Resenha por Jaqueline Souza – @jackie.souza.flashes
Nota: 10
O Moonspell nunca foi uma banda acomodada. A experimentação sempre fez parte de sua identidade e, quando o assunto é explorar o obscuro com profundidade e poesia, poucos conseguem fazê-lo com a mesma autenticidade. Vinte anos depois de um dos períodos mais marcantes de sua carreira, os portugueses entregam uma obra que parece revisitar o passado sem soar nostálgica. Em seu 14º álbum de estúdio, Far From God, lançado em 3 de julho via Napalm Records, a banda recupera parte da essência que transformou Irreligious em um clássico absoluto do gothic metal, mas a apresenta sob uma perspectiva madura, densa e mais poética do que nunca.
Fernando Ribeiro volta a “escavar o abismo” em composições carregadas de simbolismo, conduzidas por atmosferas cuidadosamente construídas pelos teclados de Pedro Paixão. As linhas de baixo permanecem marcantes, as passagens progressivas dão espaço a uma abordagem mais direta, enquanto o peso surge exatamente onde precisa estar. São oito faixas de gothic metal em sua forma mais pura: sombrio, elegante e profundamente melancólico, evocando referências claras de Sisters of Mercy, The Mission e Joy Division. Tudo isso embalado por uma belíssima arte de capa assinada pelo israelense Eliran Kantor, responsável por trabalhos memoráveis para Helloween, Testament, My Dying Bride e várias outras.
A abertura com “Cross Your Heart” constrói lentamente uma atmosfera soturna, sustentada por teclados discretos e guitarras melancólicas. Fernando interpreta a letra quase como quem conta sua pórpria história, preparando o terreno para o restante do álbum.
Na sequência, a faixa-título, “Far From God”, eleva a intensidade com mais peso e uma aura gótica ainda mais evidente. É a música que melhor define a identidade do disco, impulsionada por um refrão daqueles que permanecem na memória logo na primeira audição.
Em “Biblical”, a melancolia continua predominante. Alguns riffs remetem à fase de Memorial e The Antidote, enquanto os teclados assumem papel fundamental ao alternar momentos de densidade e delicadeza sem comprometer a intensidade da composição.
“The Great Wolf in the Sky”, que conta com a participação da violinista espanhola Alicia Nurho, apresenta um dos arranjos mais interessantes do álbum. O violino cria um belo contraste com a interpretação de Fernando, reforçando a temática licantropa tão característica do universo clássico do Moonspell, elemento que também aparece em “Your Promise of Light”.
Para mim, é em “For the Love of Mortals” que Fernando entrega sua interpretação mais emocionante. A guitarra conduz toda a carga melancólica da faixa, dialogando perfeitamente com sua versatilidade vocal. É, sem dúvida, a “balada” de Far From God.
Na penúltima faixa, “Our Freedom to Fall”, provavelmente o momento mais agressivo do disco, a banda resgata brevemente elementos extremos de seu passado. Vocais rasgados, guitarras mais pesadas e uma bateria intensa elevam a tensão antes do encerramento, que fica por conta de “Reconquista”, uma composição que cresce de forma gradual até alcançar um grand finale digno da trajetória da banda. A faixa sintetiza diferentes fases dos 35 anos de carreira do Moonspell, reunindo em poucos minutos tudo aquilo que sempre definiu sua identidade: melancolia, peso, romantismo e dramaticidade.
Longe de tentar repetir o passado, Far From God demonstra que o Moonspell encontrou um equilíbrio raro entre revisitar suas próprias raízes e continuar evoluindo artisticamente. O resultado é um álbum elegante, emocional e maduro, que reforça por que eles seguem como uma das maiores referências do gothic metal no mundo todo.
