Between the Buried and Me em São Paulo: A redenção progressiva após seis anos
No dia 17/10/2026, os estadunidenses do Between the Buried and Me, referências do metal progressivo extremo, retornaram à capital paulista depois de sua estreia em 2020 (literalmente um dia antes do lockdown ser decretado) para a felicidade de todos os fervorosos fãs da banda (eu incluso). Os americanos vieram acompanhados pela banda de abertura Abstracted, proeminente nome do cenário do Prog Extremo do Brasil
A Abstracted entrou no palco pontualmente às 19:15, com uma certa desconfiança da plateia. Abrir para titãs do Prog Metal como o BTBAM não é tarefa fácil.
Então, ouvem-se os primeiros acordes de “Introspection: Ego Death” do álbum de estreia “Atma Conflux”. A faixa, ao longo de seus 12 minutos, já preparava o que viria em seguida: composições longas e intrincadas, perfeitas para o gosto do público da noite.
Após o fim da faixa de abertura, a banda se apresentou brevemente, com o vocalista anunciando que trariam, na sequência, faixas de seu mais recente lançamento (Hiraeth, 2026), enquanto os guitarristas José e Leonardo trocavam os instrumentos para guitarras de 7 cordas.
Em sequência, a banda não deixou fôlego para a plateia, executando, em sequência e sem pausas, Sirens e Axis, do referido Hiraeth.
Sirens é uma música que mostra um aspecto mais groovado e jazzistico da banda. Com passagens um pouco mais cantantes, contrastando com breakdowns em tempos não-ortodoxos, pra dizer o mínimo.
Axis segue um pouco a estrutura apresentada em Introspection. Uma faixa mais longa, mas contrastante com a primeira, por exibir elementos de metal moderno/djent que a banda definitivamente não tentou esconder. Para tristeza do público e desespero do vocalista Rosano Matiussi, o microfone morreu no meio da performance de Axis, e não voltava nem por decreto, até que o vocalista decidiu ser melhor esperar a música acabar para resolver o problema, que foi resolvido logo em sequência com a troca do microfone.
Languish veio em sequência demonstrando o lado mais pesado e cru da banda, uma das músicas mais diretas e pesadas escolhidas pela banda naquela noite. Uma faixa que remete à claras influências de Technical Death Metal e Deathcore, com seu Outro com guitarras que se sobrepõem em contrapontos muito bem executados.
Uma breve pausa para interagir com o público, até ser anunciada a penúltima faixa da noite. “Requiem”, uma faixa com uma intro bem suave somente com voz e guitarra, demonstrou um lado da banda que não fora muito explorado naquele repertório. Todavia, a calmaria tinha prazo de validade, onde, após dita intro, a banda veio novamente com a explosão sonora moderna que é tão característica do seu som. Uma faixa que funciona muito bem ao vivo pelas cadências propostas.
A saideira, após quase uma hora de show, ficou a cargo de “Decree of Sunlight” do álbum “Atma Conflux”. A faixa, definitivamente, mais intensa em termos de velocidade e técnica. São 9 minutos de tirar o fôlego, que fora muito bem executada pela banda naquela noite.
A audiência definitivamente se surpreendeu com a Abstracted, que deixou uma boa impressão e acertou em cheio seu público alvo naquela noite, sendo ovacionados na despedida.









Agora, para o prato principal, às 20:30 o BTBAM invadia o palco do Hangar 110 com Mirador Uncoil, faixa intro que desaguou na excelente Psychomanteum. Essa faixa poderia muito bem ter sido lançada num dos trabalhos clássicos da banda como Colors ou The Great Misdirect. É longa, caótica e progressiva.
Falando em The Great Misdirect, a “circense” Fossil Genera veio em sequência. Desde a primeira apresentação da banda, é inacreditável pensar como os músicos conseguem executar aquelas passagens tão intrincadas como um conjunto e soarem tão bem. Fossil Genera é um clássico absoluto da banda, e a plateia deixou muito claro que concordava. Ao longo de seus 12 minutos de duração, o público pareceu hipnotizado.
Com o fim épico à la Dream Theater de Fossil Genera, tivemos Condemned to the Gallows, do EP Automata I em sequência. Faixa um pouco mais curta (para os padrões do BTBAM) é mais objetiva. A faixa poderia ser categorizado em algo como “Pink Floyd rápido e com blast beats”. Eu sei que é um pouco difícil envisionar isso, mas confia em mim.
The Coma Machine trouxe a única representante do Coma Ecliptic, faixa que eu gosto bastante, mas vem de uma fase um pouco criticada pelos fãs por falta de peso, mas não faltou na plateia pessoas cantando o clássico refrão “YOU TEACHED US WHAT WAS”, então creio não ter havido muita resistência naquela noite.
Depois, a banda entregou duas do The Blue Nowhere: God Terror e Absent Thereafter. A banda mostra que ainda tem muita lenha para queimar com os excelentes vocais de Tommy Rodgers e a execução impecável de Paul Waggoner. Era evidente que tínhamos no palco uma banda muito bem entrosada.
A intro de teclado do clássico Selkies: The Endless Obsession trouxe a casa para baixo. Era ali que todos os fãs de longa data do BTBAM demonstraram o porquê de estarem ali. Uma das músicas mais bonitas que eu vi ao vivo e o solo foi um show a parte. Uma música memorável que foi gravada na mente e no coração dos fãs naquela noite.
The Future is Behind Us talvez foi a faixa mais morna da noite. Não que seja uma faixa ruim, mas pouquíssimas faixas não seriam ofuscadas (sem trocadilhos com Obfuscation) depois de Selkies. Talvez uma faixa mais branda não devesse ter sido colocada exatamente naquela posição.
Mas o que viria em seguida não teria precedentes. Boa parte dos fãs tem o álbum Colors (2007) como o clássico absoluto da banda. Não que seja um consenso absoluto, mas definitivamente é “O” disco do BTBAM. Com uma breve pausa para causar o suspense do bis, a banda entra com a pesadíssima Sun of Nothing. Os blast beats intercalados com os Breakdowns fizeram a plateia ir a loucura. É uma faixa muito especial, que passa por moods muito distintos, indo da intensidade a calmaria em questão de segundos. Definitivamente um dos pontos altos da noite, que só não foi O PONTO, pois nada me preparou para a faixa de encerramento.
Em 2020, a banda fechou o show com minha faixa favorita “White Walls”, e, para minha felicidade, nesse segundo show, eles fecharam com minha segunda favorita “Silent Flight Parliament/Goodbye to Everything”, do álbum Parallax II. A faixa é um épico de 15 minutos que parece mais uma Ópera espacial que uma música de Metal Progressivo. Realmente a execução não deixou a desejar e foi a cereja do bolo desse espetáculo trazido pelo BTBAM a São Paulo.












