Com lineup de peso, NDP Fest II transforma São Paulo em epicentro do hardcore
Em março de 2024, para a alegria do público hardcore paulistano, surgiu uma nova produtora com a proposta de fortalecer a cena local. Após décadas de experiência na organização de eventos no interior de São Paulo — especialmente em Piracicaba — , Bruno Genaro lançou a New Direction Productions. Desde então, a produtora mantém uma agenda consistente, promovendo mais de uma dezena de shows com bandas relevantes do cenário hardcore punk, como Shelter, H2O, Gorilla Biscuits, Glitterer, Lionheart, The 69 Eyes, Fiddlehead, Rival Schools, entre outras. Para celebrar seu primeiro ano de atividades, em março de 2025, a NDP realizou a primeira edição do festival, trazendo ao Brasil a lendária Earth Crisis, referência do hardcore vegan straight edge e do movimento de libertação animal.
Agora consolidada como uma das principais produtoras do circuito underground nacional, a New Direction Productions elevou ainda mais o nível com a segunda edição do NDP Fest. Demonstrando amadurecimento e maior profissionalismo, a produtora apresentou um line-up de peso, com destaque para o headline da noite: os australianos do Speed, atualmente um dos nomes mais relevantes do hardcore contemporâneo mundial. A escolha evidencia uma curadoria atenta ao momento da cena, apostando em bandas em ascensão global.
Além do headliner, o festival contou com o Clique, outro destaque recente da cena norte-americana; o Path of Resistance, projeto derivado do Earth Crisis e um clássico do straight edge; o Distante, representando a nova geração do hardcore argentino; e nomes nacionais como Eskrota, Last Warning e Bayside Kings. O evento aconteceu no último domingo (15), no Espaço Usine, mesmo local que sediou a edição anterior.
Durante as primeiras horas de evento, o público pôde aproveitar uma série de atividades paralelas, como bancas de merchandising, opções de alimentação e estandes com zines de cunho social. Esse momento inicial também proporcionou uma interação mais próxima entre fãs e artistas, com integrantes das bandas circulando livremente pelo espaço e trocando ideias com o público.
Abrindo os trabalhos, o Last Warning, banda de hardcore de Belo Horizonte formada em 2013, apresentou um som alinhado à estética da cena internacional do início dos anos 2010, com influências de Down to Nothing, Guns Up! e Cruel Hand, além de elementos de thrash e death metal. Uma escolha certeira para dar início ao festival.

Na sequência, o Eskrota, um dos grandes destaques recentes da música extrema nacional, elevou a energia do público com seu thrash metal veloz e festivo — incluindo até o uso de balões jogados para a plateia, em um momento descontraído que contrastou com o peso do som. A inclusão da banda, mesmo com uma sonoridade distinta das demais atrações, mostrou a abertura da curadoria do festival.

Dando início ao bloco internacional, o Distante, quarteto straight edge de Buenos Aires, trouxe ao palco uma sonoridade fortemente influenciada pelo youth crew do fim dos anos 1980 e início dos 1990, dialogando com nomes como Youth of Today, Alone in the Crowd e Chain of Strength. Liderado pela vocalista Pauli Ramirez, o grupo apresentou letras em espanhol com críticas contundentes ao uso de álcool e drogas, defendendo uma postura de consciência e disciplina. Para incendiar o público, executaram dois clássicos do straight edge: “Straight Edge Revenge”, do Project X, e “Glue”, do SSD, reforçando a força da nova geração latina dentro do movimento.

Na sequência, o Bayside Kings, um dos principais nomes do hardcore contemporâneo da Baixada Santista, subiu ao palco com uma proposta interessante: apesar de possuir parte de sua discografia em inglês, a banda optou por um repertório inteiramente em português, com faixas dos EPs “(R)evolução” (2024), “Tempo” (2022) e “Existência” (2021). Conhecidos por apresentações intensas, marcadas por mosh pits e stage dives constantes, o vocalista Milton Aguiar incentivou a participação ativa do público, permitindo que fãs dividissem o microfone durante as músicas. Entre os destaques, esteve a execução do single “Nada Para Mim”, lançado no fim do ano passado, indicando uma possível continuidade da banda na valorização de composições em português em futuros trabalhos.

Abrindo o bloco de atrações norte-americanas, o Clique surpreendeu ao iniciar sua apresentação com uma versão instrumental de “Gostava Tanto de Você”, clássico de Tim Maia. Com um set curto — cerca de sete músicas — , a banda compensou na intensidade, conduzindo o público a momentos de grande agitação ao som de faixas como “Communique”, “Rack Everything That You Need” e “On Stubborn Defiance”, que estimularam práticas mais agressivas de dança, como o crowdkilling. Entre uma música e outra, o grupo fez discursos contundentes abordando temas como anarquismo, resistência palestina e críticas a figuras políticas como Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Em certo momento, o guitarrista chegou a tentar se comunicar em português, mas desistiu por não se sentir confortável com o idioma. Ainda que breve, a apresentação foi intensa, direta e impactante.

Na sequência, o Path of Resistance tomou o palco instaurando um clima de tensão imediata. Com um visual que remete diretamente à estética mais radical do hardcore dos anos 1990 — balaclavas, capuzes e calças camufladas — , o grupo reforçou a atmosfera ao reduzir drasticamente a iluminação do espaço, criando um cenário ainda mais intenso e intimidador. Executando clássicos da vertente mais combativa do straight edge vegan, como “Fallen Prey”, “In Honor’s Name”, “Who Dares Wins” e “Counter”, a apresentação foi marcada por um nível de energia quase caótico: stage dives constantes, mosh pits espalhados por toda a casa e o público entoando os refrões como verdadeiros cânticos.

Na reta final, a banda iniciou “Firestorm”, clássico do Earth Crisis e um dos maiores hinos da cultura straight edge. No entanto, ainda nos primeiros momentos da execução, o show precisou ser interrompido após um fã se ferir durante um stage dive, sendo retirado de ambulância. Após cerca de 30 minutos de paralisação, a apresentação foi retomada, com o grupo reiniciando a faixa. Porém, a reação do público, compreensivelmente, já não apresentava o mesmo nível de intensidade visto anteriormente.
Depois de mais de seis horas de música e diversas atrações, chegou o momento do grande destaque da noite: o Speed. Por um instante, era possível imaginar que o público adotaria uma postura mais contida em função do ocorrido no show anterior — impressão rapidamente desmontada. Bastaram os primeiros acordes de “REAL LIFE LOVE” para que o espaço voltasse a se transformar em um verdadeiro caos organizado, com uma nova onda de stage dives tomando conta da pista.

A intensidade se manteve ao longo de todo o set, com faixas como “DON’T NEED”, “AIN’T MY GAME”, “KILL CAP” e “Not That Nice” impulsionando mosh pits violentos, crowdkillings, headwalkings e uma participação quase ininterrupta do público.
Mais do que a sonoridade pesada e contemporânea, o grande diferencial do Speed ao vivo está no carisma e na presença de palco. Entre as músicas, o vocalista Jem Siow conduziu discursos inflamados, falando sobre seu apreço pela cultura hardcore, celebrando a recepção brasileira e deixando claro seu posicionamento contra atitudes machistas, racistas e homofóbicas. Com uma postura enérgica — correndo pelo palco, gesticulando de forma exagerada e se comunicando de maneira direta e visceral — , sua postura evocava a intensidade de um líder carismático, capaz de mobilizar a multidão a cada palavra.

O show também contou com momentos inusitados, como a troca de vocais, quando Dennis “D-Cold” Vichidvongsa (guitarra) e Aaron “Saato” Siow (baixo) assumiram o microfone em determinados trechos. Para encerrar, “THE FIRST TEST” coroou a apresentação com sua já característica passagem de flauta executada ao vivo — um detalhe curioso que se tornou uma das marcas do hardcore contemporâneo.
Ao final, a New Direction Productions celebrou mais um ano de existência em grande estilo, consolidando-se como uma das produtoras mais relevantes e queridas do circuito hardcore paulistano. Não é exagero afirmar que o NDP Fest já se posiciona como uma espécie de “Outbreak Festival brasileiro”, tanto pela qualidade da organização quanto pela consistência de seu line-up, reunindo nomes essenciais da cena mundial e fortalecendo, ao mesmo tempo, o cenário nacional.
Fotos: Rafael Bino (profissional credenciado pelo site “Fúria Underground”, que gentilmente compartilhou seu trabalho com Heavy Metal Online) e Marcela Lorenzetti (@actualiity) — credenciada pelo site “Mad Sound”




















































