Após mais de uma década, Street Bulldogs retorna e entrega catarse coletiva durante show em São Paulo

Em 2025, o público underground foi presenteado com o excelente documentário Hardcore 90. Produzido por Marcelo Fonseca e George Ferreira, e desenvolvido ao longo de mais de 15 anos, o trabalho apresenta de forma detalhada e informativa a formação da cena hardcore nos anos 1990, contextualizando o surgimento das bandas, o ambiente cultural da época e trazendo entrevistas com personagens centrais do movimento.

Já em meados dos anos 2000, o hardcore — ao lado do pop punk — conquistou espaço no mainstream, alcançando grande visibilidade em rádios e canais como MTV e Mix TV. Essa exposição na grande mídia acabou impulsionando também a cena independente, já que muitos jovens que tiveram o primeiro contato com bandas mais populares passaram a buscar novos nomes dentro do gênero, ampliando o alcance do underground.

No entanto, quando o hardcore atingiu esse pico de popularidade, muitas bandas já acumulavam décadas de estrada na cena alternativa — como evidenciado no documentário — e algumas se encontravam próximas do encerramento de suas atividades, após anos de dedicação intensa. Entre os casos mais emblemáticos está o Street Bulldogs. Formado em 1991, o grupo teve papel fundamental no hardcore nacional, mantendo presença ativa por muitos anos e se consolidando como um dos principais nomes do underground brasileiro. Ainda assim, encerrou suas atividades em 2010, pouco tempo após o “boom” do gênero na grande mídia.

Com isso, uma parcela significativa do público — especialmente aqueles que eram adolescentes na época ou que passaram a acompanhar a cena posteriormente — não teve a oportunidade de assistir à banda ao vivo. Fãs de grupos como Dead Fish, Garage Fuzz, Zander, Pense e Bullet Bane frequentemente cultivaram o desejo de ver o Street Bulldogs nos palcos. Com o passar dos anos, a ausência do grupo contribuiu para a construção de uma aura quase lendária em torno de sua trajetória.

Felizmente, para diferentes gerações do público underground, a espera chegou ao fim. Após mais de 15 anos, a formação clássica do Street Bulldogs retornou aos palcos para uma mini-turnê por diversas capitais brasileiras. Em São Paulo, o reencontro aconteceu no último sábado (14), no Carioca Club. A cidade ainda contará com uma apresentação extra no dia 19, no Hangar 110, lendário reduto do punk rock paulistano que, inclusive, serviu de cenário para a gravação do último DVD da banda.

Apesar do clima nostálgico que cercava o retorno dos veteranos do hardcore nacional, nenhuma banda da mesma geração foi escalada para a abertura. Em vez disso, a festa contou com nomes mais recentes, evidenciando a renovação constante da cena.

Quem deu início à noite foi o Freak Fur, apresentando um hardcore melódico consistente, com sonoridade que remete a influências de Bad Religion e Garage Fuzz. Mesmo com o público ainda chegando, o grupo conseguiu aquecer o ambiente e preparar o terreno para as próximas atrações.

Na sequência, foi a vez do Contra o Céu, projeto recente que reúne nomes já conhecidos da cena, como Tyello Silva (ex-Dance of Days) e André Vieland (Good Intentions / Direction). Com uma proposta mais melódica, a banda trouxe letras voltadas à vida urbana, carga emocional e vulnerabilidades humanas. Foi interessante observar músicos tradicionalmente ligados ao hardcore mais pesado — como straight edge — explorando uma sonoridade mais acessível.

Encerrando o bloco de abertura, o Laboratori subiu ao palco, confirmando o crescimento de seu nome dentro da cena nos últimos anos. Com uma abordagem mais pesada, que incorpora elementos de nu metal, metalcore e vocais com influência do rap, o grupo destoou da linha mais melódica das demais atrações. Ainda assim, a apresentação foi bem recebida pelo público e se encaixou de forma coesa na proposta diversa do evento.

Então, com o Carioca Club completamente lotado, chegou o momento mais aguardado aguardado por muitos por mais de uma década. Léo Bulldog, Guilherme, Japa, Koala e Fábio Sonrisal surgiram no palco ao som da introdução ao piano de “Play This Song Again”. Bastaram poucos segundos após o início da música para que o espaço se transformasse em um verdadeiro pandemônio: stage dives, mosh pits e o público cantando em plenos pulmões tomaram conta da casa.

Sem pausas, o show seguiu em ritmo intenso, conduzido por um forte sentimento de nostalgia enquanto o Street Bulldogs emendava faixas como “Rainy Day”, “Less Than Your Words”, “Sheep and Shepherds”, “Unlucky Days”, “Friendship Is Not For Sale” e “We Are the One” — esta última, que dá nome ao documentário produzido pela Chuva TV. Em um breve momento de interação, Léo comentou de forma descontraída: “Pois é, vocês me convenceram a voltar”, fazendo referência ao fato de atualmente residir na Irlanda, onde também atua como tatuador. Mesmo após tanto tempo sem dividir o palco, os músicos demonstraram uma conexão impressionante, aliando técnica e carisma de forma natural.

Já na reta final, a banda apresentou “Tarde Demais”, uma das poucas composições em português do repertório. Para encerrar em clima de celebração, veio “Call Me At Home”, faixa que ganhou status de “hit” ao ter seu videoclipe exibido na antiga MTV Brasil. O momento foi ainda mais especial com a participação dos filhos de Guilherme na guitarra — apelidados de “Camargo Conspiracy” — além de uma invasão de fãs ao palco, que cantaram junto com a banda. No encerramento, até mesmo Léo se jogou em um stage dive.

Para muitos, foi a primeira oportunidade de ver o grupo ao vivo; para outros, a chance de reviver a atmosfera dos shows de hardcore melódico dos anos 1990 e 2000. De qualquer forma, é inegável que o retorno do Street Bulldogs foi um momento marcante para a cena.

Fotos: Raíssa Corrêa (@showww360) — credenciada pelo site “Raro Zine”, que gentilmente compartilhou seu trabalho com Heavy Metal Online

Setlist

Play This Song Again

Rainy Day

Reaction

Red Roses Bouquet

Less Than Your Words

Sweet Threat

We Build Our Own Way

Sheep and Shepherds

Unlucky Days

We Are the One

Friendship is Not For Sale

Mas(s)ters

Just Understand

Looser

Tornado

Listen to Me One More Time

Can’t Hear You Call My Name

Don’t You Remember

Sensation

Blind

Don’t Stay by My Side

Way of Lies

Spider

Dressed in Black

Remains Clear

Tarde Demais

Call Me at Home