Kreator une quatro décadas de história em “Krushers of the World”

Com “Krushers of the World” nas prateleiras e plataformas desde janeiro via Nuclear Blast, Mille Petrozza e companhia mostram exatamente por que seguem no topo do Metal europeu. Se alguém ainda aguardava uma volta àquela sonoridade crua de 1985, vai se decepcionar. Este disco carimba de vez o quarto capítulo da carreira do grupo: o “Kreator de estádio”, polido e projetado para funcionar em grandes festivais, com muita melodia e pomposidade. Para os fãs mais tradicionais, pode soar enfadonho, para os fãs de cabeça mais aberta, já acostumados com as várias facetas do grupo, nada muda.

Para compreender o álbum, é preciso olhar justamente para o que o Kreator tem criado em todas estas décadas. Assim como muitas bandas que gosto, muitas passaram por diversas transformações. E a década de 90 foi uma espécie de divisor de águas e laboratório de testes.

O fato é que a banda já não tem aquela agressividade primitiva da primeira fase (até “Coma of Souls”), onde a velocidade e a agressividade ditavam as regras. Embora faixas como “Satanic Anarchy”, “Blood of Our Blood” e “Barbarian” tragam riffs que remetem ao final dos anos 80 e sejam agressivas, a execução é bem diferente, afinal, nem sempre se pode viver da mesma sonoridade, como o AC/DC. O antigo Kreator está lá, mas com uma roupagem e produção mais encorpada.

O disco também acena para a segunda fase (de “Renewal” a “Endorama”), o período experimental e controverso dos anos 90. Em algumas faixas podemos notar alguns elementos daqueles álbuns. Particularmente, sou grande fã deste período e de todos os discos lançados naquela época, principalmente “Renewal” com sua crueza industrial.

Assista:

A espinha dorsal de “Krushers of the World”, no entanto, vem da fusão das duas eras seguintes. A estrutura das músicas e as guitarras gêmeas (e melódicas) de Mille e Sami Yli-Sirniö são herdeiras diretas da terceira fase (de “Violent Revolution” a “Phantom Antichrist”). Foi ali que o grupo incorporou a escola de Gotemburgo ao Thrash alemão: melodia e agressividade andando juntas. “Seven Serpents” é o exemplo claro: técnica apurada e refrãos que grudam na cabeça logo na primeira audição, além, é claro, de muitas guitarras melódicas e uma pegada meio Power Metal, pela velocidade e estilo dos riffs.

Isso nos leva ao momento presente, a quarta fase (de “Gods of Violence” até agora), onde a produção de Jens Bogren define a sonoridade. Tudo é grandioso, e às vezes a banda exagera nesse quesito. De qualquer forma, a bateria de Ventor tem um peso impressionante, e o baixo de Frédéric Leclercq ganha destaque. “Satanic Anarchy” resume bem o que vimos até aqui: um hino feito sob medida para o Wacken Open Air, com andamentos mais cadenciados, seguidos por partes refrãos melódicos, muitos riffs, solos fritados e encaixes de velocidade.

Ah, não podemos esquecer de falar da belíssima arte da capa, criada pelo mago contemporâneo Zbigniew Bielak (que já fez capas para o Ghost). É tanta referência que precisaria de um texto próprio para destrinchá-la.

“Krushers of the World” segue a lógica do Kreator, equilibrando o legado de quatro décadas de forma inteligente: tem a agressividade da fase clássica, a ousadia dos anos 90, a melodia da retomada nos anos 2000 e a pompa atual. Acho que é a melhor maneira de definir este álbum. É o registro de uma banda que sobreviveu a todas as tendências e devaneios (e alguns erros) do Thrash e criou uma sonoridade própria.

Ouça: