Nos anos 1980, o rap ainda se consolidava como expressão musical. Já o rock possuia certo espaço no mainstream. Nesse contexto, era natural a existência de um preconceito mútuo entre os estilos e seus seguidores. Parte do público do rock via o rap como algo vazio, sem virtuosismo técnico e até vulgar; por outro lado, muitos adeptos do hip-hop enxergavam o rock como um gênero distante da realidade, com letras que pouco dialogavam com as vivências das populações marginalizadas. Soma-se a isso o fator racial da época, que levava o rock a ser frequentemente rotulado como uma ferramenta da “indústria dominante branca”.
No entanto, ao longo do tempo. surgiram iniciativas importantes para aproximar esses universos, como a parceria entre Run-D.M.C. e Aerosmith em Walk This Way (1986), além da colaboração entre Public Enemy e Anthrax em Bring the Noise (1991). Também merece destaque o Beastie Boys, que incorporava elementos de punk e hardcore ao rap. No entanto, a virada mais decisiva viria com o grupo californiano Cypress Hill.
Com letras que abordavam questões sociais e a cultura latina, o som do grupo já carregava, de forma orgânica, uma forte estética ligada ao rock: bases mais pesadas, uso de guitarras, graves distorcidos e performances intensas com banda ao vivo. A consolidação dessa fusão se evidencia em momentos-chave da carreira do grupo, como sua participação no Lollapalooza de 1992, a divisão de palco com bandas de rock pesado e colaborações com membros do Rage Against the Machine. Além disso, o Cypress Hill conquistou o respeito do público headbanger — algo raro para artistas de rap naquele período.
Não por acaso, o grupo é frequentemente apontado como uma das bases para o surgimento do nu metal, influenciando diretamente bandas como Korn e Limp Bizkit, cujos integrantes já reconheceram a importância do conjunto em suas trajetórias.
Após uma apresentação no Lollapalooza, o lendário grupo realizou um show solo em São Paulo. O espetáculo aconteceu no último domingo (22), no palco da Audio, casa localizada na região oeste da capital.
Ao desembarcar na estação Palmeiras–Barra Funda, já era possível perceber o clima de ansiedade que tomava conta do público. Por volta das 18h — uma hora antes da abertura dos portões — as ruas próximas à casa de espetáculos estavam completamente tomadas por fãs, muitos ostentando bandeiras, camisetas e adesivos do grupo. Também chamava atenção a presença de entusiastas exibindo seus carros lowrider, em um verdadeiro desfile que celebrava a estética e a cultura hip-hop e chicana.
A fila impressionava: estendia-se pela Avenida Francisco Matarazzo e, mesmo próximo do início da apresentação, ainda havia uma quantidade considerável de pessoas aguardando para entrar. Já no interior da casa, enquanto uma discotecagem aquecia o público, os presentes puderam conferir uma ativação da Flying Fish, nova marca do portfólio Beyond Beer. A bebida — uma cerveja de baixo amargor, saborizada com limão-siciliano e com 4,5% de teor alcoólico — também marcou presença nas ações promocionais no Lollapalooza.
Pontualmente às 21h, DJ Lord surgiu no palco para aquecer a plateia. Em uma apresentação de durou algo em torno de 10 minutos, passeou por técnicas de scratching e surpreendeu com um mashup que incluía “Enter Sandman”, do Metallica, elevando ainda mais a expectativa do público. Ao fim da introdução, B-Real, Sen Dog e Eric Bobo tomaram o palco e abriram o set com “Put Em in the Ground” e “Let It Rain”, levando a plateia ao delírio.

A partir daí, o Cypress Hill conduziu um repertório poderoso, equilibrando faixas secundárias, como “Money”, “A to the K” e “Make a Move”, com clássicos como “When the Shit Goes Down”, “I Wanna Get High”, “Dr. Greenthumb” e “Tequila Sunrise”. Em diversos momentos, Eric Bobo e DJ Lord tiveram espaço para brilhar com solos que evidenciaram seu virtuosismo. O espetáculo visual também se destacou: praticamente cada música era acompanhada por uma arte distinta projetada no telão de LED, ampliando a imersão do público.

No comando do palco, os vocalistas exibiam dinâmicas complementares: Sen Dog assumia o papel de agitador, constantemente incitando a energia da multidão, enquanto B-Real mantinha um diálogo direto com os fãs, prontamente correspondido com entusiasmo. Em determinado momento, B-Real comentou que “vivemos tempos loucos, então precisamos de músicas loucas”, emendando com “Bombtrack”, clássico do Rage Against the Machine. Em outra interação, incentivou a abertura de um wall of death, transportando para o show uma atmosfera típica de apresentações de metal. Já em “(Rock) Superstar”, o grupo incorporou um sample de “Angel of Death”, do Slayer, reforçando ainda mais essa fusão entre rap e rock que se tornou marca registrada do conjunto.

Após cerca de duas horas de intensidade quase ininterrupta, o público ainda encontrou energia para responder com entusiasmo em “How I Could Just Kill a Man” e “Insane in the Brain”. Para encerrar, veio um cover de “Jump Around”, do House of Pain, transformando a pista da Audio em um verdadeiro mar de corpos em movimento.
Se a apresentação no Lollapalooza foi considerada morna por parte do público, com o grupo parecendo deslocado em meio a atrações mais voltadas ao pop, o show solo serviu como redenção. O Cypress Hill entregou exatamente o que se espera de sua trajetória: um repertório abrangente, energia constante, forte impacto visual e, acima de tudo, uma conexão genuína com o público.
Fotos: Camila Cara/Live Nation
































Setlist
DJ Lord Intro
Put Em in the Ground
Let It Rain
When the Shit Goes Down
Hand on the Pump
Cock the Hammer
3 Lil’ Putos
Money
A to the K
Stoned Is the Way of the Walk
I Wanna Get High
Dr. Greenthumb
Hits From the Bong
What Go Around Come Around, Kid
Boom Biddy Bye Bye
Illusions
Make a Move
Throw Your Set in the Air
We Live This Shit
Latin Thugs
Tequila Sunrise
Lowrider
Locotes
Wacha Trucha
I Ain’t Goin’ Out Like That
Bombtrack
Can’t Get the Best of Me
How I Could Just Kill a Man
Insane in the Brain
Bis
(Rock) Superstar
Jump Around
